Pedofilia: 24 portugueses pediram ajuda para travar desejo sexual por menores

30 mai, 07:54
Crianças

Chama-se Troubled Desire, é um projeto internacional de prevenção da pedofilia e dá apoio a pessoas que se sintam atraídas sexualmente por menores. Ricardo Barroso, responsável do programa em Portugal, falou em exclusivo à CNN Portugal e conta como estão a ser acompanhados os homens com idades entre os 20 e os 50 que assumiram o problema. "Propomos um programa de intervenção”, diz, garantindo que nenhum tem cadastro e que chegam num estado debilitado devido às ideias angustiantes

Têm entre 20 e 50 anos, são todos homens, vivem sobretudo em Lisboa e no Porto e estão, neste momento, a ser seguidos por médicos especializados, depois de terem assumido o medo de não resistir e abusar sexualmente de menores. O acompanhamento está a ser feito no âmbito de um projeto internacional que tem como objetivo o combate e prevenção da pedofilia Troubled Desire (Desejos problemáticos) - e que já está presente em mais de 15 países diferentes. “Em Portugal estamos a seguir 24 casos”, adianta à CNN Portugal Ricardo Barroso, psicólogo que trabalha neste projeto, que através de uma plataforma online permite que as pessoas com desejos sexuais com menores peçam ajuda através de um questionário anónimo, traduzido em várias línguas.

"Se alguém tem interesses sexuais pedófilos e precisa de ajuda, contacta-nos e a partir daí é providenciada intervenção”, explica, salientando que depois do primeiro contato feito através do site Troubled Desire, são tomadas medidas de intervenção, desde medicação a acompanhamento psicológico ou psiquiátrico

Entre os 24 portugueses, a situação é em quase todos a mesma. “Costumam sentir-se atraídos por crianças ou pré-adolescentes”, diz Ricardo Barroso, acrescentando que ao contrário de países como a Alemanha não há mulheres a ser acompanhadas, em Portugal. Nenhum deles tem cadastro, nem nunca cedeu à tentação, sendo essa, aliás, uma das exigências para poderem ser seguidos neste programa.

São todos homens, com 20 a 50 anos 

Em Portugal, a gestão deste projeto internacional está a ser feita pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em colaboração com associado o SexLab, que é o Laboratório de Sexualidade Humana da Universidade do Porto, tendo Ricardo Barroso ligações aos dois organismos.

Ao entrar no Troubled Desire, surgem duas questões no ecrã dos utilizadores: "É possível que eu próprio(a) me sinta atraído(a) por crianças" ou "É possível que alguém que eu conheço se sinta sexualmente atraído(a) por crianças". No entanto, a segunda pergunta não tem "o objetivo não é alguém denunciar outro", explica Ricardo Barroso, esclarecendo que "a pergunta está formulada dessa forma mais para a pessoa perceber que não é a única", porque "há pessoas que gostam que não falemos diretamente delas, mas sim através de outro". Esta estratégia pressupões que haja uma diminuição de pressão sobre os inquiridos de modo a que seja possível extrair mais informações.

Depois de os utentes contactarem a plataforma e de preencherem o formulário, é feito um relatório que, posteriormente, é analisado por um psicólogo ou por um psiquiatra. "A partir daí entra-se em contacto com a pessoa e propomos um programa de intervenção”, conta o psicólogo, acrescentando que todo o processo é realizado sempre por chat, não havendo nunca contacto visual entre o terapeuta e o utente.

“A certa altura pode começar a haver um acompanhamento através de videoconferência, mas há sempre o intermediário online neste processo todo", esclarece. Em certos casos, admite, pode até “haver acompanhamento presencial”. O que sucedeu, aliás, com dois dos portugueses que pediram ajuda. Para isso têm a sua disposição um psiquiatra em Lisboa e outro no Porto. “Duas pessoas, das áreas do grande Porto e da grande Lisboa, pediram apoio presencial e por isso foram inicialmente encaminhadas para um psiquiatra e depois também por um psicólogo”, conta ainda o responsável do projeto, salientando que esses portugueses “estão ainda a ser acompanhadas presencialmente”.  Entre os motivos para pedir apoio presencial pode estar alguma dificuldade de interação com o computador ou outro problema.

"Neste primeiro acompanhamento, também temos indicadores de risco com que vamos percebendo se há pessoas com maior ou menor probabilidade de avançarem para este processo. Mas, o que estamos tipicamente a lidar é com uma população que está motivada para este processo de mudança, consciente dos problemas e, na grande maioria, com consciência da necessidade de evitar colocar-se em contacto com crianças", refere.

Seja de que forma for, o objetivo, “é sempre proporcionar uma resposta de intervenção psicológica e psiquiátrica a estas pessoas sem as deixar desamparadas”. Até, porque pedir ajuda, garante Ricardo Barroso, é um passo gigante. “É muito difícil recorrerem a uma ajuda de contexto hospitalar ou privado seja ele qual for, porque antecipam que vai haver alguma repulsa sobre aquilo que vão dizer”. Segundo Ricardo Barroso, há a ideia errada de que estas pessoas são predadores, alguém que imediatamente vai cometer crimes. “O que estamos a falar é de pessoas que têm determinado tipo de interesses sexuais, não se sentem bem com isso e procuram ajuda para que as coisas nunca piorem do ponto de vista desses interesses sexuais", diz o especialista, lembrando que na generalidade dos casos esta é "a primeira vez que estão a falar do assunto". 

"Muitas vezes perguntamos, se já falou com a mulher, com a namorada ou namorado ou se com a família e a resposta é sempre 'não, nunca'", revela.

Além da intervenção psicológica, todos eles têm uma medicação como acompanhamento complementar. Ricardo Barros garante que "durante os primeiros meses, a intervenção farmacológica é muito útil" para a estabilização do humor destas pessoas que chegam num estado bastante debilitado em regra-geral, resultante de um "conjunto de ideias e angústias relacionadas com todo o processo". 

"A medicação ajuda numa primeira fase e a intervenção psicológica acaba por dar respostas aos problemas que a pessoa apresente", explica o responsável.

Entre as lista de 24 portugueses, há um que está a ser seguido há mais de dois anos, algum tempo depois do projeto ter tido início em Portugal. Este foi o primeiro homem a recorrer ao programa e já só é acompanhado a cada quatro meses, porque ao longo do tempo a periodicidade das sessões vai sendo alargada, começando sempre por ser quinzenal ou mensal. No entanto, como conta Ricardo Barroso, "em alguns momentos pode ser necessário voltar à terapia", nestes casos, "o utente entra em contacto com os profissionais e é reagendada um atendimento extraordinário para que se mantenha apoiado em todo o processo".

Em caso de crime sexual "é imediatamente expulso"

As desistências não são comuns, mas os participantes podem ser expulsos do programa, como acontece se houver algum "problema criminal relacionado com questões de abuso sexual". "É imediatamente expulso", garante o psicólogo, lembrando que esta é a regra principal para qualquer pessoa que queira pertencer ao projeto: "Todas as pessoas que se envolvem neste tipo de intervenção não têm qualquer cadastro". A acrescentar a tudo isto, em Portugal ao contrário de países como a Alemanha - onde surgiu o programa - os profissionais são ainda obrigados a notificar as autoridades em caso de terem conhecimento de que algum tipo de crime foi praticado.

A plataforma digital está, neste momento, traduzida para um total de 11 línguas e todos esses países têm também uma rede de prestadores de tratamento. Contudo, o responsável nacional lembra que o projeto se tornou muito mais vasto, dando o exemplo de países como Brasil, Angola ou Moçambique, onde já houve pessoas a recorrer à versão traduzida para português, tendo recebido acompanhamento virtual e em que, posteriormente, foi criado um mecanismo de apoio presencial através de profissionais do país de origem.

Apesar de só ter chegado a Portugal há pouco mais de dois anos, Ricardo Barroso conta, que o "projeto deverá ter cerca de uns 15 anos”, acrescentando que começou com um modelo de contactos telefónicos anónimos, sob o nome “Dunkenfeld, criado pela Universidade de Berlim e que está ainda associado ao Instituto de Sexologia e Medicina Sexual da Charité”. Klaus M. Beier, o diretor da Charité lembra que o Troubled Desire assenta na premissa de que “a preferência sexual, seja ela qual for, é predeterminada e não uma escolha. Ninguém decide a sua orientação sexual”.

Até ao momento, o site português tem sido financiado na sua totalidade pela Charité. Ricardo Barroso esclarece que o processo de tradução, a formação de profissionais e a intervenção completamente gratuita são sustentados na totalidade pelo instituto alemão. Mas alerta que "não vai ser possível continuar durante muito mais tempo" com este financiamento único, sendo "preciso encontrar outros recursos". O especialista acredita que o futuro possa passar por parcerias com unidades hospitalares.

"A última coisa que nós queremos é que a pessoa se sinta completamente desacompanhada, sozinha, porque isto aumenta o risco de se algum dia a oportunidade surgir, eventualmente, poderá haver um deslize por parte dessa pessoa. Aquilo que nós queremos é que isso nunca aconteça. A ideia é ir mantendo este controlo e autocontrolo no sentido de evitar que as coisas cheguem a problemas mais sérios", evidencia Ricardo Barroso.

Abusos sexuais de crianças em 2021: menos inquéritos, mas mais detenções

De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna de 2021, divulgado na quarta-feira, o número de detenções ligadas a casos de violação e de pornografia de menores aumentou. Já o número de inquéritos diminui.

O documento apresenta, no entanto, alguns traços comuns com a realidade do Troubled Desire: os agressores são na sua maioria homens - com idades entre os 31 e 50 anos, seguidos pelos escalões etários 21-30 e 51-60. O crime é em grande parte das vezes cometido contra vítimas do sexo feminino - geralmente com 8 a 13 anos.

A maioria das detenções esteve ligada a crimes de abuso sexual de crianças (36,3%), a pornografia de menores (25,2%) e a violação (15,5%). O contexto familiar (53,1%) continua a ser o principal ambiente dos abusos, seguido pelo cenário em que agressor conhece a vítima que representa (21,3%).

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