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Populistas, prostitutos e animais amestrados. O que eu gostava que Passos Coelho realmente explicasse

27 mai, 18:00
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A ideia mais importante do discurso de Passos Coelho esta semana tem sido a menos comentada. Percebe-se porquê. Depois de chamar prostitutos políticos aos dois últimos primeiros-ministros — sim, Passos não estava só a falar de Luís Montenegro, também estava a falar de António Costa —, não sobra muito espaço para debater o essencial. É aquilo a que se chama “estragar a mensagem”. Não havia necessidade, mas enfim. 

No essencial, todo o discurso de Passos Coelho passa pela ideia de que existe uma maldição no espaço europeu, Portugal incluído, que nos parece condenar a ter líderes que têm medo de desagradar ao seu eleitorado, evitando, assim, tomar decisões que, sendo importantes, possam ser consideradas impopulares. É a recuperação do slogan “que se lixem as eleições”, que lhe ficou colado à pele e do qual Passos Coelho, claramente, tem muito orgulho. 

Pois eu acho que Passos, nisto, tem razão. Descontando algum exagero na forma e até uma certa aura de predestinado, há cada vez mais evidências de que, em nome da sobrevivência política do PS e da AD, Portugal desperdiçou uma década. Que os últimos 10 anos de crescimento económico, de quase pleno emprego e de superávits orçamentais, não serviram para o país mudar absolutamente nada de estrutural. Nem na economia, nem no Estado e muito menos no sistema político. 

Então serviram para quê? Serviram para os dois maiores partidos “do mainstream” disputarem o poder e, uma vez conquistado, trabalharam para o manter durante o maior período de tempo possível. Os últimos 10 anos não serviram para reformar a saúde, a justiça ou a segurança social. Não serviram para melhorar a resposta dos serviços públicos ou para criar uma economia livre da subsídio-dependência da União Europeia. Nem tampouco para criar uma democracia mais representativa e capaz de atrair os melhores para a política. 

O que os últimos 10 anos serviram foi para outra coisa: para fazerem nascer e florescer um partido populista como o Chega. E, aqui, Passos Coelho volta a ter razão. O medo — eu diria mesmo o pânico — do populismo levou PS e PSD a criar cordões sanitários e a abdicarem muitas vezes das suas próprias convicções para procurarem responder ao que consideravam ser a vontade do eleitorado. A distribuir dinheiro pelas corporações do Estado e a atirar uns trocos para os contribuintes e pensionistas, como quem atira milho aos pombos numa tarde quente de verão. Não percebendo que, governando assim, não estavam apenas a transformar-se numa cópia barata e em segunda mão dos partidos populistas que prometem tudo a todos — estavam também a criar uma confusão ainda maior no eleitorado e, com isso, a perder o seu respeito. 

Eis onde me surgem várias dúvidas sobre a estratégia política de Passos Coelho à data de hoje. Como compatibiliza a ideia de que Governar implica muitas vezes desagradar ao eleitorado com a defesa de um entendimento com o Chega? Em que mundo é que Pedro Passos Coelho imagina que André Ventura algum dia vai querer desagradar ao eleitorado? Para lá de alguma identificação que existe em matéria de costumes e de imigração, como pensa o ex-primeiro-ministro ser possível contar com o Chega para reformar a Segurança Social e garantir a sua sustentabilidade no longo prazo, quando Ventura está a ir exatamente no sentido oposto? Admitindo que o PSD de Passos e o Chega de Ventura, um dia, andam de mãos dadas no poder, que tipo de reforma laboral que flexibilize as leis do trabalho pode ser levada a cabo, depois de Ventura se ter colocado ao lado da CGTP? Quando for preciso concentrar urgências e ouvir os protestos das populações e dos presidentes de Câmara todos os dias nas televisões, o que acha Passos Coelho que Ventura vai fazer? 

O ex-primeiro-ministro parece convicto de que consegue meter o Chega — e André Ventura — no bolso, sem grande dificuldade. Que, acabando com as linhas vermelhas, fazendo um acordo no Parlamento ou levando mesmo Ventura para o Governo, ele andará de trela tão curta que quase o leve ao ponto da asfixia. A ser verdade que pensa assim, talvez esteja a subestimar o instinto de sobrevivência de André Ventura. É que o seguidor amestrado que se colocou esta semana em duas patas para receber uma festinha do dono é, na verdade, um animal político muito astuto. E morderá a mão do dono, sem hesitações, à traição.

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