O comentador lembra que existe, neste momento, instabilidade política em Bucareste, algo que chamou a atenção de Putin
Paulo Portas considera que o ataque com drones russos em território romeno dificilmente terá sido um acidente. No espaço de comentário “Global”, no Jornal Nacional, o comentador da TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, defendeu que Moscovo quis deixar um sinal político claro a Bucareste.
“Não me parece que tenha sido acidente, embora a tese mais simpática seja essa”, afirma e justifica: Vladimir Putin “tem duas razões para avisar a Roménia”.
A primeira, explica Paulo Portas, é “a tentativa que se vai desenvolvendo da Moldova de se aproximar institucionalmente da Roménia”, lembrando que os dois países estão “praticamente ligados em termos culturais”.
A segunda prende-se com a instabilidade política em Bucareste. “A Roménia está sem Governo”, sublinha. Apesar de registar um crescimento económico sólido, o país enfrenta “um défice medonho” e precisava de reequilibrar as contas públicas. O comentador recorda que o executivo romeno foi derrubado ao fim de apenas 11 meses por uma aliança improvável entre socialistas e extrema-direita.
Já sobre o atual impasse entre Washington e Teerão, Paulo Portas considera que o bloqueio está menos ligado ao conteúdo das negociações e mais a uma disputa de afirmação política entre as duas partes.
“Aparentemente não há evolução. Esteve para haver, mas aparentemente os Estados Unidos e o Irão não estão a discutir palavras, estão a discutir orgulhos”, começou por defender.
Para o comentador, o erro começa na forma como o processo tem sido conduzido. “Falam demais e colocam as expectativas muito alto. ‘Eu nunca aceitarei isto, eu nunca aceitarei aquilo’. E assim é muito difícil fazer uma negociação que depende da descrição e de algum silêncio”, sublinha.
Apesar do bloqueio, Paulo Portas sustenta que a via diplomática acabará por impor-se. “Mais tarde ou mais cedo, é inevitável o início de uma solução diplomática, porque não há solução militar para o Estreito de Ormuz”, afirma, alertando ainda que a continuação do impasse “degrada e deteriora a economia mundial”.
A fragilidade de Sánchez
O comentário passou também por Espanha, onde Pedro Sánchez continua politicamente fragilizado, mas protegido pelo mecanismo da moção de censura construtiva previsto na Constituição.
“É isso que o aguenta”, resume Portas, apesar de considerar que “a deterioração das condições políticas de Sánchez não me parece reversível”.
O comentador da TVI considera “intrigante” que Pedro Sánchez continue no poder quando tem “o seu número dois, depois o seu número três, depois o seu número quatro, ou presos ou envolvidos em incidentes judiciais bastante sérios”, a que se soma ainda o antigo primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, descrito como “o seu inspirador e mentor”, também ele associado a problemas judiciais.
A explicação, diz Paulo Portas, está na chamada moção de censura construtiva prevista no artigo 113 da Constituição espanhola.
“Está no artigo 113 da Constituição. Para uma moção de censura passar, é preciso maioria absoluta dos votos, ou seja, 176, e que esses 176 votos sejam a favor de um candidato alternativo a presidente do Governo. É aqui que está o busílis.”
Segundo Portas, esta regra “foi inventada para evitar derrubes sistemáticos dos governos”, mas considera que, no atual contexto, “tornou-se um obstáculo à mudança”. “Isto é muito duro, o que o PSOE está a passar”, acrescentou.
