A incrível fuga da prisão de Caxias no carro de Salazar

4 dez 2021, 08:00

Há 60 anos, oito quadros do PCP fugiram da prisão de Caxias. O veículo da fuga foi o carro blindado que fora do ditador. Foi um dos momentos mais espetaculares da resistência ao Estado Novo

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A história da fuga da prisão de Caxias - que aconteceu faz este sábado 60 anos - podia ser o argumento de um filme de ação ou de uma série de suspense. Tem tudo - camaradagem e traição, planeamento e acaso, resistência e militância, coragem e tensão, e uma imensa ironia: os evadidos, todos presos políticos da oposição ao salazarismo, fugiram no carro blindado que tinha sido de Salazar.

Embora menos lembrada do que a fuga de Peniche, protagonizada em 1960 por Cunhal e outros nove militantes comunistas, a fuga de Caxias, a 4 de dezembro de 1961, não foi menos espetacular. Foi, sem dúvida, mais estrondosa: o imponente Chrysler preto que fora carro oficial do ditador foi o veículo de fuga de oito presos, que aproveitaram a blindagem da viatura para rebentar o portão da prisão e fugir em direção à autoestrada.

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A história desta fuga audaciosa começa quase dois anos antes, com uma traição. António Tereso, mecânico da Carris e militante do PCP, preso em Caxias desde 1959 por ter participado em protestos sindicais, “rachou”. Os “rachados” eram os camaradas que não aguentavam a pressão da prisão e passavam para o outro lado, espécie de arrependidos que tentavam cair nas boas graças dos carcereiros. Tereso não só “rachou”, como se meteu em zaragatas com antigos camaradas, com quem partilhava a cela. Pediu para ser transferido e ser admitido como trabalhador da prisão.

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A traição valeu-lhe o desprezo de todos os antigos camaradas, que deixaram de lhe dirigir a palavra. Só dois continuavam, discretamente, a comunicar com ele - os camaradas José Magro e Afonso Gregório. Eram os únicos que sabiam a verdade: a “traição” não passava de um embuste, para que Tereso conquistasse a confiança dos guardas e do diretor de Caxias, de forma a ganhar liberdade de movimentos e poder investigar eventuais hipóteses de fuga.

“O Partido está primeiro”

Fora de José Magro a ideia. António Tereso resistiu. Numa monografia que publicou após o 25 de abril, com as suas memórias dessa operação, Tereso conta que não lhe agradava “nada, mesmo nada, passar por rachado e traidor aos olhos dos mais amigos”. Mas era a vontade do partido, e “o Partido está primeiro”.

Poucos no partido conheciam o plano. Tão poucos, que os camaradas da Carris deixaram de lhe pagar o salário - a prática era que os companheiros se quotizassem para continuar a garantir o rendimento às famílias dos presos políticos. 

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Apesar deste repúdio, não foi fácil Tereso convencer os guardas, a PIDE e os responsáveis de prisão de que tinha mudado de lado, por muito que dissesse que “tenho a barriga cheia de política”. Nas cartas à mulher, que não suspeitava da verdade, pois cada linha era lida pela PIDE, Tereso jurava que só queira “ir para a sala dos trabalhos, onde podia ter visitas em comum e andar cá por fora mais distraído, e que assim com trabalho a fazer ia passando melhor o tempo de prisão”. Quando lhe diziam que era comunista, António respondia “já fui, agora sou é comodista”. 

Tanto fez por agradar, que acabou por convencer até os guardas mais reticentes. Ao fim de meio ano, tinha alguma liberdade de movimentos dentro da prisão, e menos pares de olhos a vigiar-lhe cada passo.

Fugir de Caxias não seria tarefa fácil. “Por possuir excelentes condições de segurança”, a cadeia, instalada em 1937, passou a receber sobretudo presos políticos. Em 1961, seriam cerca de 150, boa parte deles ligados ao PCP, o que motivava cuidados especiais de vigilância, por parte de GNR, e controlo, por parte da PIDE, que tinha uma forte presença no estabelecimento prisional. A fuga de Peniche só tornou os carcereiros ainda mais ciosos da segurança de Caxias. Houve reforço de guardas, os períodos de isolamento dos presos eram maiores, o tempo de recreio era mais curto, as visitas em comum foram suspensas e os prisioneiros eram constantemente mudados de sala, para evitar que pudessem planear fugas ou atividades subversivas. 

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Apesar disso, o PCP estava bem organizado em Caxias, e estava definido quem seria prioritário numa eventual fuga - entre os primeiros estavam Domingos Abrantes, José Magro e outros cinco responsáveis do partido.

António Tereso, que estava na sala de trabalho e tinha caído nas boas graças do diretor de prisão, percorria cada palmo das instalações, à procura de passagens, túneis ou outros espaços esquecidos que pudessem servir para uma fuga. Cada hipótese que lhe surgia era discretamente comunicada aos camaradas do PCP, através de mensagens escritas noite fora em mortalhas de tabaco. Uma após outra, todas as possibilidades iam-se mostrando impraticáveis.

Os conhecimentos de mecânica de Tereso revelaram-se preciosos. O novo diretor da prisão, Gomes da Silva, era homem que gostava do seu Volkswagen sempre impecavelmente limpo e afinado. O homem do PCP tornou-se o seu mecânico pessoal: lavava-lhe o automóvel, reparava-o, chegou a fazer trabalho de bate-chapas e a pintá-lo. Conduzia a viatura dentro das instalações da prisão sempre que era preciso. 

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A confiança era tal que o prisioneiro, já em final de pena, chegou ao ponto de propor ao diretor da prisão que lhe arranjasse um emprego como motorista da PIDE. “Isso é que não pode ser. Por mim, tenho confiança em si, mas com o seu cadastro…”, respondeu-lhe Gomes da Silva. O melhor que lhe arranjava era trabalho como motorista da prisão, assim que terminasse a pena. O militante comunista aceitou. Seria a forma de não abandonar os camaradas.

“O carro é que ia ter connosco”

“O senhor é que me vai por aquele carro a trabalhar”, disse o diretor de Caxias, apontando para um canto da garagem, onde estava um carro preto, enorme, de ar pesadão, com a matrícula HE-10-32. Faltavam apenas três meses para Tereso ser libertado, e a fuga desenhava-se à frente dos seus olhos…

“Foi como um relâmpago! Em segundos, logo ali vi como se ia dar a fuga, como ia transportar todos os camaradas. Que alegria eu senti!”, escreveria o mecânico anos depois.

Seria uma fuga diferente de todas as outras. “O carro é que ia ter connosco, não éramos nós que íamos ter com o carro”, recordou há poucos meses Domingos Abrantes, numa entrevista ao Jornal de Notícias.

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Era um Chrysler de 1937, de sete lugares, que fora o carro oficial de Salazar. Constava que tinha sido oferecido ao ditador por Hitler. Constava que tinha vidros e chapa blindados. Estava esquecido num canto de Caxias, tinha a chave na ignição… mas não andava. António Tereso ia tratar disso. 

“Eu só pensava em pôr o carro a funcionar... Quando, enfim, me aproximei dele, vi um autêntico blindado. O vidro tinha entre 25 e 30 milímetros de espessura. A chapa, 5. Pesava 4.500 quilos e estava equipado com um motor de 8 cilindros em linha.”

Só era preciso pôr o blindado a andar. Afinal, tudo dependia de um interruptor secreto, bem escondido, que ligava e desligava o motor de arranque. Descoberto o segredo para reanimar o velho Chrysler, António Tereso revelou ao diretor de Caxias a sua façanha. O entusiasmo foi tal, que logo ali ficou feita a promessa: na segunda-feira seguinte o diretor da prisão e o seu preso de confiança haviam de dar um passeio no velho blindado de Salazar. Esse passeio nunca aconteceu. Era o momento de pôr o plano de fuga em marcha. Seria na segunda-feira, dia 4 de dezembro de 1961, logo pela manhã. Antes do passeio com o diretor.

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O recreio dos presos da sala 2 do r/c era das 9h às 9h30. Na sala 2 estavam dez quadros clandestinos do PCP. Sete iriam fugir nessa manhã. O recreio era no fosso interior da prisão, por ser considerado o local ao ar livre mais seguro do complexo, com muros altos, e só acessível por um túnel, que fazia a ligação com o fosso exterior.

O plano era simples: Tereso, que tinha carta branca para conduzir o Chrysler nos terrenos da prisão, levava o automóvel até ao fosso interior, os camaradas que estavam no recreio entravam, e era acelerar dali para fora.

“As balas eram como chuva”

A passagem pelo túnel que ligava o fosso principal ao fosso interior obrigava a grande perícia, pois o carro - com 5,40m de comprimento e 1,80m de largura - passava rés-vés à largura do portão. Com a agravante de que o percurso pelo túnel tinha de ser feito em marcha atrás, para que o veículo pudesse arrancar em alta velocidade assim que os fugitivos fossem recolhidos. 

“Foi um momento intenso, de um nervosismo que não se pode imaginar”, relataria Tereso em 1974. Um acidente quase colocou todo o plano em risco: durante o trajeto em marcha atrás, o pneu traseiro do lado direito caiu na valeta que corria ao longo do túnel. Tereso conseguiu resolver esse contratempo, com um calço de madeira que arranjou à pressa, mas o tempo perdido era precioso, pois o período do recreio estava quase a acabar.

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A tensão, no recreio, era enorme, conforme os dez prisioneiros encenavam um jogo de futebol e esperavam pela aproximação do carro de fuga. Assim que entrou no terreno que servia de campo de futebol, os dez presos cercaram o carro, como se protestassem por o seu jogo ter sido interrompido. Dispuseram-se conforme planeado: três do lado esquerdo, quatro do lado direito, e três na parte de trás do Chrysler. Estes últimos não participariam na fuga, pois não cabiam no veículo. Só fugiriam os quadros mais valiosos para o partido.

Tudo aconteceu à vista de três guardas da GNR. Um deles estava mesmo ao pé da viatura, mas a sua preocupação era que os presos pudessem tentar agredir o antigo camarada, que lhes estaria a estragar a futebolada com aquela inopinada incursão automobilística. Quando um dos presos gritou “Golo!”, os sete escolhidos saltaram para dentro do carro: seis apertados no banco de trás, um ao lado do condutor. José Magro, Francisco Miguel, António Gervásio, Domingos Abrantes, Guilherme da Costa Carvalho, Elídio Esteves e Rolando Verdial. Uns por cima dos outros, "como se fossem numa lata de sardinhas”.

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Assim que os fugitivos entraram, o carro arrancou a toda a velocidade pelo estreito túnel, em direção ao portão fechado que dava para a estrada. A aposta dos fugitivos era que a velocidade e a blindagem do antigo carro de Salazar seriam suficientes para deitar abaixo o portão.

Assim foi. O portão não resistiu ao choque, e o embate mal se sentiu por quem ia no carro. Apesar disso, o veículo ficou bastante amolgado, e acabou por perder o pára-choques durante a fuga, já em Lisboa.

Três guardas dispararam sobre o carro: o que estava no acesso ao túnel, e por pouco não foi abalroado, e dois que se encontravam nos postos de vigia. O veículo ficou com as marcas das balas, mas a blindagem dos vidros e da parte superior do automóvel deu boa conta do recado. 

"Havia a ideia de que o carro era blindado, mas isso só se provaria na hora da verdade", recordaria Domingos Abrantes."Foi atingido com 19 tiros de espingarda e provou-se mesmo que era". Tereso guardou da saraivada de tiros uma recordação algo poética: “As balas em nós eram como chuva…”

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Desde o início da fuga até ao momento em que o veículo deixou de estar na mira dos guardas, passaram 60 segundos. "A fuga demorou 19 meses a preparar, mas a sua execução levou um minuto - embora, para quem vai fugir, um minuto pareça uma eternidade", relatou Domingos Abrantes, numa das várias evocações que fez desse episódio.

Vinte e três minutos depois de ter acelerado contra o portão de Caxias, António Tereso estava em Lisboa, escondido, na casa que o partido lhe havia destinado. Todos os restantes evadidos tinham sido deixados em segurança em vários pontos do trajeto. 

O velho blindado de Salazar, esse, só seria encontrado oito horas mais tarde, sem pára-choques e sem um farolim, abandonado na zona de Campolide, a 12 quilómetros de distância da prisão. Hoje, pode ser visto no Museu do Caramulo. É uma nota de rodapé na história da ditadura, mas protagonizou um dos momentos mais ousados da história da resistência ao Estado Novo. 
 

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