As Pastoras Felizes contra o fogo. Estas "influencers" comem tudo e não deixam nada
REPORTAGEM || Na Serra do Açor, três jovens pastoras cuidam de cerca de 170 cabras que percorrem 400 hectares de baldios, comem a vegetação que alimenta os incêndios e devolvem presença humana a caminhos onde já quase ninguém passa. O rebanho comunitário nasceu depois do fogo de 2017 e acabou por criar também trabalho, queijo, uma nova relação com a aldeia e uma pequena celebridade nas redes sociais. Cátia Costa, Nair Carocinho e Anna Cavinato recusam, porém, o título de influencers. “As cabras é que são influencers”
Naquela manhã, o sol chega depois da luz.
Há já claridade na Serra do Açor quando a estrada começa a subir de Arganil para Cepos e Teixeira, mas o sol continua escondido do outro lado da montanha e durante alguns quilómetros é essa ausência que vai revelando o caminho, curva atrás de curva, montes que aparecem por trás de outros montes, zonas secas pelo verão e manchas mais verdes, afloramentos de rocha, caminhos de terra que deixam o alcatrão e se perdem pelas encostas, estruturas elétricas, eólicas alinhadas nas cumeadas.
Sobe-se devagar porque não há outra maneira de subir. A distância, no mapa, engana. Na serra, poucos quilómetros podem demorar porque cada curva esconde a seguinte e obriga a descobrir o percurso aos bocados. Cepos e Teixeira só aparece no fim da subida. No alto, uma estrada continua para a aldeia; outra abandona o alcatrão e desce por terra até ao cabril, mais abaixo, já fora das casas. Cátia Costa, Nair Carocinho e Anna Cavinato já lá estão. São quase sete da manhã. Do outro lado da porta há cerca de 170 cabras e, por enquanto, nada se ouve.
Quando as três entram, o cabril enche-se de nomes. Os animais levantam-se e aproximam-se sem a reserva que teriam diante de estranhos, primeiro umas, depois tantas que as mulheres começam a desaparecer entre dorsos castanhos, pretos, cinzentos, brancos, pelo comprido, brincos verdes e amarelos, cornos que se cruzam a diferentes alturas. A luz entra oblíqua pela porta, torna visível a poeira, arranca um brilho breve ao metal de um balde, ilumina mãos ocupadas na ordenha e morre poucos metros adiante na penumbra. Um cão grande continua estendido no chão, indiferente à confusão com a autoridade tranquila de quem já viu a mesma manhã começar demasiadas vezes. Uma cabra reclama festas antes de qualquer outra coisa, outra abre passagem quando chega a vez dela, duas resolvem uma divergência à cabeçada, um cabrito aproxima-se demasiado do balde e é recambiado.
As vozes mudam de timbre quando se dirigem aos animais. Há “meu amor”, “menina linda”, “velhota”, beijos no alto da cabeça, pequenos ralhetes que não chegam a perder a ternura. Alguém pede a uma cabra que pare de pontapear outra. Noutra ponta do cabril, Cátia acaricia o pescoço de uma delas e fica com a mão húmida do focinho. Anna entretém o trabalho com uma melodia que aparece e desaparece entre os chamamentos. Nair ordenha.
O leite martela o fundo metálico do balde. É preciso tirá-lo e, ao mesmo tempo, não perder a conta às cabras que já passaram pelas mãos das pastoras enquanto cerca de 170 animais avançam, recuam, se atravessam, desaparecem atrás de outros corpos. A Valentina já foi? Já. E a Griselda? Também. Uma escapa precisamente quando chega a vez dela. Outra ainda ninguém viu. Nomes e números circulam de boca em boca sem que as mãos parem, a memória do rebanho repartida por três cabeças no meio de leite, cornos, focinhos, baldes, palha e pernas. Para quem acaba de entrar ainda há demasiadas cabras parecidas. Para elas, não.
Nair gosta especialmente desta hora. “É quando recebemos os miminhos.” As cabras aproximam-se, descansam a cabeça no ombro, chegam com o focinho ao ouvido. Nair gosta de imaginar que estão a contar segredos. Pode ter dormido mal, pode trazer mau humor, problemas, o cansaço da noite anterior. “Entro ali e passa tudo. Esqueço-me dos problemas, do stress, de não ter dormido, de tudo.” Tem 25 anos. Enquanto fala, uma cabra volta a encostar-se-lhe.
Ao lado, Cátia acompanha uma cabra com os olhos enquanto as mãos continuam ocupadas. Fará aquilo muitas vezes durante o dia, inclusive no meio de uma conversa: nunca entrega toda a atenção a quem tem diante dela, reserva sempre uma parte para a que ficou atrás, a que começou uma briga, a que saiu do grupo, aquela que estava ali há instantes e deixou de estar. “Para alguém que vem de fora, são apenas cabras.” Para Cátia, essa unidade chamada rebanho desfez-se há muito em indivíduos. Conhece-lhes as diferenças, as relações, quem procura quem. “Cada cabra tem uma personalidade diferente. Elas deitam-se e dormem com as filhas e com as amigas. Há dias em que estão mais zangadas, há dias em que estão mais stressadas.” No princípio também ela olhava para o grupo e não distinguia nenhuma. Depois, sem saber exatamente quando, as caras começaram a separar-se umas das outras. “Para mim é lindo. É como estar todos os dias a estudar ou a ver um documentário.”
Antes de estudar cabras desta maneira, Cátia Costa, 26 anos, imaginou outras vidas. Quis ser bailarina. Depois interessou-se por Filosofia, entrou na universidade com a intenção de um dia a ensinar e acabou por perceber que o percurso académico estava a ser mais “sobre a noite” do que sobre o estudo. Perdeu-se um pouco, desmotivou-se, congelou a matrícula e decidiu fazer um gap year. O ano durou seis. Viveu em Coimbra, passou por outros lugares, experimentou “coisas”, regressou à Serra do Açor “para descansar”, verbo pouco compatível com um emprego capaz de começar às sete da manhã e só a devolver a casa 12 horas depois. Os pais eram dali, embora Cátia tivesse crescido em Arganil. Eles cresceram com cabras. Ela não. “Eu estava muito mais a trabalhar com a mente e menos com o corpo. Na altura não tinha noção da dimensão deste projeto.”
O projeto já fazia parte da vida do pai, José Costa, antigo presidente da Junta de Freguesia e um dos homens que estiveram na origem do rebanho comunitário. Cátia ainda o observava de fora quando um acidente desarrumou o que estava montado: o pastor que cuidava dos animais magoou-se e não apareceu ninguém para o substituir. José começou a ajudar. Guida Marques, hoje presidente da Junta, também. Cátia juntou-se aos dois como voluntária porque faltavam mãos e julgou que aquela seria só mais uma experiência no meio dos seis anos feitos de experiências, qualquer coisa provisória enquanto não descobria a seguinte.
Ao fim de uma semana estava a pedir ao pai que a deixasse ficar.
“Por favor, deixa-me trabalhar aqui. Isto é a melhor coisa que já fiz na vida.”
Por agora, abre-se a grande porta do cabril. As cabras saem ainda próximas umas das outras, mas a ordem dura pouco. Algumas avançam pela terra batida, outras atiram-se às margens assim que encontram alguma coisa que lhes interessa, as primeiras levantam uma poeira fina que permanece no ar quando os balidos já se afastam. Durante alguns minutos ainda se distinguem dezenas de corpos na primeira encosta; depois o monte começa a engoli-los e, por fim, desaparece também o som. Nem sequer é rigoroso falar de um único rebanho. As cerca de 170 cabras vieram de três grupos diferentes e conservaram as companhias de origem. Tentaram juntá-las. Elas recusaram a reorganização humana e continuaram a separar-se. “Têm a própria cabeça”, aceita Cátia.
Essa cabeça própria obriga as pastoras a aprender uma geografia que não cabe inteiramente num mapa: cerca de 400 hectares de baldios, três grupos capazes de escolher direções diferentes, zonas onde a comida é melhor numa época e pior noutra, sombras preferidas, estradas de terra, atalhos que deixam de o ser quando se procura uma cabra que decidiu não colaborar. Os animais não precisam de alguém permanentemente atrás deles. Precisam de espaço e de quem lhes conheça suficientemente os hábitos para saber onde começar a procurar quando esse espaço os engole.
Para Nair, os 400 hectares deixaram há muito de ser uma extensão sem diferenças. Sabe onde há comida naquela altura do ano, onde um grupo costuma demorar-se, por que encosta poderá ter subido.
— Se daqui a uma hora fosse preciso encontrar um dos grupos, sabias onde procurar?
— Sabia — responde, sem fazer grande cerimónia do conhecimento. — Ou estavam na Selada das Eiras ou ali em cima, naquele monte.
Há dias em que basta. Outros em que os 400 hectares recuperam subitamente o tamanho inteiro. No verão, o turno está previsto das sete da manhã às três da tarde; no inverno, das oito às quatro. Isso vale enquanto as cabras cumprem a parte delas. Se um grupo não aparece, alguém procura. Se continua a não aparecer, alguém continua. Cátia já saiu às cinco, às seis, às sete da tarde. Nair passou perto de 12 horas sem conseguir localizar todos os animais. Na manhã seguinte chegaram ao cabril e as desaparecidas estavam à porta, à espera que lhes abrissem, como se toda a aflição da véspera tivesse pertencido apenas às mulheres.
A história acaba em gargalhada porque acabou bem. Noutra ocasião, cães atacaram o rebanho e uma cabra ficou tão ferida que teve de ser abatida. Anna conhece a ansiedade dos dias em que uma fica sozinha, em que um grupo não regressa, em que passam minutos suficientes para a cabeça começar a fabricar desastres. “Nesse momento não somos pastoras felizes.” Às vezes, dez minutos depois, as cabras aparecem e a angústia desfaz-se com a mesma rapidez com que chegou. “Quando há um problema, juntas encontramos sempre uma solução.”
Há ainda as acácias. São invasoras, ocupam partes da serra, fecham a vista e escondem animais, e as cabras procuram-nas com entusiasmo suficiente para complicar o trabalho. Cátia começa por falar delas como problema da floresta e da procura até tropeçar na parte da explicação que a diverte. “Elas adoram comer acácias, mas contêm DMT, que é um psicadélico. Então as cabras ficam com a moca.”
Depois vem aquilo que interessa à pastora: os animais comem, procuram a sombra, deitam-se entre a vegetação; no inverno perseguem o último pedaço de sol; um grupo inteiro pode desaparecer da vista a poucas dezenas de metros. Com três grupos diferentes e apenas duas pastoras normalmente em serviço — uma delas, por vezes, ocupada a fazer queijo — há tardes em que as horas começam a acumular-se muito depois do fim previsto do turno.
— Às vezes temos um bocadinho mais de tempo, se elas se portarem bem — pondera Cátia.
— Às vezes são cabronas, não é? — atalha Anna.
Anna Cavinato tem 34 anos, veio de Itália e às sete da manhã já encheu vários silêncios do cabril com música. Não parece propriamente decidir fazê-lo. A voz salta-lhe de uma frase para uma melodia, da melodia para o chamamento de uma cabra, e volta à conversa. Imita os animais, garante que há uma que lhe responde e outra que só quer festas, e quando a palavra portuguesa tarda entram as mãos para acabar a frase. O português vive encostado ao italiano e nenhum dos dois aceita sempre ficar em segundo lugar. Anna pede que a corrijam, repete a palavra certa e continua. Nos primeiros tempos dirigia-se às cabras em italiano, piano, pianino. Agora prefere “devagar, devagarinho”, duas palavras que lhe servem para a língua, para os animais e, mais tarde, também para o queijo. É-lhe difícil passar um dia entre as cabras sem sorrir. Quando procura a palavra para explicar essa alegria encontra gratidão. “Ser feliz aqui é uma forma de gratidão.”
Não veio de Itália à procura disso numa serra portuguesa. “Foi a vida, foi o caminho.” Conheceu o namorado, criado naquela região, havia casas em ruínas que começaram a reconstruir e Anna ficou. Antes trabalhava à distância, diante de um computador, e durante algum tempo aquele ecrã tinha sido uma espécie de passaporte: permitia-lhe viajar, viver no campo, mudar de lugar. Em Cepos, o objeto que a libertara começou a fechá-la dentro de casa. “Quando cheguei aqui, o computador começou a ser uma prisão.” Precisava dele para viver e deixou de querer viver diante dele. Em Itália tinha trabalhado com crianças e essa é a parte da antiga vida profissional de que não abdicou por completo, talvez possa regressar a ela ali, quando dominar suficientemente o português para compreender não apenas aquilo que uma criança lhe fala mas também aquilo que, segundo ela, é preciso perceber “a nível empático”.
Hoje, quando lhe perguntam pela profissão, não procura a palavra.
“Sou pastora.”
Também não precisa de pensar muito quando lhe pedem uma avaliação.
“É o melhor trabalho do mundo. Estamos com os animais, com a natureza, com a chuva, com o sol, com o vento.”
Há uma queixa. Regressará mais de uma vez ao longo do dia: fazer marcha-atrás com a carrinha da Junta. A carrinha faz falta porque as cabras andam. Anna chegou a percorrer 15 quilómetros num dia atrás delas. Não são 15 quilómetros atrás de uma coluna obediente: os animais comem em andamento, dispersam, sobem, entram na vegetação, somem-se e reaparecem noutra cota. Numa encosta, o rebanho desfaz-se em dezenas de pontos e a pastora quase desaparece mais abaixo; noutra, uma cabra enterra a cabeça num arbusto e deixa de fora apenas parte do corpo e o brinco na orelha. A serra altera constantemente as distâncias: o animal que parece próximo obriga a descer, contornar, subir outra vez. Às vezes o caminho das pessoas e o caminho das cabras coincide.
Um dos grupos atravessa o alcatrão quando um carro se aproxima sem reduzir a velocidade com a antecedência que Anna considera minimamente aceitável. Até aí vinha a chamar animais, deixando escapar uma ou outra melodia pelo caminho. Agora abre os braços.
— Espere! Não está a ver a cabra aqui, signora? — protesta, e o italiano regressa-lhe à boca trazido pela irritação. — Algumas pessoas não conseguem esperar um segundo.
O automóvel segue. Anna ainda lhe entrega alguns segundos de indignação e depois regressa às cabras, que entretanto já encontraram qualquer coisa para mastigar.
Noutro ponto da serra, são homens a perturbá-las. Sapadores florestais aproximam-se e o grupo começa a inquietar-se. Cátia não gosta. Um deles tenta apaziguá-la com a garantia de que gostam de animais.
— Pois, pois — devolve Cátia, sem oferecer os olhos à conversa.
Não acha que precisassem de passar precisamente ali e deixa-o perceber. Depois regressa ao que lhe interessa. Quando mais tarde tenta explicar por que ficou, separa duas coisas. “Uma é a relação que consigo estabelecer com elas. Essa é uma coisa do coração, mais pessoal.” A outra já não cabe apenas entre uma mulher e um animal. É a sensação de que o esforço produz qualquer coisa para lá dela própria. “Eu trabalho para as cabras, para a minha comunidade e para a minha floresta.”
Há seis anos não procurava nada disto. Agora não aceita regressar à vida que, em teoria, estaria mais próxima daquela que imaginara para si.
— Se aparecesse um trabalho em Coimbra, num escritório, cinco dias por semana, oito horas por dia, até por mais dinheiro...
— Não. Nunca — corta antes de a hipótese conseguir acabar. — Nunca na vida.
E se na televisão aparecer por baixo do nome apenas a profissão?
“Pastora. Adoro ser pastora e tenho muito orgulho. Se pudesse, escrevia na testa.”
A floresta para a qual Cátia trabalha reaparece várias vezes naquele dia dentro do telemóvel de Guida. No café de Cepos, depois da ordenha e antes de as mulheres voltarem a espalhar-se pelos montes, há torradas e galões. Não é um pequeno-almoço arranjado para a reportagem. É o pequeno-almoço, repetido tantas manhãs que já faz parte do expediente embora nenhuma cabra se sente à mesa. José Costa está ali. Uma amiga passa. Quase não se cruzou ninguém na rua até então. Guida consulta no telefone um site que acompanha praticamente ao minuto as ocorrências de incêndio e voltará a abri-lo várias vezes ao longo do dia. Um foco está mais longe. Outro aproximou-se. Este já foi resolvido. A certa altura olha para um e tranquiliza: afinal é “só mato”. Pousa o telefone. A conversa continua. Alguém acaba uma torrada. Minutos depois Guida volta ao aparelho. Não há sirenes. Não se vê fumo em Cepos. Ninguém larga a chávena. O fogo, naquela manhã, não tem labaredas nem cheiro; cabe inteiro num ecrã e mesmo assim consegue sentar-se à mesa.
Uma senhora idosa aproxima-se.
Usa um lenço na cabeça e primeiro elogiam-lhe o lenço. Ela agradece. Só depois conta que deixou uma saca junto à queijaria. Maçãs e batatas.
“Para as cabrinhas.”
As pastoras agradecem, a mulher segue caminho e a conversa retoma o lugar onde estava. Há quem traga couves, restos de fruta, podas, coisas da horta — às vezes aparecem carrinhas carregadas. Se alguém encontra um grupo onde não costuma estar, avisa. Se já for hora de regressar, há pessoas que ajudam a encaminhá-lo. As cabras aprenderam os habitantes e os habitantes aprenderam as cabras. “Somos uma grande comunidade de pastores”, resume Guida.
José continua sentado no café. Em 2017 era ainda presidente da Junta quando os grandes incêndios atingiram o concelho de Arganil e a Serra do Açor. Depois do fogo, começou a insistir numa ideia tão simples que cabia numa frase. “É preciso um rebanho.” Guida herdou também a frase. Mas não bastava qualquer rebanho. “É preciso um rebanho a sério e tem de ser comunitário.” Manter sozinho cerca de 170 animais significa trabalho durante 365 dias por ano, e as pessoas, explica, já não estão disponíveis para organizar a existência dessa maneira. Um rebanho comunitário pode percorrer os baldios, os terrenos dos compartes, trabalhar uma área que não termina na propriedade de uma só pessoa. “É para todos.”
Houve apoio financeiro para começar. Compraram cabras. O projeto ganhou corpo entre 2018 e 2019. Comprar os animais revelou-se, contudo, a parte menos complicada de ter animais. Uma cabra não é uma roçadora a que se liga a ignição. É preciso maneio, conhecimento, acompanhamento, veterinário, alimentação quando não pode sair, gente que conheça os grupos, gente que apareça no dia seguinte e no outro e no outro, porque uma cabra desconhece domingos, férias, candidaturas, burocracias e calendários. O próprio projeto aprendeu cometendo erros, alterou práticas, corrigiu a maneira de acompanhar os animais. “A vinda delas mudou drasticamente o projeto”, reconhece Guida. “Finalmente conseguimos fazer aquilo que queríamos.”
O maneio não foi a única resistência. Havia outra, muito mais antiga, alojada na memória das pessoas. Guida Marques tem 40 anos, é arquiteta, artista multimédia e de performance, presidente da Junta e também se considera pastora, embora tenha oferecido primeiro essa palavra às três mulheres que vivem profissionalmente dela. “Se pudesse escolher, estava com elas todos os dias.” Quando tenta explicar por que um rebanho criado também para cuidar da serra não foi inicialmente recebido como uma boa notícia por toda a gente, encontra uma expressão pesada demais para parecer administrativa. “Percebemos que estávamos a lidar com um trauma coletivo.”
Para as pessoas mais velhas, explica, as cabras vinham agarradas à pobreza. Pertenciam a um tempo em que havia famílias que sobreviviam graças àquilo que os animais davam porque faltava quase tudo o resto. Voltar a pô-las na serra não significava necessariamente recuperar alguma coisa boa — podia significar obrigar uma geração a olhar outra vez para a parte da vida da qual passara décadas a afastar-se. “Foram as cabras que o resolveram. A partir do momento em que saíram da vedação começaram a ser de todos e de todas.” Passaram a percorrer os baldios e os caminhos, aparecer junto das casas, ser encontradas por pessoas que telefonavam às pastoras, receber comida, ser encaminhadas quando chegava a hora do regresso. O projeto deixou de acabar numa cerca.
A senhora do lenço já desapareceu. As maçãs e as batatas ficaram.
Não se sabe o que pensava das cabras há dez, vinte ou cinquenta anos. Sabe-se o que fez naquela manhã: guardou-lhes comida. Cátia reconhece uma cumplicidade particular entre as três jovens e algumas mulheres muito mais velhas. A juventude delas, acredita, era em certos aspetos mais parecida com a vida que as pastoras têm agora do que com a de muitas raparigas da mesma idade. “Dão-nos conselhos, fazem perguntas, trazem-nos coisas da horta.” E veem os vídeos. Encontram-nas no café e comentam o que passou no telefone. “O vídeo era tão bonito, então os cabritinhos?” Por essa pequena janela também, percebe Cátia, “começam a estar mais dentro do projeto”.
Nair chegou à serra por um caminho mais comprido. Nasceu em Faro, foi viver para Cabo Verde com os avós quando tinha cerca de dois anos e cresceu lá. Regressou com eles a Portugal em 2019, primeiro para Pampilhosa da Serra, terra dos avós, e acabou depois em Fajão. No início, não gostou. “Era completamente diferente de Cabo Verde. O clima, as pessoas, o ambiente, tudo.” Havia ainda um problema sem nenhuma poesia: não tinha carta e os transportes não lhe davam a autonomia de que precisava. “Aqui, sem transportes públicos suficientes, é muito difícil. Foi preciso habituar-me.” Hoje usa outra medida para falar da vida ali. “Tempo de vida.”
Sai do trabalho e o dia ainda não acabou. Consegue tratar dos próprios animais, estar com as pessoas da aldeia, descansar. “Temos qualidade de vida.” Gosta de saber quem vive em redor, de poder bater a uma porta se precisar de alguma coisa. Quando procura o contrário disso, imagina um prédio: “Num prédio com oito andares, se calhar, ninguém se conhece”.
Com as cabras também teve de conquistar intimidade. Ela ainda não as conhecia e elas não tinham razão nenhuma para confiar nela. Nos primeiros dias foi preciso andar, como conta, “em pezinhos de lã”. Curiosamente, foi aproximadamente o mesmo tempo de que precisou para decidir que queria ficar. Começou a trabalhar muito nova no atendimento ao público, no restaurante dos avós. Já naquela região voltou para trás de outro balcão. O restaurante fechou. Precisava de emprego. Conhecia Cátia, gostava de animais, tinha cabras em casa. Aceitou experimentar durante um mês.
Não precisou do mês.
“Na primeira semana apaixonei-me completamente. Disse-lhes logo: já não saio daqui, só se vocês quiserem.”
Quando a conversa chega aos jovens que deixam a região, Nair começa pelo que lhe dificultou a própria chegada: faltam empregos, projetos que permitam ficar. Nas cabras encontrou uma possibilidade concreta dentro dessas ausências: trabalho, salário, folgas que as três conseguem organizar, tempo para os próprios animais, os amigos, o rio, a leitura. E ganhou uma certeza definitiva sobre balcões. “Prefiro mil milhões de vezes levantar-me cedo, passar frio, passar calor, apanhar sol e escaldões, andar atrás das cabras, do que voltar a trabalhar com o público, num restaurante, num café, num bar, seja onde for.”
Na queijaria percebe-se melhor a distância que Nair prefere manter entre ela e uma plateia.
O leite da manhã chega numa grande vasilha transportada pela carrinha da Junta até um pequeno espaço junto ao centro da aldeia, abaixo da igreja, onde já aparecem sinais da festa que chegará semanas depois. Junta-se cardo para coalhar o leite. Nesta altura do ano muitas cabras estão grávidas, outras começam a secar, e a produção caiu para cerca de três queijos por dia — em março chegou perto dos onze. As pastoras revezam-se. Nesse dia é Anna quem acompanha o processo e chega uma altura em que as mãos já fizeram o que podiam.
Resta o tempo.
— Agora damos boa noite ao queijo — anuncia Anna, olhando para a vasilha. — Vai dormir duas horas.
É também ali que regressa a memória de uma feira onde era preciso explicar ao público os apadrinhamentos. Anna ainda não confiava suficientemente no próprio português e encontrou uma solução: Nair.
— Nair, eu não falo bem português, tens de ser tu — recorda Anna.
— Não vou falar ao microfone à frente desta gente toda — devolve Nair, recuperando a própria resposta. — Eu sou monossilábica: sim, não, é.
As duas riem. Nair tolera melhor uma câmara do que uma multidão. “Se não tiver de falar com muitas pessoas, para mim é tranquilo. Não gosto é de estar ali e saber que estão todas a olhar para mim.”
Mais tarde, Anna regressa ao queijo. Ainda há palavras a aprender. Durante algum tempo, “soro” saía-lhe “sogro”. Corrigiram-na. Anna repetiu, aprendeu e ficou com a história, como fica com muitas das palavras portuguesas que primeiro lhe saem tortas e depois entram no lugar. Agora o soro está onde deve estar. As mãos também. Trabalham a massa devagar, viram o queijo sem pressa.
Enquanto o queijo espera, Nair fala de outra espécie de demora. “As pessoas querem as coisas muito rápido, mas há coisas que não podemos apressar. Esta é uma delas.” As cabras trabalham durante o ano inteiro. Comem hoje, regressam amanhã, voltam depois. “Com os animais não podemos esperar resultados imediatos.” Guida não gosta sequer da primeira palavra que quase toda a gente escolhe para esse trabalho. “Limpeza, não. Não há sujidade, não há lixo. É gestão do território. Se fosse lixo, elas não o comiam.”
Depois chegam as contas, e as contas têm menos humor. O apoio inicial não se transformou num financiamento previsível e Guida encontra parte do problema na maneira como o Estado continua a olhar para uma cabra: sobretudo como produto. Carne, leite, queijo. “Neste projeto isso é um mais, o queijo. Para carne, não. Nós somos um capril de vida, não somos um capril de morte.” O queijo ajuda, mas não explica a existência do rebanho. “A função delas é gerir o território. E para isso praticamente não há financiamento.”
Há veterinário, vacinas, alimentação quando as condições impedem os animais de sair, salários, e há um sistema de apoios que Guida descreve com uma ironia que mal tenta esconder. “Recebemos por cada cabra que temos fêmeas. Os machos não têm direito à vida”, atira. No monte, contudo, “os machos trabalham tanto como as fêmeas”. O pouco dinheiro que chega do Estado também não é certo: o valor depende do número de pastores que se candidatam e por isso nunca é uma verba em que o projeto possa repousar. Guida prefere uma conta que caiba numa frase. “É pagarem-nos o mesmo que pagam às máquinas por hectare. No mínimo, 650 euros por hectare.”
Para ela, a diferença não está apenas no que desaparece da serra. Está no que permanece nela. Uma máquina entra, corta e sai. As cabras regressam. Comem hoje, amanhã, noutra semana, fertilizam o terreno. E, atrás delas ou à procura delas, as pastoras voltam também, atravessam lugares onde percebem que uma espécie invasora avançou, que a vegetação cresceu, que um caminho começou a fechar, que alguma coisa mudou desde a última passagem.
Nenhuma delas vende o rebanho como uma espécie de talismã contra o fogo. Cátia lembra o vento, a temperatura, o relevo. Nair acrescenta que há demasiados fatores e que a floresta inteira não está a ser gerida pelas cabras. Guida também não imagina uma Serra do Açor onde nunca mais arderá nada. “Vai haver sempre incêndios. Fazem parte da natureza. A questão é se são controláveis ou não, se é possível combatê-los, o que encontram quando chegam.” Recorda um grande incêndio que se aproximou de uma área trabalhada pelas cabras e a convicção, entre quem conhecia aquele terreno, de que ao chegar ali o fogo encontraria outra coisa pela frente. Nair não precisa de uma teoria. “Basta olhar.” Olhar para uma encosta percorrida regularmente pelo rebanho e depois para outra. Ver a vegetação mais baixa onde os animais passam, os arbustos comidos, as zonas onde ainda não chegaram.
A conversa sobre o que permanece e o que desaparece na serra acaba por chegar, inevitavelmente, às pessoas. Aos que partiram, aos que ficaram e aos que, como Cátia, fizeram o caminho de regresso. Cátia não transforma a cidade numa inimiga. Sabe que determinadas carreiras e determinados salários estão noutro lado. Só faz outras contas. “Hoje em dia a situação económica não está muito favorável para o cidadão comum.” Acredita que isso também mudou a maneira como alguns jovens da sua idade olham para a hipótese de ficar. Compara um salário mais baixo ali com um salário um pouco maior numa cidade, acrescenta as despesas, a comunidade, o café onde conhece as pessoas, o vizinho a quem pode pedir ajuda. “Acabamos por ter muito mais qualidade de vida.”
Há ainda as praias fluviais que guarda como pequenos lugares meio secretos, a quinta onde o namorado trabalha, os livros, a escrita, as aulas de português que chegou a dar a estrangeiros da região, a ideia de criar uma escola de verão para crianças. Muitas manhãs acorda às cinco para tratar da quinta antes de entrar no cabril e, terminado o turno, regressa a mais animais. Ultimamente escreve menos. “Tem sido cabras o dia inteiro.”
As cabras fizeram-lhe ainda outra coisa: obrigaram-na a conhecer melhor o lugar de onde vem. Levam-na por montes, procuram os topos, entram em estradas de terra que a geração dos pais e dos avós utilizava e a dela quase deixou de conhecer. “Existem imensas estradas de terra que levam a sítios lindíssimos que a geração dos meus pais e dos meus avós conhecia. A minha geração já não tanto. Eu agora tenho a possibilidade de conhecer.” Os caminhos não desapareceram. Ficaram onde sempre estiveram, mais abertos ou mais fechados, mais usados ou entregues à vegetação. O que desapareceu, muitas vezes, foi a razão para alguém passar por eles. As cabras arranjaram uma. Se houver comida, vão.
Ao longo do dia regressam também os nomes. Ceira é a 4745. Azuri, 3749. A 309 chama-se Parkour porque um dia fugiu, subiu a um muro e saltou com suficiente talento para Anna lhe atribuir imediatamente uma modalidade desportiva. Há Mimocas, Mia, Marjorie, Fofinha, Tiramisù. Outras continuam 008 ou 212 porque ainda não ganharam nome. O apadrinhamento apareceu quando o projeto precisava de dinheiro e as pessoas queriam aproximar-se mais: quem contribui pode batizar uma cabra, visitá-la, acompanhá-la.
Anna aponta uma no meio das outras.
— Aquela é a 202. Ela fala muito comigo.
Mais tarde procura outra.
— É a 011, não é?
— É. Anda, menina. Casa — chama Guida.
A cabra demora.
— Ela é sempre a última — observa Anna.
Para poder usar “sempre” a propósito de uma cabra é preciso ter esperado por ela muitas vezes.
As três pastoras raramente trabalham juntas. Normalmente são duas, com folgas rotativas. As cabras precisam de cuidados 365 dias por ano e elas distribuem entre si essa obrigação contínua. Cátia tem a quinta e os projetos que tenta encaixar num horário que nunca é completamente seguro. Nair lê, cuida dos próprios animais, convive, vai ao rio quando pode. Anna tem galinhas, gatos, jardim, ajuda num pequeno mercado comunitário e continua a imaginar trabalho com crianças. A profissão ocupa muito, por vezes quase tudo, mas nenhuma ficou reduzida à profissão.
Guida garante, ainda assim, que são elas quem lhe dá mais trabalho.
As cerca de 170 cabras ou as três pastoras?
“As pastoras.”
Anna é a mais velha. Nair não encontra na idade qualquer garantia de prudência.
— Acho que ela tem menos juízo do que nós as duas — provoca.
Cátia atribui-lhe outro cargo.
— É a rainha dos Reels.
As três já filmavam as cabras para família e amigos porque tinham percebido que o quotidiano do rebanho surpreendia quem estava de fora: animais que vinham pedir carinho, encostavam a cabeça, pareciam responder, cabritos, pequenas cenas sem importância suficiente para um relatório e com importância mais do que suficiente para serem mostradas outra vez. A primeira conta nas redes sociais chamava-se “Baldios de Cepos e Casal Novo”. Quando lhe sugerem que não é propriamente um nome feito para triunfar na internet, Nair nem tenta defender o nome anterior. “Não. E, para nós, o nome do Instagram é aquilo que somos.”
Mudaram o nome.
Pastoras Felizes.
Guida demorou mais a render-se às redes. “Para nós, as redes sociais são muitas vezes uma forma de escapar da realidade. E a nossa realidade é tão bonita que não temos essa necessidade.” Acabou por aceitar outro argumento: se acreditavam que aquele modelo podia interessar a outros baldios, a outras aldeias, talvez a outras regiões do país, era preciso fazê-lo sair dali sem tirar uma única cabra da serra.
A página fez o que o rebanho não podia fazer: atravessou a serra sem sair do lugar. As cabras ficaram nos baldios. As imagens foram parar aos telemóveis de gente que nunca tinha posto os pés em Cepos. Uma mulher que trabalha com crianças pergunta pelo próximo Reel porque os miúdos já esperam por ele. Famílias em férias aparecem no cabril — uma chegou às sete da manhã, hora a que muitos ainda chamam madrugada e ali já é trabalho. No café, os vídeos deixam de ser vídeos e tornam-se conversa: perguntam pelos cabritinhos, querem notícias desta ou daquela cabra, acompanham animais que talvez nunca tenham visto fora de um ecrã. E depois começam a chegar os estranhos. Gente de outros baldios que sobe a serra não para admirar cabras, mas para descobrir como é que 170 animais, três pastoras e uma ideia comunitária conseguem pôr um território a funcionar de outra maneira. Curiosos. Jornalistas.
A pergunta acaba por aparecer.
— Vocês são influencers?
— Não. As cabras é que são influencers — corrige Cátia.
— Nós somos as mensageiras das cabras — acrescenta Anna.
Nair prefere o humor. Cátia e Anna, acusa, são mais dos vídeos “fofinhos”. Anna gosta de fotografia e de acrescentar “um pouco mais de pimenta”. Quando decide gravar um Reel com as três naquele dia, percebe-se rapidamente que a espontaneidade também dá trabalho. Limpa a câmara, aproxima-as, tenta enquadrar.
— Bom dia!
Uma quase leva uma cabeçada.
— Tu ias-me dando uma cabeçada!
Recomeçam. Trocam de posição. Nair chama Cátia. Cátia tenta outra vez. O telefone deixa uma delas de fora.
— Temos de refazer. Temos de refazer tudo! — determina Anna, promovida por instantes de pastora a realizadora.
Há gargalhadas, uma acusação de que alguém se está a queixar demasiado, outro princípio, outra tentativa. O Reel final terá poucos segundos. Nenhum deles mostrará o trabalho que deu fazê-lo.
No fim, Guida não mede a página em seguidores, visualizações ou alcance. Há números que servem para quase tudo nas redes sociais e não servem para isto. A memória dela escolhe outra medida. Lembra-se de uma criança. Só uma. Há perguntas que uma criança faz sem saber o tamanho que têm.
“Veio perguntar-nos que curso tinha de tirar para ser pastor e se lhe podíamos dar um trabalho.”
