São precisos 22 mil euros para a licenciatura de três anos e a jovem já pôs mãos à obra. Tudo começou no 11.º ano
Raquel Barros tem 18 anos e um sonho, ir para o Ensino Superior. Para isso, começou a vender pastilhas elásticas a um euro. “Quando temos força, dedicação e vontade não há nada que nos pare”, dizia a jovem de 18 anos num vídeo publicado no Youtube, há três semanas. Até ao momento já tem mais de oito mil euros angariados, sendo parte desse dinheiro fruto da venda das pastilhas.
"Desde pequena, enfrentei desafios difíceis na vida. A minha mãe, que é a pessoa mais importante para mim, enfrenta uma doença, o que me obrigou desde cedo a lidar com responsabilidades e a demonstrar que tinha capacidade para enfrentar as adversidades", revela em conversa com a CNN Portugal.
Recapitulando, quando estava no 11.º ano na Escola Profissional Val do Rio, no Estoril, a jovem de ainda 17 anos não tinha a ambição de ir para o Ensino Superior. “Ir para a universidade não estava nos meus planos, mas entretanto começou a fazer mais sentido quando falei com uma professora sobre universidades”, explica.
Desde então, Raquel pôs na cabeça que queria ir estudar Marketing para a Universidade de Aveiro e nunca mais mudou de ideias. A hipótese de ficar em Lisboa nunca esteve em cima da mesa desde que esteve num projeto Erasmus e percebeu que ficar esse tempo fora lhe fez bem. Por isso concluiu que estudar noutra cidade que não a capital seria "o mais benéfico”.
A jovem confirma que quando tomou a decisão de fazer uma licenciatura sabia que os pais “não iam ter como pagar” a faculdade. Os restantes familiares não passavam muito tempo com ela e, assim sendo, custava-lhe aceitar alguma ajuda monetária que lhe pudessem dar.
“Então tinha de arranjar forma”, confessa. E foi isso que fez.
Quando estava num supermercado começou a olhar para um pacote de pastilhas - estava aí a génese da ideia. “Provavelmente foi o papel da promoção que me chamou a atenção”, lembra. Depois disso ficou "com aquilo na cabeça” e no dia seguinte, foi "a outro supermercado e fiquei a olhar para outro pacote".
Nesse instante decidiu que ia começar a vender pastilhas elásticas e que até “podia conseguir tirar algum dinheiro dali”.
No início, os pais acharam estranho, mas Raquel muito decidida. ”Vender pastilhas não dá lucro”. É o que a jovem pensa que pode ter passado pela cabeça dos pais, que achavam que o negócio não ia ser viável.
"Fui experimentar vender as pastilhas elásticas e comprei três embalagens com seis pacotes cada, um total de 18 pacotes para começar”, recorda, regressando a junho. A premissa de Raquel foi a seguinte: “Só volto quando vender tudo”. Pôs mãos à obra e deslocou-se até ao Parque dos Poetas, em Oeiras, onde vendeu os 18 pacotes.
Quando chega ao pé de qualquer pessoa tem sempre a mesma abordagem: “Boa tarde, desculpe incomodar, estou a juntar dinheiro para a faculdade, pode comprar um pacote de pastilhas?” Normalmente, assegura, as pessoas elogiam a iniciativa e, por vezes, até dão o dinheiro mesmo não querendo as pastilhas.
Feitas as contas, e só nesse dia, Raquel conseguiu um lucro de 13,5 euros. No final do dia, o pensamento da jovem foi de que “quanto mais vender, mais dinheiro tenho para comer”.
Passados alguns dias, “quando decidi publicar no Linkedin que estava a vender pastilhas, nunca pensei que isto ia acontecer”. A ideia de fazer uma publicação a divulgar o projeto surgiu na sequência de uma disciplina do secundário. A jovem recorda que criaram uma conta de Linkedin, o que lhe deu esta ideia. Nessa altura, a professora alertou que muitas vezes as pessoas acabam por se esquecer de atualizar a rede social, mas Raquel disse para si própria que não se ia esquecer de o fazer.
Por isso, decidiu publicar que estava a vender pastilhas a um euro, “para atualizar o Linkedin”. “Vender pastilhas para conseguir dinheiro para ir para a universidade” era o título da publicação de Raquel Barros.
“Entretanto começou tudo a acontecer e sugeriram-me criar um crowdfunding”, que, atualmente, já conta com mais de oito mil euros de doações.
Para ajudar a jovem de 18 anos, a Lusiteca - Produtos Alimentares, SA juntou-se à causa e contribuiu com "um vasto sortido de pastilhas e chupas Gorila mas também com incríveis produtos Penha", pode lêr-se na publicação no Linkedin.
"Enviaram mensagem para conhecer a fábrica e para me darem produtos para vender", explica Raquel, acrescentando que "era imensa coisa e disseram que se houvesse necessidade de mais era só falar com eles".
Assim, atualmente, "tudo o que vender é lucro" e, para além das habituais pastilhas, vende ainda chupa-chupas (dois a um euro) e rebuçados (10 a 1 euro). Normalmente, durante a semana, tenta ir, no mínimo, três vezes ao Parque dos Poetas e, até agora, já arrecadou 250 euros. "Se correr bem", explica, o valor retirado ao fim do dia são "mais ou menos 30 euros".
No entanto, o dinheiro alcançado ainda está longe dos seus objetivos, porque para conseguir ter o dinheiro suficiente para os três anos, a jovem calcula que vai precisar de cerca de 22 mil euros. “Pelas minhas contas, se não conseguir ir para a residência universitária, preciso por mês de 600 euros”, afirma, valor que inclui custos com alimentação, alojamento e propinas, entre outros.
Por isso Raquel vai continuar a vender pastilhas elásticas por Lisboa. “Não quero ficar parada e vender dá-me motivação para continuar a correr para o objetivo”, conta. Aliás, quando for estudar para Aveiro pretende continuar com a venda das pastilhas elásticas, mesmo que o dinheiro que consiga seja apenas para alimentação.
Os planos para o futuro são, depois de terminar o estágio não remunerado, de se sentar e analisar todas as indicações e conselhos dados pelas pessoas nas suas redes sociais e mensagens privadas.
Apesar de alguns comentários negativos que foram surgindo perante a iniciativa, a jovem não ficou abalada. “Até achava que sim, mas não me afeta. São tantos positivos", conclui.