Mais presentes e comprometidos, mas com mais culpa e muitas preocupações: "Afinal, para que serve mesmo um pai?"

19 mar, 08:00
Frederico Batista com as filhas (DR/Arquivo pessoal)

Frederico Batista falou com 50 pais com idades e experiências diferentes e concluiu que, afinal, os pais não são assim tão diferentes das mães. Mas se calhar precisam de falar mais uns com os outros. O livro "Pais nossos, conversas sobre paternidade" chegou às livrarias mesmo a tempo do Dia do Pai

Frederico nunca tinha pensado muito nisso de ser pai até conhecer a Sara. Mas, com ela, fazia sentido. Queriam ser pais. Recorda o momento em que, quando ia no autocarro, a namorada lhe ligou a dar-lhe a notícia: estavam grávidos. Frederico soltou uma gargalhada. Era alegria, mas também eram nervos. Ia ser pai. Já seria pai? Para as mulheres não há dúvidas, são nove meses de gravidez em que a maternidade se vai impondo, lenta e incontornavelmente. Mas, e para os homens? Por mais livros que leiam, por mais cursos de preparação para o parto que frequentem, por mais que acompanhem a namorada e que estejam lá, em (quase) todos os minutos, há uma parte da experiência que lhes é irremediavelmente alheia.

"Antes sequer de pensarmos nesse momento, no parto, queremos assegurar que estamos a par do que se passa nesse lugar, noutro hemisfério, dentro da barriga. E, no entanto, não tenho em mim essa barriga que cresce a um ritmo vagaroso. Não acordo a meio da noite enjoado ou aziado, com os meus órgãos a serem espezinhados. (...) Mesmo para quem se preparou de forma mais afincada, é no parto que parece acontecer um fenómeno que se assemelha a um despertar. A expressão dar à luz pode acomodar também a experiência paterna, no fim desse longo túnel a que se chama gravidez." (testemunho do Frederico)

Frederico Batista, de 39 anos, "deu à luz" há 10 anos, quando nasceu a sua primeira filha, Salomé. Depois, veio a Júlia, que tem agora 6 anos. (São eles, na foto, lá em cima). Ser pai "é uma experiência avassaladora. Estamos sempre no meio do furacão", diz à CNN Portugal. "Comecei a escrever sobre aquilo que as perguntas e as situações em torno das minhas filhas me suscitavam, tinha um blog onde ia publicando algumas coisas." Tinha vontade de escrever sobre a paternidade, mas também tinha muitas dúvidas. "Eu tenho duas filhas ainda novas, há muitas coisas que não sei, talvez falando com outros pais, para saber se há coisas em comum, se não há, tinha muita curiosidade de saber mais sobe os outros pais", conta. "A minha namorada tem vários grupos de amigas com quem fala de muitas coisas e também falam sobre os filhos, partilham dúvidas, experiências. Mas com os pais acho que é raro isso acontecer, ter um grupo onde partilhem as suas inquietações."

Foi assim que nasceu a ideia para este livro. Para fazer "Pais nossos, conversas sobre paternidade", agora publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Frederico passou muitos meses a entrevistar pais de norte a sul do país, procurando pais com experiências diversas. Entrevistou 50 pais. O mais novo tinha 29 anos e o mais velho 75. "Queria pais diferentes, viúvos, divorciados, de famílias numerosos, que foram pais em diferentes momentos da vida, que tivessem tirado licença parental em vez da mãe..." No final, só utilizou os testemunhos diretos de 17, "mas foram todos importantes", sublinha.

"Se formos ver bem, ser pai e mãe é a mesma coisa. Tudo bem que há a figura maternal, mas a parte de estar a orientar, a educar, dar o exemplo, é indistinta da circunstância de ser pai ou ser mãe" (testemunho de um pai)

Uma das coisas que rapidamente percebeu é que ser pai não é assim tão diferente de ser mãe. "Há o lado biológico, claro, os pais nunca vão conseguir viver a gravidez e o parto da mesma forma. A partir daí não sei se é assim tão diferente, acho que há mais coisas a unir do que a separar", diz Frederico Batista. "Depois, há muitas coisas que podiam ser comuns, mas não são porque culturalmente ainda não há esse encorajamento e essa abertura para os pais se envolverem diariamente nas tarefas diárias de cuidado. Apesar de haver cada vez mais pais que participam, também há muitos que não o fazem. E isso contribui para que a experiência seja diferente e a relação com os filhos também."

Basta lembrar que em Portugal, a licença de maternidade foi criada em 1976, dando à mãe o direito a 90 dias pagos pelo Estado, mas só em 1999 os pais conquistaram o direito o direito a cinco dias pagos pelo nascimento de um filho. É tudo muito recente. O conceito de licença parental foi introduzido na legislação parental em 2009 - passando a ser da responsabilidade dos dois progenitores decidir como querem vão partilhar essa licença. O pai passou a ter 10 dias obrigatórios de licença, cinco dos quais logo após o nascimento do filho. Essa revisão do código do trabalho deu ainda três dispensas ao pai para acompanhar a mãe em consultas pré-natais.

Também é interessante que só em 1986 a lei portuguesa tenha consagrado o direito de a mulher ter um acompanhante (o pai ou outro) durante todas as fases do trabalho de parto. E apenas em 2016 passou a ser permitido ao pais estar presente numa cesariana.

Em 2023, a agenda do trabalho digno veio alargar as licenças e incentivar a partilha das responsabilidades parentais. Apesar disso, em 2024 apenas 47,6% os pais decidiram partilhar com a mãe a licença de 120 ou 150 dias e ficar, pelo menos, 30 dias em exclusivo com o bebé - isto representa um aumento de 15% numa década, mas deixa a maioria dos pais ainda muito longe de um total envolvimento.

"A minha mãe não podia pedir ao meu pai para me dar um banho, ou para me levar à escola. À minha volta todas as figuras [masculinas] eram assim, homens que cristalizaram nessa parte do cuidar. Uma linhagem de homens que não sabiam cuidar, nem deles próprios, nem das suas mulheres. E lembro-me de pensar: nunca vou ser como estes homens, vou ser o oposto destas pessoas" (testemunho de um pai)

Frederico tem a convicção de que existe, de facto, uma mudança no paradigma de pai. "Os pais com que eu falei estão mais alinhados com um modelo de pai mais presente, olham para a parentalidade de uma forma mais comprometida", afirma. "Alguns diziam que estavam a tentar ser melhores do que os seus próprios pais, mas tirando um ou outro, com situações particulares mais complicadas, nenhum deles tinha uma espécie de rancor aos seus pais. Reconheciam que a forma como foram educados não foi a melhor ou que a relação que têm com o seu pai não é muito boa, mas concluem que eles fizeram o melhor que sabiam ou que podiam. Estão a viver esta experiência e percebem agora os desafios que ela traz. Há uma espécie de reconciliação."

Todos os pais entrevistados estão empenhados em estar mais presentes. E há muitos que se sentem culpados por ainda não conseguirem ser os pais que queriam ser. "Fala-se muito na culpa das mães, mas penso que há cada vez mais pais que também sentem essa culpa", diz Frederico. Perceber isso apaziguou-um pouco. "Percebi que não era o único." Não era o único a perguntar-se, enquanto esperava, sozinho na enfermaria da maternidade, depois de ver a namorada ser levada numa maca para uma cesariana de urgência, se estaria à altura da situação. Não é o único a sentir-se culpado por não conseguir sair do trabalho a horas de ir buscar as filhas à escola. Ou a arrepender-se sempre que perde a paciência e dá uns gritos às miúdas.

"O pai ficava reduzido àquela situação tristonha, fim de semana sim, fim de semana não. Se os miúdos estão quase quinze dias com a mesma pessoa, o pai fica completamente afastado." (testemunho de um pai)

Outro aspeto comum a estes pais é que se preocupam muito com o futuro dos filhos, com a sua segurança, com a sua felicidade. "Os desafios hoje são muito diferentes", explica Frederico. Existem, por exemplo, as redes sociais, que "podem contribuir para um afastamento maior. Se já é normal que os adolescentes se fechem um bocado, este contexto de criação de bolhas pode ser preocupante. E temos também, em contra corrente, a proliferação de discursos muito reacionários, que advogam o papel do pai como rei da casa, que manda na mulheres e nos filhos", que é o oposto de tudo o que aqui se esteve a dizer. "Temos que provar que o envolvimento dos pais é positivo e não nos tira relevância, pelo contrário."

"Numa das conversas que tive com um dos pais, que está ligado à gestão, ele usou o termo enriquecimento de função, que é o que se faz nas empresas para manter as pessoas mais motivadas. E é isso que temos de fazer, não encarar esta mudança de paradigma como mais trabalho, uma tarefa a cumprir, mas fazê-lo sobretudo porque nos enriquece do ponto de vista humano, porque vamos descobrir coisas sobre nós no contacto com os nossos filhos e nas coisas que fazemos por eles e com eles."

"Eu e a minha filha apanhamos o autocarro e depois vamos dez minutos a pé para a escola. É um momento só nosso onde tudo acontece. Se eu chegar a casa e lhe perguntar como correu a escola ela vai dar uma resposta redonda, não lhe vai apetecer responder. Mas naquele trajeto ela conta-me tudo e mais alguma coisa. (...) Esse momento é incrível para mim. Às vezes até me demoro mais tempo na passada para o prolongar." (testemunho de um pai)

"Afinal para que serve mesmo um pai?", pergunta Frederico Batista a determinado momento no livro. Um pai pode ser um apoio, uma ajuda, um par de mãos extra. Um pai pode ser um empecilho em determinados momentos. Um companheiro, um colo. Um brinquedo gigante. Um educador, um modelo, um cozinheiro, um motorista. Um porto seguro. Um pai pode ser isso tudo e muito mais.

"Não sou um pai exemplar. Sou um pai que está a tentar sobreviver, está a nadar para chegar a algum lado. Ainda há um caminho", conclui. "Sinto que ainda estou aquém do que poderia ser, mas falei com pais que também se sentem assim e estão já mais serenos com isso. Falei, por exemplo, com um pai viúvo que estava a tentar substituir a mãe até um ponto de exaustão. E percebeu que tinha de ser menos pai para ser melhor pai. Esta é uma pequena lição que trouxe comigo."

Frederico já suspeitava, mas agora tem a certeza, que este caminho se torna mais leve se puder partilhar "dúvidas, inquietações, hesitações" com outros pais. É também para isso que este livro serve - para começar essa conversa.

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