O comentador da TVI considera que, após os ataques ao Irão, "a desordem mundial soma e segue" e Trump revela-se cada vez mais um presidente "imperial". A morte de Khemenei, afirma, "não é suficiente"
Numa análise para a TVI e CNN Portugal, Paulo Portas considerou este sábado que os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão representam mais um sinal de agravamento da instabilidade internacional, sublinhando que a operação surge fora de qualquer enquadramento de legalidade internacional. “A desordem mundial soma e segue”, afirmou, acrescentando que o ataque “não obedece a nenhum esforço, nem sequer aparente, de recorrer à legalidade internacional ou ao voto de conforto do Congresso dos Estados Unidos”. Trata-se claramente de “uma ação unilateral e uma ação do Presidente”.
O comentador apontou também várias hipóteses para explicar o momento escolhido para a operação. Uma delas seria a tentativa de travar definitivamente o programa nuclear iraniano, que descreveu como “um programa ameaçador para toda a região”. No entanto, mostrou-se cético quanto a essa explicação: “Se fosse essa a razão determinante, abria uma questão de coerência, porque quando os Estados Unidos atacaram o Irão no ano passado a explicação oficial foi que tinham terminado, destruído completamente o programa nuclear”.
Outra hipótese avançada pelo comentador passa por uma tentativa de mudança de regime em Teerão. Portas destacou que essa possibilidade contrasta com o discurso político que levou Donald Trump à Casa Branca. “Donald Trump é eleito como um presidente que promete o isolacionismo, que promete que os Estados Unidos não se envolvem em mais guerras”, afirmou. No entanto, acrescentou, “ele não passou para um multilateralismo, passou para uma espécie de presidência imperial”, baseada na ideia de que “há três potências no mundo que podem fazer o que entenderem: os Estados Unidos, a China e a Rússia”.
O comentador admitiu também que Washington e Telavive possam estar a aproveitar um momento de fragilidade estratégica do Irão. “O Irão perdeu na Síria, perdeu no Líbano, perdeu em Gaza, envolveu-se direta ou indiretamente em guerras que não eram próprias”, explicou. Nesse contexto, a ofensiva poderia visar “neutralizar militarmente o regime neste momento”, dependendo do alcance da operação: “é para eliminar os aiatolas e o seu líder principal, é para eliminar a Guarda Revolucionária ou neutralizá-la, é para eliminar a teocracia”.
Portas comentou ainda as notícias sobre a possível morte do líder supremo iraniano. “Se houver a eliminação física do aiatola Khamenei, que estava doente, isso não é suficiente, mas é icónico”, afirmou, defendendo que um acontecimento dessa natureza poderia “libertar muitos medos” dentro da sociedade iraniana. Ainda assim, advertiu que “o Irão não é a Venezuela” e mantém capacidade de resposta militar.
Para Paulo Portas, Teerão continua a dispor de vários instrumentos de retaliação. “Os iranianos têm ainda capacidade para procurar atingir Israel, para procurar atingir bases americanas em alguns países da região”, disse. Entre essas possibilidades, destacou o eventual bloqueio do Estreito de Hormuz, classificando-o como “uma arma perigosa para eles próprios”, mas com enormes consequências geopolíticas.
“O Estreito de Hormuz é absolutamente central”, explicou Portas. “Por ali passam entre 20% a 25% do tráfego marítimo de petróleo e gás do mundo”. Esse fluxo energético abastece sobretudo países asiáticos, lembrando que “a China, a Índia, o Japão e a Coreia do Sul dependem bastante deste transporte marítimo livre”.
Do ponto de vista económico, o impacto pode ser imediato. “A primeira consequência é uma subida do preço do petróleo”, afirmou. O barril já estava a subir antes da ofensiva, mas, segundo o comentador, “se esta intervenção demorar, o preço pode subir no mínimo entre 10 a 20 dólares por barril”. Além disso, alertou, “os seguros vão subir imenso”, porque a navegação na zona passará a ser considerada de alto risco.
Quanto ao futuro político do Irão, Paulo Portas sublinhou que o cenário permanece altamente incerto. “É necessário mas não é suficiente saber se Khamenei está vivo ou não”, afirmou, acrescentando que a verdadeira questão é “se o Irão continua a ser uma república teocrática, se passa a ser uma monarquia dinástica ou se se transforma numa república de milicianos do Estado”. No final, deixou uma nota de cautela: “Há muito mais que não sabemos do que aquilo que sabemos”.