No Avante, onde as pessoas "pagam para trabalhar", compara-se Putin a André Ventura e pede-se que o partido "mude a cassete e passe para um CD"

3 set, 13:44

Militantes culpam ainda a comunicação social pelos maus resultados no partido. E, entre os entrevistados pela CNN Portugal, pede-se a saída de Jerónimo de Sousa - e isso é mais consensual que o nome do sucessor

“O partido está num bom caminho e está aqui o exemplo - uma festa destas, com a força das pessoas, a força do trabalho, a vontade, o crer. As pessoas pagam para vir aqui para trabalhar”, diz António Lopes. Militante de longa data do Partido Comunista Português, há décadas que vai à Festa do Avante. Na sua companhia tem a mulher, Manuela, também ela filiada no partido mais antigo de Portugal.

Os recentes resultados eleitorais do PCP, com a perda de metade dos mandatos de deputados no Parlamento e derrotas inéditas nas autárquicas, deixaram o partido numa posição sensível. Enfaticamente, contrastando com o ambiente sereno ao seu redor, perto do Espaço Central, António Lopes aponta o dedo à comunicação social pelos resultados menos positivos.

“Essa história de dizerem que estamos num mau caminho… isso é de não termos ninguém que nos ouça. As televisões dão sempre a mesma coisa ao longo do dia. É indecente. Estão ao serviço do capital. Veja-se o teatro da história daquele indivíduo que, quando estava no canal 4, fez um favor ao Medina e agora o outro queria devolver o favor. Quem nos ouve? Jornais? Não. Televisão? Mentira. Rádio? Mentira.”

A crítica à comunicação social é nota dominante entre os militantes. Mas os opositores políticos também não escapam. Na véspera do início da Festa, o CDS-PP colocou um cartaz crítico dos comunistas e da sua posição sobre o conflito na Ucrânia, trocando os nomes dos artistas por localidades ucranianas massacradas ou pessoas assassinadas durante o conflito.

No caminho para o Espaço Criança, entre muitos carrinhos de bebé e correrias desenfreadas, encontramos Anabela Dias, também militante do partido. Veio do Porto para o Avante na companhia do marido, João, simpatizante, e do filho pequeno. Confessa-se "chateada" com o cartaz dos centristas. "É falta de informação, custa-me a postura de alguns políticos e personalidades que fazem comentários na televisão.”

Opinião semelhante tem Carlos, alentejano e membro da JCP, com quem a CNN Portugal falou à frente do Palco Paz enquanto os MariaSilva atuavam ao pôr-do-sol. “A posição do partido foi clara. Seremos sempre pela paz e contra a guerra. É puro aproveitamento político da direita. É assim.”

António completa: “Eles têm de inventar uma coisa qualquer, qualquer coisa que haja, seja o que for. Pegam em alguma coisa e fazem daquilo um cavalo de batalha. Ou são os artistas ou é o preço das entradas permanentes ou é a comida. Têm de inventar, sempre.”

"Não somos a favor da paz que Zelensky quer"

Mas afinal qual é a posição do partido e dos militantes em relação à guerra? “Deixe-me dizer uma coisa muito sinceramente: eu sou muito contra a guerra. Acho que a guerra teve um bom encenador e um cabeça-de-cartaz que está a ser subsidiado por tudo o quanto é sítio, porque é necessário haver guerra. No partido, quase toda a gente é como eu, estamos contra a guerra. Agora, a guerra foram eles que a fizeram.” Eles quem, António? “O capital. O que está em causa é o capital, que não olha a meios para atingir os fins.”

Anabela Dias foi interrogada pelos amigos sobre o facto de o PCP ter abandonado o Hemiciclo quando Zelensky discursou no Parlamento português. “Eu expliquei que concordo. O meu partido é proibido na Ucrânia e a maior parte das pessoas não sabe. Essa informação deveria ser passada à população em geral e a população também a devia procurar. O partido não é a favor da guerra, é sempre a favor da paz. Não é a favor da paz como o Zelensky quer, não podemos compactuar a 100% com só dar armas e não apresentar outras soluções”, diz. “Há coisas que não são transmitidas e faladas. Um dos que trabalham convosco é o Bruno Amaral de Carvalho e é extremamente hostilizado. As pessoas acham que ele está a dar o lado russo mas não está, está a dar o que é real, que muitas vezes não é passado.”

Colocámos a várias pessoas a seguinte questão: se Zelensky e Putin fossem políticos portugueses, de que partido seriam? A opinião em relação ao presidente russo foi unânime: Putin daria as mãos a André Ventura e juntos iriam combater o marxismo cultural e a ideologia de género.

Quanto a Zelensky, as respostas oscilaram. Para Carlos, o presidente ucraniano é um “belicista” e um “capitalista”. “É a Iniciativa Liberal numa nutshell [casca de noz].” Com alguma hesitação, António e Manuela colaram Zelensky ao Chega. O PSD também foi mencionado. No geral, para as pessoas com quem a CNN Portugal falou, Putin é mais mal visto que o líder ucraniano.

"Têm de mudar a cassete e passar para um CD"

Anabela considera que o PCP tem de afinar a estratégia se quiser voltar a ter o destaque que outrora teve. “Precisam de arranjar alguém que faça uma boa transmissão da mensagem. Eu acredito muito no João Ferreira. O Jerónimo precisa de descanso, já está cansado. Não acho que esteja a fazer um mau trabalho, de todo, mas acho que já precisa de passar o testemunho. Têm de mudar a cassete e passar para um CD ou o que for."

Carlos partilha a opinião, mas aponta um líder diferente. “Gosto muito do João Oliveira, tenho pena que tenha saído do Parlamento. O secretário-geral já se bateu muito e bem.”

A espiral inflacionista dos preços da energia, dos alimentos e de tudo o resto trouxe para a agenda o papel do Estado na ajuda aos cidadãos. Para Maria, estudante universitária e simpatizante (tem algumas divergências, como as touradas), o partido deveria aproveitar o momento para “estar mais nas ruas”. “Há uma grande crise à porta. O partido tem de ser forte nesta altura e estar junto dos portugueses. Tem de se apresentar como alternativa viável. A direita aqui não pode ter hipóteses.”

As ruas também deveriam estar no plano para António. “É uma anedota, a nível nacional, que qualquer coisa que aconteça é culpa da guerra. Há seis meses que há guerra, mas há quantos meses se aumenta o combustível, o gás, o comer? Então é por causa da guerra?”

Muitos vão ao Avante apesar de não serem comunistas. É o caso do João, aluno do ensino secundário. Equipado com fato de treino e bolsa de cintura, conta à CNN Portugal que “ainda não sabe” o que é politicamente. “Eu sou daqui, venho à festa pelo convívio, pelos amigos. É um espaço relaxado, passamos aqui boas tardes.”

Como João, que descansava à beira do calmo lago da Quinta da Atalaia, centenas de jovens e famílias passeiam por todo o recinto, aproveitando a oferta cultural que o partido oferece. No Avante há muito mais que política - há ciência, música, cinema, gastronomia, desporto, tudo bem planeado e estruturado. O ambiente de proximidade, com espaços dedicados a cada distrito do país mas também à diáspora e aos imigrantes, ajuda a tornar local um evento de dimensão internacional.

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