No seu habitual espaço de análise, o comentador da TVI apontou ainda como o discurso em torno da capacidade nuclear do Irão tem sido repleto de contradições
A morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, marca um ponto de viragem no conflito desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e abre um período de profunda incerteza política no país. No seu habitual espaço de comentário aos domingos, Paulo Portas considerou que o segundo dia da crise já revela sinais claros de mudança estratégica e institucional em Teerão.
E essa mudança aconteceu também a nível militar. O Irão, refere Paulo Portas, demonstrou capacidade militar superior ao que muitos analistas estimavam: “alegadamente tinha um arsenal relativamente reduzido de mísseis e drones, mas essas informações podiam não estar certas”. Teerão utilizou “umas largas centenas desses equipamentos de ataque” nas últimas horas e expandiu o alcance da retaliação para vários países do Golfo.
Para Portas, essa opção pode revelar-se um erro estratégico. “Fê-lo para todos os países do Golfo, o que me parece um erro estratégico, porque regionaliza o ataque e coloca o Irão num isolamento ainda maior”, afirmou.
Embora o Irão alegue que os alvos são bases norte-americanas na região, o comentador sublinhou que vários ataques atingiram infraestruturas civis. “Por erro ou intenção, foram atacados aeroportos, foram atacados hotéis”, disse. Esse tipo de incidentes, acrescentou, pode mudar a posição de alguns países da região que inicialmente estavam relutantes em apoiar a intervenção. “Agora têm razões para se queixar e para participar mais”.
Portas sublinhou ainda que continuam a existir muitas dúvidas sobre o verdadeiro impacto militar da operação nas capacidades nucleares iranianas. “Não há muitas notícias quanto à destruição das infraestruturas nucleares”, observou, lembrando declarações anteriores de Washington. “Dizia o Presidente dos Estados Unidos, em junho passado, que o arsenal tinha sido completamente obliterado, o que, mais uma vez, era uma relação um pouco remota com a verdade.”
No plano político interno do Irão, o comentador explicou que o poder está agora provisoriamente concentrado num órgão transitório. “Está um triunvirato, e esse triunvirato é apenas para preparar o processo sucessório”, afirmou. Esse processo, acrescentou, tem uma natureza essencialmente religiosa: “Tudo no Irão começa ou termina numa autoridade teológica assumida por representantes políticos”.
De acordo com Portas, o mecanismo de sucessão envolve várias instituições do regime. “Neste triunvirato está o Presidente da República, está o representante do poder judicial islâmico e está também a Assembleia de Especialistas, que se encarregará da eleição”, explicou. Ainda assim, alertou, é demasiado cedo para prever a evolução política do país.
"Há duas formas de se ser iraniano"
“Há duas formas de ser iraniano, e essas formas são geracionais”, afirmou. Segundo o comentador, “as pessoas mais velhas acreditam na legitimidade política ou teológica assumida por Khamenei”, enquanto “as pessoas mais novas estão fartas deste regime”.
Mas o cenário sucessório continua aberto a várias possibilidades. “Saber se vai haver uma dinastia através do filho de Khamenei, saber se há uma transformação de uma teocracia numa ditadura da Guarda Revolucionária, ou saber se o regime acaba por abrir e pode haver, por exemplo, um regresso à monarquia”. “É muito cedo para saber”, afirmou.
Já no que diz respeito ao plano internacional, o comentador alertou ainda para os riscos de uma ordem mundial cada vez mais marcada por intervenções unilaterais. “O mundo em que estamos é um mundo em que o direito internacional está cada vez mais exíguo”, disse. E deixou um aviso sobre as consequências dessa realidade: “O mundo sem regras aplica-se às outras duas potências que Trump reconhece, a Rússia e a China”.
O comentador apontou ainda para outra dimensão crítica do conflito: o impacto geoeconómico da instabilidade no Golfo. No centro dessa preocupação está o Estreito de Hormuz, uma das principais rotas energéticas do planeta. “Passam aqui entre 20% e 25% do transporte marítimo do petróleo e do gás”, explicou, sublinhando que se trata de um ponto absolutamente determinante para o funcionamento da economia mundial.
Essa dependência é particularmente sensível para vários países asiáticos. “Isto é decisivo para os países que importam, porque precisam dessa energia”, afirmou Portas, apontando como exemplos a “China, Índia, Japão, e a Coreia”, “todos eles estão obviamente preocupados”.
Ainda assim, a situação no estreito permanece pouco clara. “Há um mistério sobre a situação efetiva do estreito de Hormuz”, afirmou. Segundo explicou, surgiram mensagens contraditórias vindas de Teerão. “O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que o estreito não estava bloqueado. A Armada iraniana disse exatamente o contrário”.
Apesar dessa incerteza, o comentador considera que o impacto económico já começou a fazer-se sentir. “O que está aqui em causa é a possibilidade de haver uma subida nos preços do petróleo”, afirmou. Segundo acrescentou, as transações fora dos mercados regulados já apontavam para um aumento significativo. “As vendas fora de mercados regulados já estavam acima de 80 dólares”.
Além da subida dos preços da energia, o conflito pode provocar perturbações no transporte marítimo internacional. “Dois dos grandes gigantes do transporte marítimo anunciaram publicamente que iam suspender a passagem”, explicou Portas, referindo-se às empresas Maersk e Lloyd. Segundo disse, várias embarcações receberam ordens para parar ou alterar rotas.
“Cerca de 150 navios ficaram paralisados”, afirmou, acrescentando que alguns receberam instruções para regressar. Para o comentador, o risco principal está precisamente na liberdade de navegação naquela zona. “A ameaça económica mais importante é a liberdade de circulação no estreito de Hormuz”.
Portas lembrou também que a própria economia iraniana depende dessa rota energética. “O Irão exporta 3,3 milhões de barris por dia”, afirmou, sublinhando que qualquer bloqueio prolongado acabaria por afetar igualmente o próprio país.