O memorando entre os Estados Unidos e o Irão abre uma porta à diplomacia, mas Paulo Portas vê-a ainda estreita, frágil e cheia de omissões. No Global, o comentador falou de um conflito “nunca suficientemente justificado”, de uma retirada difícil para Trump e de um texto que deixa de fora mísseis balísticos, drones e proxies iranianos
Há uma diferença entre uma saída e uma paz. Paulo Portas vê no memorando de entendimento entre Washington e Teerão a primeira possibilidade, não a segunda. “Estamos um pouco melhor do que estávamos há uma semana”, reconheceu no Global, no Jornal Nacional da TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, antes de pôr travão ao entusiasmo: há apenas “uma possibilidade, não uma certeza”, de terminar um conflito que, na sua leitura, “nunca foi suficientemente justificado e não tem saída militar”.
O acordo abre 60 dias de diplomacia, renováveis por mútuo consentimento. Mas, para Portas, esses dois meses precisam de uma coisa rara na política internacional destes dias: silêncio. “Há dois riscos manifestos para esta saída diplomática. O primeiro chama-se Hezbollah e Israel. O segundo chama-se twitterismo”, afirmou. E explicou: “Não há negociação que aguente isto. Nós temos de nos preparar para 60 dias que precisam de sossego, discrição, até porque ambas as partes vão ter de fazer concessões.”
Um dos pontos que Paulo Portas considera mais relevantes é a clarificação sobre o Líbano. Ao contrário do cessar-fogo anterior, desta vez o tema não fica subentendido. Israel não deve atacar o sul do Líbano e o Hezbollah não deve atacar o norte de Israel. É, para o comentador, uma forma de evitar que tudo tropece “ao primeiro dia”, embora tenha notado que já houve violações.
O Estreito de Ormuz é a outra peça central. Portas lembrou que, antes da guerra, “não havia portagens” naquele corredor marítimo. Durante o conflito, o Irão percebeu que Ormuz podia ser “uma arma muito mais relevante do que muitas outras armas”, pelo impacto sobre a Ásia, a Europa e os próprios Estados Unidos. O memorando suspende cobranças durante 60 dias, mas pode abrir caminho a futuras taxas ligadas à soberania marítima. Se isso se confirmar, notou, Teerão ficará com “uma receita que não tinha antes de a guerra começar”.
Mais cético está em relação aos alegados 300 mil milhões de dólares para o Irão. “Nisso sou cético”, atirou, lembrando promessas antigas de reconstrução de Gaza. “Se houver uma casinha reconstruída, já é sorte.” Outros pontos financeiros parecem-lhe mais concretos, como o eventual descongelamento de ativos iranianos. Mas também aí há risco: se o dinheiro for entregue ao Banco Central do Irão “e a quem ele designar”, pode acabar por reforçar a Guarda Revolucionária e “o caráter autoritário do Irão”.
Na questão nuclear, Portas não encontrou novidade suficiente. O Irão reafirma que não pretende desenvolver arma nuclear, mas isso, recordou, “também já dizia no Acordo de 2015”. A diferença está na precisão: o acordo de 2015 tinha 160 páginas, este tem três. Fala-se em diluir urânio enriquecido, mas sem se saber quanto. Não há detalhe bastante sobre infraestruturas nucleares nem sobre exportação de urânio. “Não me parece que seja muito fácil ir muito além do que Obama tinha conseguido em 2015”, concluiu.
Talvez mais importante seja o que ficou de fora. O memorando não trata dos mísseis balísticos iranianos, nem dos drones, nem do apoio aos proxies — grupos que atuam no Iémen, no Líbano, no Iraque e em Gaza sem que o Irão “suje as mãos”. Para Paulo Portas, estas omissões favorecem Teerão e ajudam a explicar o balanço da guerra: “O Irão não ganhou a guerra, mas seguramente não a perdeu. Os Estados Unidos não perderam a guerra, mas seguramente não a ganharam”.
É por isso que Portas vê Trump numa retirada difícil. Netanyahu convenceu-o, defendeu, de que, eliminando o ayatollah, o regime cairia. “Não caiu.” A partir daí, “toda a tese da guerra estava desconstruída ou falida”. E a subestimação de Ormuz foi, nas suas palavras, “de uma ignorância que mete medo”.
