Aqui “não há chefes” nem “despedidas”. Seja Jerónimo ou Raimundo, só importa o “coletivo”

12 nov, 17:42
4ª Conferência Nacional do PCP (Lusa/ António Pedro Santos)

As vozes alinham-se. Não importa quem lidera o partido, porque a estratégia se mantém, adaptando-se apenas às necessidades de um país cada vez mais sufocado pela subida do custo de vida. O “coletivo” fala sempre mais alto. E Paulo Raimundo traz a experiência em áreas onde o PCP quer ganhar uma nova vida: nos jovens e nos movimentos sindicais.

Nada foge ao programado. O rigor comunista acima de tudo. As portas do Pavilhão do Alto do Moinho, em Corroios abrem-se às nove em ponto. Alberto Rocha é dos primeiros a entrar. Direto à última fila da bancada. No lugar do canto. A espera vai-se fazendo solitária, olhando em redor, na tentativa de que outros camaradas conhecidos o encontrem.

“Venho sempre cedo, para não chatear ninguém”. Há expectativa para ouvir Jerónimo de Sousa falar. Há sempre. E, quando se diz, que este é o discurso da despedida, não aceita. “Ele não se vai despedir, vai continuar”. Porque um comunista nunca se despede. Metamorfoseia-se na estrutura. “Para nós é indiferente a pessoa que seja [secretário-geral]. O PCP é um coletivo. Isto é um coletivo”.

O antigo trabalhador da CP – Comboios de Portugal admite que fica até à uma da manhã. “Gosto de ficar a ver o Major-general Carlos Branco na CNN. Fico à espera até à uma da manhã”. Mas, quando a conversa entra no tema da guerra na Ucrânia, algo mais importante se apresenta. Lá em baixo, Jerónimo de Sousa entra na sala. Ele e o seu substituto, Paulo Raimundo. E outros nomes que, mais mediáticos, outrora se perfilavam para o cargo máximo do partido. Longos gritos de apoio. O braço de Alberto Rocha em punho.

Na bancada vermelha, escultural, Jerónimo de Sousa centra-se ao meio. Mesmo por cima do arranjo de flores. Paulo Raimundo está dois lugares à sua esquerda. À direita está Francisco Lopes, o nome que muitos esperavam ver na sucessão. Pede-se que os telefones sejam desligados ou colocados no silêncio, para não perturbar os trabalhos. O foco é integral.

Tudo está programado ao segundo. 10:45. Jerónimo sobe ao púlpito para o derradeiro discurso como secretário-geral. Quarenta minutos de um discurso que, para quem está habituado aos meandros do partido, não sabe a novidade. Fala-se de futuro, de um partido reforçado, com os argumentos de sempre. Jerónimo de Sousa só foge ao guião para falar do vento.

Madalena Santos não ouve tudo. Senta-se nas escadas porque os lugares na bancada estão praticamente preenchidos. Para ver tudo, de frente, há que sentar-se no chão. Gostou do que ouviu, da “afirmação de que precisamos de continuar a luta”. Para a professora universitária, este momento também não é a despedida de Jerónimo. “É a despedida desta tarefa. Os comunistas têm várias tarefas”.

Todos têm a sua tarefa, mesmo que a meticulosa organização do partido possa gerar estranheza a quem a ele não pertence. Nas bancadas, a mancha é grisalha. Fora dela, nem por isso. Ainda assim, o PCP não se livra da fama de ter ficado parado no tempo. Margarida contesta: “Pelo contrário, acompanhamos o tempo em tudo, para termos uma sociedade mais justa para todos”.

O tempo, entre os comunistas, não se molda. Meia hora de pausa nos trabalhos é meia hora de pausa nos trabalhos. Mesmo que a fila para o café, no exterior, não ajude às contas. Pica-se o ponto à hora combinada. Há que repor energias, porque o debate prevê-se longo. “Só não há filas para comprar livros”, brinca um militante. De facto, não há. Há Álvaro Cunhal, José Saramago ou Ary dos Santos. Há até um livro chamado “Hitler: Ascensão Irresistível”. Mas fila não.

O cheiro a bifana impregna o ar. O aroma do caldo verde é mais modesto. Na barraca da comida, pergunta-se quem é o chef de serviço. “Aqui não há chefes. Não temos uma liderança como os outros partidos, em que o chefe começa a debitar e não discutem nada da vida dos trabalhadores”. José Viegas diz ser um “lutador antifascista”. Os óculos escuros escondem-lhe os olhos. Na mesa dele, na mesa comunista, todos estão por igual. E o que é que mata a fome? “O que mata a fome é o convívio”.

A mudança do secretário-geral é apenas o prato quente mediático. Por estas bandas, todos alinham no discurso. Mais velhos e mais novos. Como Guilherme Vaz, de 18 anos, que interrompe a conversa com os camaradas para falar ao jornalista. “Não é por mudar de secretário-geral que o partido muda de rumo”. Mas, 18 anos depois, o que fica de Jerónimo? “Marcou muitas pessoas. Descobri na figura dele o facto de ter passado o mesmo que muitos trabalhadores”.

A caminho do pavilhão passa também Duarte Alves, ele que regressará ao Parlamento para ocupar o lugar deixado vazio por Jerónimo de Sousa. Não vê responsabilidade especial por ocupar um espaço simbolicamente imenso. “É a responsabilidade de me inserir no coletivo. O coletivo fala sempre mais alto. É a forma como o próprio Jerónimo encarou a tarefa de deputado”.

Os trabalhos são retomados na 4ª Conferência Nacional do PCP. As cadeiras voltam a encher-se. Judite Barros da Costa é uma das primeiras a falar. Vem dos Açores de propósito para este encontro do partido. Sobe ao púlpito com flores vermelhas na cabeça. Ela, na multidão, é mais fácil de identificar.

Esta “professora em luta” não tem receios em falar de uma nova liderança, a de Paulo Raimundo, que combina “continuidade” e juventude. Com a luta a definir-se como mais premente nas ruas, o novo secretário-geral do PCP, que conhece bem o mundo sindical pode fazer a diferença. “Tem bastante experiência nas duas áreas: na juventude e nos sindicatos”.

“Costumo usar flores quando está bom tempo e boinas quando está mau”. No que respeita à vida interna do partido, Judite, assim como os camaradas de partido, espera continuar a usar flores. Vermelhas, garridas. Mesmo que o país dê sinais, a cada dia que passa, de que o mau tempo está para vir.

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