"Há quem salive e desespere pelo fim do PCP. Esperem sentados!". O conselho de Paulo Raimundo na estreia como líder comunista

13 nov, 13:52

O novo secretário-geral do PCP agradeceu a Jerónimo de Sousa pelo seu "empenho", "contributo" e "papel" no partido. "A alteração das tuas responsabilidades não significa um adeus. É um até já camarada", afirmou. Entre duras críticas, Paulo Raimundo deixou um recado ao Governo: "não ficou totalmente de mãos livres", porque tem na luta comunista quem lhe faça frente. E abriu a porta ao regresso de antigos militantes

O novo secretário-geral, Paulo Raimundo, comprometeu-se este domingo a “dar esperança e confiança” aos portugueses para “mobilizá-lo[s]" para a luta comunista e consequente reforço do partido, perante a crescente degradação das condições de vida à custa da inflação.

“Um apelo que estendemos a toda a sociedade: não percamos a esperança, olhemos para este caminho que aqui se afirma e ganhemos ânimo para a ação do dia-a-dia”, afirmou no primeiro discurso enquanto líder comunista, substituindo Jerónimo de Sousa.

“Há quem salive e desespere pelo fim do PCP: Pois daqui vai o conselho: fiquem sentados! Porque um partido ligado dos trabalhadores, às populações, aos seus problemas e anseios, determinado em lhes dar esperança, um partido assim a única coisa a que está condenado é a crescer”, atestou.

A prioridade, apontou, está no reforço do partido que, desde o início do ano, conta já com dois mil novos membros. “O nosso compromisso é o de sempre e com os mesmos de sempre – com os trabalhadores e o povo”, assegurou.

O novo secretário-geral considerou que na quarta Conferência Nacional do PCP, que decorreu este fim de semana em Corroios, “brotou o ânimo e a força para continuar a desenvolver e a intensificar e dar ânimo à luta pelos direitos, contra a especulação e o aumento do custo de vida”.

Para o líder comunista, o partido é capaz de identificar os seus “problemas” e “insuficiências” e não quer ficar à espera que lhe “batam à porta”, prometendo um reforço da presença nas ruas e no mundo sindical, que Paulo Raimundo conhece bem. Esta é também uma forma de contribuir para o equilíbrio das contas do PCP, penalizadas pelo impacto da pandemia na Festa do Avante. E assim “garantir o reforço da capacidade e independência financeira do partido”.

A porta fica também aberta para antigos militantes. "Contamos (...) com aqueles que se aproximam e com os que se reaproximam".

Paulo Raimundo fez o seu primeiro discurso como secretário-geral (Lusa/António Pedro Santos)

Aviso ao Governo: “Não ficou totalmente de mãos livres”

No PCP, argumentou Paulo Raimundo, “não há manobras para cortar reformas e pensões”, não se promove “o negócio da doença nem o controlo do saber” nem se “tratam os problemas com hipocrisia”. Uma mensagem com um destinatário claro: a maioria absoluta socialista, conseguida com “o apoio do capital e dos seus poderosos meios”.

E, por isso, fica o aviso ao executivo de António Costa: “ao contrário do que pensou, o Governo não ficou totalmente de mãos livres. Tem na luta dos trabalhadores e das populações, tem na intervenção do PCP, nas suas diferentes expressões, os elementos que lhe fazem frente”.

Aos comunistas, “não faltam razões para lutar”: “Aí estão três mil milhões de razões, por cada euro de lucro dos 13 grandes grupos económicos nos últimos nove meses”, indicou. Novamente com o Governo na mira, com o seu objetivo de controlo do défice, lembrou que no atual contexto apenas empresas como a EDP ou a Sonae têm “as contas certas e muito certas”.

Aplausos e gritos de apoio pontuaram o discurso de estreia (Lusa/António Pedro Santos)

“Até já, camarada”

Por duas vezes, Paulo Raimundo recuperou a expressão que o antecessor, Jerónimo de Sousa, tornou célebre: o caminho para o país está numa “política alternativa, patriótica e de esquerda”. Mas, numa fase final do discurso, o agradecimento àquele que foi secretário-geral durante 18 anos havia de se tornar inequívoco.

Paulo Raimundo destacou o “empenho”, “contributo” e “papel” de Jerónimo de Sousa. “A alteração das tuas responsabilidades não significa um adeus. É um até já, camarada”, vaticinou. Seguiram-se longos minutos de aplausos e gritos de forças nas bancadas, até que o novo líder pudesse retomar o discurso.

Homenagem a Jerónimo de Sousa aconteceu pela voz do sucessor (Lusa/António Pedro Santos)

"O fogo não se apaga com gasolina"

À semelhança do primeiro dia da 4ª Conferência Nacional do PCP, a guerra na Ucrânia – um tema sensível aos comunistas ao longo dos últimos meses - voltou a fazer parte do discurso principal. Paulo Raimundo deixou um novo apelo a uma “solução pacífica”, alertando que “o fogo não se apaga com gasolina”.

“Aqui não discutimos como apoiar ou aceitar os caminhos da guerra, do reforço armamentista, das sanções, da destruição e da morte, não instigamos uma escalada de resultados imprevisíveis”, referiu.

Discursos de Paulo Raimundo e Jerónimo de Sousa partilharam as prioridades do PCP, incluindo o reforço do partido (Lusa/António Pedro Santos)

Unânime, apesar da surpresa

Paulo Raimundo, de 46 anos, é o quarto secretário-geral do PCP em democracia, substituindo Jerónimo de Sousa, que abandona o cargo ao fim de 18 anos por questões de saúde. Na última campanha para as eleições legislativas, por exemplo, Jerónimo de Sousa esteve ausente de grande parte das ações de campanha, sendo substituído por João Oliveira e João Ferreira.

Paulo Raimundo foi confirmado pelo comité central do partido este sábado à noite, por unanimidade, como o novo líder. Só o próprio não votou para a sua eleição. Com a chegada de Paulo Raimundo ao mais alto cargo comunista, o PCP deixa de ter o seu secretário-geral no Parlamento. A luta, por isso, terá mais importância nas ruas e junto dos movimentos sindicais, numa tentativa de contrariar um ciclo de maus resultados eleitorais - que levaram a banca comunista na Assembleia da República a encolher.

O profundo conhecimento de Paulo Raimundo sobre o mundo dos sindicatos é apontado como um dos elementos determinantes para a sua escolha, contrastando com a sua tímida presença mediática. Por isso, e havendo outros nomes mais conhecidos apontados à liderança, a escolha de Paulo Raimundo acabou por surpreender elementos dentro do próprio PCP.

Paulo Raimundo é apresentado pelo PCP como operário, embora seja funcionário do partido desde os 19 anos de idade. Chega ao cargo mais elevado do partido sem nunca ter protagonizado uma disputa eleitoral – nem sequer para uma junta de freguesia.

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