No seu habitual espaço de comentário, Paulo Portas analisou o que pode significar a reunião entre Trump e Zelensky para o futuro da Ucrânia
O encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, na Florida, decorre sob o clima da incerteza e, para Paulo Portas, é necessário, desde logo, baixar as expectativas. “Eu tenho sempre uma aproximação realista a este tipo de matérias”, avisa. A reunião pode revelar-se “a mais importante do ano” ou apenas “a última reunião mais importante do ano até à próxima reunião mais importante do próximo ano”.
Ainda assim, há um primeiro sinal que o comentador considera politicamente relevante: “nas declarações iniciais, Donald Trump não humilhou, nem fez coerção evidente sobre Zelensky”. A avaliação é um "progresso", especialmente num contexto em que o presidente ucraniano chega aos Estados Unidos sob pressão extrema no campo de batalha.
Zelensky chega à mesa das negociações depois de Kiev ter sido alvo de um ataque maciço. Paulo Portas lembra que “foram 500 drones e 40 mísseis durante 10 horas”, sublinhando a distância entre o debate diplomático e a realidade do terreno: “nós não fazemos ideia do que isso seja”. É neste quadro que o presidente ucraniano, descrito como estando “debaixo de bullying muito severo”, tenta preservar margem negocial.
Apesar disso, Portas identifica dois trunfos claros. O primeiro é político: Zelensky terá conseguido “convencer, pelo menos parcialmente, a administração americana", particularmente o secretário de Estado, Marco Rubio, a alterar o chamado plano de 20 pontos. Plano esse que, para Paulo Portas, “era uma autêntica rendição da Ucrânia à Rússia e um perigo enorme para a Europa”.
O segundo trunfo, contudo, é financeiro. “A Europa não deixou Zelensky sem fundos”, afirma Portas. Mesmo enfrentando dificuldades no acesso a armamento ofensivo, a Ucrânia “não terá um problema de colapso financeiro”, o que lhe dá, nas palavras do comentador, “força para resistir como é evidente”.
Do lado americano, a leitura é menos favorável a Kiev. Paulo Portas considera haver pouca margem para dúvida: Trump “prefere a Rússia à Ucrânia” e “considera a Rússia mais importante para os Estados Unidos do que a Ucrânia e do que a aliança com os europeus”.
Contudo, essa aproximação não teve os resultados esperados. Vladimir Putin, observa Portas, “não agradece essa tolerância, nem essa generosidade”. Pelo contrário, “no último ano conseguiu de Donald Trump o essencial”: travar o fornecimento direto de armas à Ucrânia e expô-lo a “alguns vexames”, como a cimeira do Alasca, onde “se verificou numa manipulação de Trump por Putin”.
Há ainda um fator pessoal que, segundo Portas, não pode ser ignorado: “Donald Trump tem uma obsessão pelo Prémio Nobel da Paz”. Com as candidaturas a encerrarem a 31 de janeiro, o comentador admite que “pode parecer um argumento absurdo”, mas insiste: “no caso de Trump pode estar a condicionar estes prazos para estas reuniões”.
O plano de 20 pontos apresentado por Zelensky representa, no entender do comentador, “o máximo do que ele pode ceder”. Ir além disso deixaria de ser compromisso e passaria a tratar-se de uma humilhação. “O nacionalismo ucraniano, ou se quiser o soberanismo ucraniano”, explica, “está à volta de Zelensky”. Mas se o acordo for “uma humilhação para a Ucrânia”, esse nacionalismo “vai transformar-se em muitos nacionalismos, e alguns violentos e de terror”.
De resto, acrescenta, a Ucrânia já demonstrou “capacidade de fazer operações especiais violentas em Moscovo”. “Trump precisa da concordância de Putin, porque considera relevante a Rússia”. Mas qualquer solução que ignore os limites políticos e simbólicos da Ucrânia corre o risco de falhar. "Negociar debaixo de bombas, de mísseis e de drones não é uma forma civilizada nem moderna de negociar”.