“É imperdoável que portugueses e espanhóis não resolvam as ligações ferroviárias”. A entrevista de Pedro Nuno Santos ao El País

25 jun, 18:22
Pedro Nuno Santos no debate sobre Orçamento do Estado de 2022 (JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA)

Ministro das Infraestruturas realça que ligar a Península Ibérica através de caminhos de ferro "é algo diferente de apenas ligar Lisboa a Madrid” e reconhece que o tempo das viagens de comboio hoje entre Espanha e Portugal afasta os interessados

“Décadas de marginalização ferroviária” e uma “imperdoável” falta de ligações de caminho de ferro entre Portugal e Espanha é o diagnóstico apresentado por Pedro Nuno Santos, na entrevista dada ao jornal El País. A publicação espanhola destaca também que o ministro das Infraestruturas e da Habitação português é um “dos possíveis sucessores de António Costa” na liderança do Partido Socialista e que a “harmonia entre os governos ibéricos permitirá resolver as deficientes ligações ferroviárias entre os dois países”.

Desde que chegou ao ministério das Infraestruturas, em 2019, que a melhoria da rede ferroviária tem sido uma das bandeiras de Pedro Nuno Santos. A vontade de modernização mantém-se acesa, sobretudo no que toca às ligações entres os dois países da Península Ibérica que considera serem "más". “É incompreensível que dois países vizinhos tenham ligações tão frágeis”, começa por dizer o responsável português, lembrando que “Portugal e Espanha não conseguem oferecer um bom serviço aos passageiros de comboios, numa altura em que toda a Europa está empenhada em promover a transferência do automóvel para o transporte coletivo”.

“É imperdoável que portugueses e espanhóis não sejam capazes de resolver este problema comum das ligações transfronteiriças”, critica Pedro Nuno Santos.

O ministro das Infraestruturas realça ainda que os planos portugueses contemplam duas ligações de alta velocidades, entre Lisboa e Badajoz, em 2023, e entre Porto e Vigo, em 2030; bem como, uma terceira ligação entre Aveiro e Salamanca, prevista para 2040; e também uma quarta conexão de comboio entre o Algarve e Huelva, que ainda não está contemplada em qualquer plano orçamental. O responsável destaca que o Executivo português está focado no que “pode construir com o governo espanhol em várias frentes para garantir estas ligações transfronteiriças”.

Questionado sobre de quem será a culpa deste atraso, o socialista recusa responder, mas recorda que Portugal vem de sucessivas décadas de desinvestimento na ferrovia em prol das autoestradas, ao passo que Madrid nunca deixou de investir nos caminhos de ferro: “Se não apostarmos no comboio dentro de Portugal, estaremos menos preparados para trabalhar com Espanha e promover uma ligação”, reitera o responsável nacional.

Felizmente, hoje temos um Governo que prioriza o comboio e podemos olhar para um futuro ferroviário de uma forma diferente”, proclama o ministro.

“Queremos ligar Portugal a Espanha, o que é algo diferente de apenas ligar Lisboa a Madrid”

Pedro Nuno Santo evidencia que, quando Portugal tiver as infraestruturas, o serviço comercial irá despertar o interesse de vários operadores ferroviários. No entanto, até que tal aconteça, o responsável afirma que o Governo português está disponível para trabalhar com a Renfe e com a CP - como já aconteceu no passado com o comboio noturno Lusitania, que foi extinguido, muito por vontade da transportadora espanhola.

O responsável português reconhece, no entanto, que o tempo das viagens de comboio hoje entre Espanha e Portugal não é atraente e que por isso "as pessoas fogem dele". O ministro salienta que a "infraestrutura é um problema, mas enquanto não for resolvido gostaríamos de ter um serviço, seja ele qual for" e diz estar disponível para trabalhar com a Renfe numa solução que esta não seja um encargo orçamental para os operadores. "Estas ligações transfronteiriças também se justificam pela sua aspeto de serviço público".

A guerra na Ucrânia vem ainda intensificar esta necessidade de desenvolvimento ferroviário, uma vez que o porto de Sines surge como possível porta de entrada de gás e petróleo na Europa, em alternativa à energia russa. “O corredor para Espanha a partir de Sines, um dos maiores portos da Europa, tinha de ser feito”, afirma o ministro português, referindo que “inicialmente, estava previsto apenas para mercadorias e foi decidido realizar uma intervenção para que os passageiros pudessem ser transportados, mas isso não resolve a ligação da população que está em linha reta com Madrid”.

Em tom de despedida, Pedro Nuno Santos deixa ainda um recado para todos os intervenientes, tanto portugueses quanto espanhóis: “Queremos ligar Portugal a Espanha, o que é algo diferente de apenas ligar Lisboa a Madrid”.

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