Paulo Portas dá conselho a Marcelo: “Um comentador tem opiniões. Um presidente representa interesses nacionais. E é apenas nesse plano que deve falar, quando fala”

31 ago 2025, 21:48

Apesar de considerar que a tese de Marcelo Rebelo de Sousa tem argumentos de peso, Paulo Portas avisa que, se todos os chefes de Estado fizerem o mesmo que o português, haveria um duro resultado na diplomacia internacional: “ninguém fala com ninguém”

Paulo Portas, comentador da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) defende que, apesar de a tese de Marcelo Rebelo de Sousa de olhar para Donald Trump como um “ativo soviético, ou russo” ter bastantes fundamentos, não cabe a um Presidente da República tomar esse tipo de posições em público.

“Um comentador tem opiniões. Um presidente representa interesses nacionais. E é apenas nesse plano que deve falar, quando fala”, afirma. As palavras de Marcelo na Universidade de Verão tiveram impacto nos Estados Unidos da América, com vários analistas a defender que poderiam abrir uma crise diplomática.

Para Paulo Portas, um Presidente da República não pode agir como um comentador. “Um comentador tem opiniões. Boas, más, documentadas, não documentadas. Isso é com o público. Um Presidente não tem opiniões nesse sentido. Representa os interesses do Estado português. Obviamente, na diplomacia internacional, não faz muito sentido, os Chefes de Estado, que são máximos representantes da soberania portuguesa no exterior, incompatibilizarem-se com outros presidentes, senão ninguém fala com ninguém”, argumenta.

Ainda assim, lembra que a tese defendida por Marcelo – de que a atuação de Trump tem favorecido e Rússia – “tem muitos partidários em muitos lugares do ocidente”.

“É incompreensível o tratamento absolutamente generoso que Trump dá à Rússia, a promoção de Rússia à categoria de superpotência, as cedências que já faz e que não pode recuar em matéria de Ucrânia”, explica.

Portas lembra ainda as ligações financeiras de Trump à Rússia, uma vez que nos EUA viu a banca fechar-lhe as portas várias vezes. “Ele tinha o mau hábito de não pagar. E foram várias vezes oligarcas russos, bancos russos, que o resgataram e o ajudaram. Se isso criou ou não dependências, a história vai dizer-nos”, lembra.

No caso das declarações de Marcelo, conclui o seguinte: “Se houver consequências, os portugueses ficarão com uma imagem negativa. Se não houver consequências, a questão passará”.

Outros destaques deste "Global"

Portas começa o espaço de comentário “Global” desta semana” com o foco na cimeira de segurança que junta Rússia, China e Índia. O comentador considera que a aproximação de China e Índia, que eram inimigos por tradição, é culpa de Donald Trump e da sua “política deliberadamente isolacionista dos EUA”. Um dos argumentos foi o facto de os EUA terem “punido” a Índia com sanções, obrigando-a a aproximar-se deste bloco.

“Atirar a quarta economia do mundo em termos nominais para os braços da segunda não é um ato de inteligência e o resultado está aqui”, refere.

Depois de avaliar a situação financeira em França, onde Macron deverá tentar um novo primeiro-ministro, levando Portas a defender que os franceses “precisavam de um De Gaulle que não têm”, o comentador elogia os resultados nas contas públicas portuguesas.

“É um grande caminho que Portugal fez desde a intervenção externa. Ao contrário de frança, Portugal aprendeu com o que aconteceu”, resume.

Para o final, Portas destaca dois episódios relacionados com a tecnologia que o deixaram perturbado. “A única coisa que disciplinas as plataformas digitais é sujeitá-las ao código penal em cada sociedade”, argumenta.

Política

Mais Política

Mais Lidas