A prática não é nova, mas tem-se popularizado nos últimos tempos. Os adolescentes partilham, com facilidade, passwords de redes sociais e de acesso ao telemóvel com namorados e amigos. Fazem-no “como prova de amor e de amizade” e não veem mal nenhum nisso. Mas há riscos para os quais não estão conscientes
A filha mais velha de Teresa Silva iniciou o primeiro “namoro a sério” há apenas três meses. Aos 17 anos, a jovem não podia estar mais apaixonada e Teresa, apesar de temerosa, gosta de a ver assim. Anda feliz. Mas, recentemente, a mãe apercebeu-se de um comportamento do casal que a deixou preocupada.
“Vi-a pôr a impressão digital no telemóvel dele e, quando ele foi embora, falei com ela. Ela disse que não tem mal nenhum e que ele também tem acesso a tudo dela. O miúdo é espetacular, é supertranquilo, mas não acho nada saudável que partilhem assim passwords e acesso ao telemóvel um do outro”, confessa a cozinheira de 42 anos.
“Sei que há relações abusivas e tóxicas. Isso não acontece aqui. Mas, mesmo assim, não é saudável. Acho que cada um devia ter a sua privacidade. Digo-lhe ‘ó filha o que é hoje, amanhã não será’. Ela quer ir para universidade e ele para a Força Aérea. Vão para cidades diferentes e vão estar a centenas de quilómetros de distância um do outro. Sabe-se lá como é que isto pode acabar”, acrescenta Teresa.
Como “uma escova de dentes”
O que a filha de Teresa Silva faz com o namorado é uma prática comum entre adolescentes. Não é nova e já foi notícia em meios de comunicação conceituados como o The New York Times (em 2012) ou a The Week (em 2015). Ciclicamente volta a ser uma espécie de ‘moda’. E está outra vez a ser cada vez mais frequente os jovens cederem ou trocarem as passwords de acesso a contas de redes sociais ou a dispositivos móveis com amigos ou namorados, como “prova de amor ou de amizade”. E isso está a preocupar pais e especialistas.
“Todos devíamos ter as passwords como temos as escovas de dentes. Cada um usa a sua, sem a partilhar. E a mesma analogia pode ser feita com a roupa interior. Também ninguém a partilha roupa interior, pois não?”, compara Tito de Morais, cofundador do projeto Agarrados à Net.
O especialista elenca alguns dos perigos associados a esta prática tão popular entre os mais jovens: “Quem tem acesso à password do nosso telemóvel, por exemplo, tem acesso a tudo, incluindo dados pessoais e imagens. É como dar a chave de nossa casa a outra pessoa”. “Essa pessoa pode, por exemplo, usar as nossas contas das redes sociais para faze bullying com outras pessoas e nós virmos a ser responsabilizados”, exemplifica ainda.
Relação saudável, mas pouco
A psicóloga Raquel Raimundo sublinha a importância de distinguir entre relações saudáveis e relações tóxicas. “Em relações saudáveis, há respeito, confiança, independência. Há apoio. As pessoas sentem-se felizes e realizadas. Nas relações tóxicas, há intimidação, necessidade de exercer poder e até de isolar a outra pessoa. Da parte da vítima, muitas vezes, há a negação de que isto acontece”, começa por dizer.
“Estamos a falar daquilo que é partilhável e daquilo que é mais privado. As passwords são uma dessas coisas que devem ser mais privadas. Partilhar as passwords não é uma prática saudável. Elas são usadas muitas vezes para controlar a outra pessoa. Se há confiança e respeito pela autodeterminação do outro, então não há necessidade de ter a password dele para aceder a uma conta da rede social ou ao telemóvel”, acrescenta a psicóloga.
Tomás Grencho, responsável interino da Linha Internet Segura da APAV, diz que à Associação de Apoio à Vítima já “chegaram casos em que, durante o namoro, houve exigência de partilha de passwords”. “Na adolescência, mas também em idades mais velhas”, sublinha, acrescentando que, “normalmente, tudo piora apos o término da relação amorosa, em que a pessoa continua a ter acesso a publicações e informação da outra pessoa”.
E é aí que chegam a chantagem ou difusão de fotografias íntimas, por exemplo, como alerta o especialista, e é quando a APAV é chamada a apoiar as vítimas.
Uma vítima de cyberbulling
“Isabel” pede que não seja divulgada a verdadeira identidade porque “há um processo em investigação”. É psicóloga e trabalha numa autarquia. Durante muito tempo trabalhou com jovens, mas foi à porta da sua casa que bateu o azar. A filha, agora com 18 anos, foi vítima de cyberbullying: “um pseudo namorado gravou momentos deles e divulgou o áudio por centenas de pessoas”.
É esse processo que está agora em investigação. Mesmo assim, a filha de “Isabel” não sente “necessidade de privacidade em relação aos pares”. “Desde os 14, mais ou menos, que partilham as passwords uns com os outros. Mas o que eles fazem muitas vezes é entrarem nas contas deles nos telemóveis dos amigos e depois não fazem logout e nem sentem essa necessidade. Acham uma situação normal”, diz a mãe, com tom reprovador.
Garante que conversa com os filhos, que os alerta e que procura ser uma mãe atenta. “Sempre trabalhei muito as questões da violência no namoro cá em casa e não foi por isso que consegui impedir que ela fosse vítima de violência no namoro”, lamenta, para sublinhar que todos os cuidados são poucos.
Sofia Marques, de 46 anos, é formadora num curso profissional e trabalha com jovens entre os 15 e os 18 anos. No último ano letivo, apercebeu-se que as alunas tinham as passwords dos namorados e partilhavam as suas passwords com eles. “Converso muito com elas e digo-lhes que aquilo não é bom, que não é uma prática de um relacionamento saudável. Elas não veem mal nenhum e argumentam que é bom para saberem ‘se acontece alguma coisa’”, relata a docente.
Expor mais do que a própria privacidade
Ao partilharem as passwords das redes sociais e dos telemóveis com namorados ou amigos, os jovens parecem esquecer-se que expõem mais do que a própria privacidade. Quem conversa com eles através desses meios também pode acabar exposto. E, inconscientemente, Teresa Silva já procura precaver-se.
“Se tiver de chamar a atenção à minha filha à frente do namorado, chamo. Não me incomoda que ele leia as minhas a mensagens que envio para ela. Mas há coisas que, por saber isso, já não mando por mensagem e falo pessoalmente com ela. Tenho consciência que ela depois lhe vai contar. Mas há coisas que já não lhe escrevo”, admite.
Além da partilha das passwords, os jovens não se coíbem de partilhar em permanência a geolocalização com namorados e amigos. Cristiane Miranda, cofundadora do projeto Agarrados à Net, não tem dúvidas que, em muitas situações “é uma forma de controlo e leva a situações de coação”. “Uma relação saudável não é construída na base da vigilância e do controlo. É construída na base da confiança”, alerta a especialista.
“Até pode ter sentido ativar a geolocalização pontualmente, para dizer a alguém onde estou, para essa pessoa vir ter comigo. Mas em permanência e sob coação não é saudável”, resume Cristiane Miranda.
A psicóloga Raquel Raimundo assina por baixo: “A partir do momento em que existem comportamentos mais controladores em relação ao outro, a geolocalização não deve ser partilhada”.
Não é em proibir que está o ganho
Apesar de todos os perigos, Cristiane Miranda e Tito de Morais não defendem a proibição de redes sociais ou de acesso ao telemóvel. “Não é por proibir que os filhos tenham telemóvel ou redes sociais que eles não as têm. E o risco até pode ser maior: criam contas no telemóvel de um amigo e não têm a preocupação de fazer logout. E o amigo fica com livre acesso à conta deles e, mesmo sem querer partilhar nada, estão a fazê-lo”, alertam.
Os dois especialistas sublinham ainda que o excesso de proteção pode ter outro efeito adverso: “O controlo excessivo que os pais querem ter em relação aos filhos pode normalizar um comportamento que eles depois podem replicar ou permitir em relação a outros”.
“Nós tínhamos o nosso diário e não queríamos que os nossos pais abrissem o nosso diário ou as nossas cartas”, lembra ainda Cristiane Miranda.
Por isso, é fundamental a comunicação aberta com os filhos: “Tem de haver o cuidado de explicar à criança porque é que os pais pedem as passwords, de dizer à criança ‘Eu amo-te, eu gosto de ti e tenho o dever de cuidar de ti’”. “O ideal é criarmos uma relação com os nossos filhos para que eles tenham a liberdade para, se se meterem em sarilhos, tenham a vontade e a liberdade para virem ter connosco e contar”, sublinha Tito de Morais.
Dependendo da relação que se mantém com o filho e do grau de maturidade dos jovens, os dois especialistas consideram que, passada a pré-adolescência, já não será saudável os próprios pais exigirem ter as passwords dos filhos.
“Isabel” já não o faz com a filha mais velha, mas tenta não descurar a segurança: “Disse-lhe que quero que ela tenha a password escrita em algum lado para que eu possa aceder em caso de necessidade. Já trabalhei com vítimas de tráfico humano e quero estar segura para se lhe acontecer alguma coisa”. “O de 11 anos já altera a password e não me diz nada. Já lhe expliquei que se estiver preocupada com ele e se sentir que anda com algum problema preciso de ter como o ajudar. Sei que a minha filha tem três ou quatro contas de Instagram e tem uma onde eu estou bloqueada. É uma prática comum também entre os jovens, que também me deixa preocupada”, diz.
Trabalhar a literacia
A formadora Sofia Marques sente necessidade de se trabalharem estes temas com os jovens em contexto escolar: “Ainda ontem fui a uma reunião ao Instituto Português da Juventude e falei com a técnica sobre a necessidade de fazermos ações de sensibilização nesta matéria”.
A psicóloga Raquel Raimundo concorda que o segredo para a prevenção pode precisamente estar na educação e no trabalho da literacia digital e não só. “É importante ensiná-los a distinguir o que são relações saudáveis e não saudáveis em termos de amor e de amizade. Desconstruir estereótipos, nomeadamente de género, que vão sendo interiorizados muito antes, mas que na adolescência adquirem uma dimensão maior”, considera.
“É fundamental falar com os nossos filhos sobre os riscos que estão associados à partilha de dispositivos e de passwords. Esta conversa deve começar sempre com perguntas como ‘o que achas de partilha de passwords?’ e não com grandes palestras, porque eles não ouvem. É preciso normalizar o saber fazer perguntas aos nossos filhos”, acrescentam Tito de Morais e Cristiane Miranda.
Conselhos práticos e sinais de alerta
Há dois sinais de alerta a que os pais devem estar atentos e que a psicóloga Raquel Raimundo faz questão de destacar: o controlo e a dependência. “Um jovem que sente que há outra pessoa que lhe pode cortar a sua liberdade, controlar os seus gostos e os seus interesses passa a ter uma conduta diferente. Menos condizente com aquilo que poderia ser a sua personalidade e mais no sentido de agradar a outa pessoa. E isso deve alertar quem está à sua volta. Depois é a dependência do outro e um jovem demasiado dependente de uma relação, seja ela de amizade ou amorosa, também deve ser um sinal de alerta”, diz.
Tito de Morais e Cristiane Miranda deixam alguns conselhos para prevenir e para remediar:
- Irem pesquisar em conjunto informações sobre os perigos da partilha de passwords.
- Se sentirem a necessidade de manter o acesso à password do filho sem ferir a sua privacidade, pedir para escrever a password num envelope e comprometer-se a só abrir no dia em que sentir que é importante para a segurança jovem. Mas é preciso ter em conta que há o risco de quando for necessário, a password já ter mudado.
- Explicar-lhes que, se quiserem e sentirem necessidade de aceder às suas contas no telemóvel dos outros, devem ter o cuidado de fazer logout.
- Ajudá-los a perceber onde está o limite da privacidade deles e onde começa o controlo dos outros.
Quatro em cada dez jovens de 18 anos passa cinco ou mais horas por dia na internet, revela um inquérito divulgado na semana passada, segundo o qual 41% tinham menos de 10 anos quando começaram a navegar na internet.
Segundo o estudo "Comportamentos Aditivos aos 18 anos", promovido pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), a maioria (61%) usa, em média, a internet durante quatro ou mais horas por dia.
A percentagem dos jovens que utilizam a internet de forma "mais intensiva" (durante cinco horas ou mais) tem vindo a aumentar, passando de 29% em 2017, para 40% em 2023, refere o estudo baseado no "Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional 2023", realizado anualmente desde 2015, com uma interrupção em 2020, devido à pandemia de covid-19.
Também aumentou o número de jovens que iniciaram a utilização da internet antes dos 10 anos, passando de 31% em 2017, para 41% em 2023.