Exclusivo. Paulo Raimundo explica porque não faz sentido ganhar mais de 750 euros, mesmo sendo líder do PCP

14 nov, 23:17

Paulo Raimundo não sabe dizer se teria feito alguma coisa de diferente do que fez Jerónimo de Sousa, mas tem a certeza de que, "dificilmente, teria feito melhor" e que até a geringonça foi "uma decisão certa"

Paulo Raimundo recebeu, no fim de semana, a passagem de testemunho de Jerónimo de Sousa depois de ter sido eleito secretário-geral do PCP. Olhando para trás, para o "legado pesado" de 18 anos deixado pelo antecessor, o líder comunista não mudava nada, nem mesmo a geringonça. 

Mesmo com este cargo de responsabilidade, e estando sempre o PCP a apelar ao aumento dos salários dos trabalhadores, o líder comunista fez questão de explicar, na entrevista exclusiva à CNN Portugal, porque é que não faz sentido ganhar mais de 750 euros. 

"Os funcionários do partido estão profundamente ligados à realidade social (...), mas também estão ligados do ponto de vista material. Portanto, cada vez que aumenta a inflação dos bens alimentares, nós também sentimos. Nós não falamos de cor dos problemas, falamos porque também o sentimos. Com uma garantia: quanto mais rápida for a evolução salarial do conjunto dos trabalhadores portugueses, mais rápida é a evolução salarial dos funcionários do partido."  

Olhando para trás, admite que o partido perdeu eleitores, deputados e câmaras nas últimas legislativas e que isso pode ter sido uma das consequências da aliança com o PS, mas que "foi uma decisão certa". 

"É possível [que tenha sido penalizador para o PCP]", mas "não abdicamos daquilo que fizemos em 2015, foi uma decisão certa que tomámos na altura e não estamos arrependidos." 

Paulo Raimundo não sabe dizer se teria feito alguma coisa de diferente do que fez Jerónimo de Sousa, até porque "cada momento é um momento". Contudo, não deixa de ter pelo menos uma certeza: "Dificilmente teria feito melhor." Reconhece que tem agora nas mãos a responsabilidade de continuar um legado com "uma carga pesada", mas "desafiante". 

Há muito tempo que o partido comunista tem vindo a ser criticado por ter parado no tempo, talvez por isso muita gente olhe para Paulo Raimundo como a lufada de ar fresco que o PCP precisava. Contudo, o líder comunista não olha para a sua eleição com esses olhos. "Só se for na idade", diz entre risos. 

"Não acompanho essa ideia de que o PCP está parado no tempo, pelo contrário", afirma. 

Aos 46 anos - bem distante dos 75 de Jerónimo de Sousa -, Paulo Raimundo diz pertencer à geração "que viu o PCP e a CDU subirem eleitoralmente e descerem eleitoralmente". Por isso, tem consciência de que o caminho de um partido não é uma linha reta, nem tão pouco uma conquista constante de bons resultados. Ainda assim, não deixa de estar "confiante nas batalhas que vão ter pela frente".

"Queremos reforçar o partido, mas não é para ficarmos todos contentes por sermos mais, é para estarmos em melhores condições de ajudar, de dar ânimo às pessoas, dar-lhes esperança, porque nós não estamos condenados a um caminho de desastre nacional." 

A primeira ação política enquanto secretário-geral do PCP é já no próximo sábado, num comício, em Matosinhos, e há temas que vão estar sempre nos tópicos. "Vou falar nos salários baixos, porque é uma evidência. Vou falar na necessidade do aumento das reformas. Vou falar na necessidade de se conter os preços. Vou falar na necessidade disso tudo e também da luta contra o capital. Quanto a isso não há dúvida nenhuma." Mas vai haver uma novidade: "Também vou falar de uma outra coisa que foi muito evidente na nossa conferência nacional que é: como é que nós pomos toda a força daquela conferência no nosso dia a dia?" 

Paulo Raimundo olha para Portugal como um país com "problemas estruturais", ainda que possíveis de resolver, e admite que além do legado pesado que tem às costas, tem um "drama pessoal" em mãos. "Um dos meus maiores dramas pessoais, se posso assim dizer, é chegar a abril do próximo ano, porque é a altura em que se vai fazer a revisão do meu contrato de crédito a habitação. Estou de coração nas mãos para saber o que é que vai acontecer. Portanto, é normal que as pessoas reajam."

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