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Um mau negócio, uma potência marginal e a extorsão de Trump: a análise de Paulo Portas

JGR
24 ago 2025, 21:56

Portas alerta que o cenário desenhado por Trump enfraquece a Europa, reforça a Rússia e agrava tensões económicas globais, com a Ucrânia como principal prejudicada

No seu espaço de comentário Global na TVI, Paulo Portas analisou o recente encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin, destacando implicações geopolíticas e económicas para a Ucrânia, a Europa e o mundo. O comentador considera que este é um encontro histórico, mas critica a postura de Trump, sugerindo que ele está mais alinhado com Putin do que com os valores ocidentais. Para Portas, Trump não acredita em alianças como a NATO, mas num sistema de potências, elevando a Rússia a uma condição de superpotência militar, apesar de seu isolamento internacional como agressor numa guerra aberta.

"Suspeito que Trump está mais perto de Putin do que da ideia do Ocidente. Ele não acredita num sistema de alianças, mas acredita num sistema de potências e promoveu a Rússia à condição de superpotência. A Rússia só é superpotência do ponto de vista militar. Trump permitiu quebrar o isolamento internacional da Rússia", afirmou o comentador.

Portas enfatiza que o futuro da Ucrânia foi discutido sem a presença de Volodymyr Zelensky, o que considera inaceitável. Trump entrou na cimeira prometendo sanções severas caso não houvesse cessar-fogo, mas, como não houve acordo, também não houve sanções contra a Rússia ou seus parceiros comerciais, o que Portas vê como uma cedência. 

Putin, segundo ele, alcançou os seus objetivos, exigindo o reconhecimento de territórios ocupados, como Lugansk, Donetsk e Crimeia e o controlo sobre uma zona desmilitarizada em Kherson e Zaporizhzhia, além de veto sobre garantias de segurança para a Ucrânia. Portas argumenta que essas exigências visam forçar a saída de Zelensky, já que a constituição ucraniana proíbe ceder território, o que seria uma vitória russa. "Putin quer ganhar debaixo da mesa o que não conseguiu no terreno", garante. 

Sobre a Europa, Portas cita Mario Draghi, que descreveu a Europa como marginalizada e exposta em suas vulnerabilidades, sendo uma potência económica, mas não geopolítica, por falta de defesa autónoma. A busca por garantias de segurança semelhantes ao Artigo 5 da NATO, mas fora do tratado, é vista como desafiadora, já que tais compromissos, sem envolverem um tratado formal, dependem apenas da vontade do presidente dos EUA, não do país. Além disso, a Rússia quer participar do sistema que gere essas garantias, com direito de veto, o que complica ainda mais um acordo justo.

"Encontrar garantias do artigo quinto fora do quadro da NATO é muito difícil porque não é um tratado, é apenas um documento escrito que só compromete o atual presidente do EUA e não compromete o país, porque são os países que estão nos tratados", defende o comentador.

Paulo Portas olhou ainda para o acordo comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia. Portas classifica o acordo como "mau", uma forma de "extorsão" liderada por Trump, que pressiona a Europa e outros a pagar pelo défice americano, que continua a crescer apesar de as tarifas gerarem mais de 250 mil milhões de dólares. O comentador destaca ainda que a Itália e a Alemanha pressionaram por um acordo para evitar tarifas adicionais em setores como automóveis e farmacêuticos, mas Trump percebeu a fraqueza europeia. 

Por outro lado, a China, com seu poder sobre terras raras, conseguiu resistir a essas pressões. Portas alerta que o cenário desenhado por Trump enfraquece a Europa, reforça a Rússia e agrava tensões económicas globais, com a Ucrânia como principal prejudicada.

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