Março de 2016. Ainda mal refeito da forma como tinha sido afastado do Governo pela geringonça de António Costa, Passos Coelho apresentava ao PSD a sua estratégia para liderar a oposição. Depois de quatro anos duros à frente dos destinos do país, a gerir um programa de assistência financeira e um parceiro de coligação que lhe deram água pela barba, Passos ainda estava, claramente, em negação. Como era possível ter passado o cabo das tormentas, vencer eleições e ser ultrapassado pelas esquerdas daquela maneira?
Sentei-me em frente a Pedro Passos Coelho para uma entrevista na São Caetano à Lapa, que servia de antecipação ao congresso que haveria de acontecer dali a umas semanas. Passos estava longe de se sentir um líder derrotado. Podia não ser primeiro-ministro no papel, mas era esse o fato que continuava a vestir, independentemente do que dissessem ou do que o futuro lhe reservasse.
Convicto de que a receita da geringonça não teria sucesso, procurou desmontar a estratégia de António Costa, garantindo que nada do que estava a ser prometido ao país se iria concretizar. Não seria possível, dizia Passos Coelho, devolver salários, pensões, baixar impostos, colocar o país a crescer, muito menos manter o equilíbrio das contas públicas. Não. Essa era uma equação impossível.
— Mas e se correr bem? — perguntei.
— “Aí, com certeza, passaria a defender o voto no Partido Socialista e no Bloco de Esquerda e no Partido Comunista. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e por aí fora, e no fim as contas batessem todas certas, isso seria fantástico.”
A resposta, em tom irónico, ficou-lhe colada à pele e é, até hoje, usada pelos seus adversários à esquerda, de cada vez que querem caricaturar Passos Coelho como um político que está sempre à espera do Diabo. A verdade é que esta declaração do ex-primeiro-ministro envelheceu mal. A década que se seguiu trouxe não só contas públicas equilibradas, como vários anos de superavits. António Costa e Luís Montenegro — os dois primeiros-ministros que lhe sucederam — fizeram da distribuição de rendimentos a sua prioridade política. E a economia cresceu. Não o que seria preciso, mas mais do que, provavelmente, Passos Coelho algum dia previu.
Tenho dúvidas de que Passos Coelho olhe retrospectivamente para os últimos 10 anos penitenciando-se pelo seu pessimismo. Pelo contrário. Todas as intervenções públicas que tem feito apontam no sentido contrário. No pensamento de Passos Coelho, António Costa e Luís Montenegro limitaram-se a distribuir a riqueza para a qual ele trabalhou durante os anos da troika. E sim, para Passos, o Diabo ainda está ali, ao virar da esquina, à espera.
Há 10 anos, como agora, Pedro Passos Coelho acredita convictamente que o país precisa de reformas para sair do marasmo económico em que se encontra há décadas. Que o Estado precisa de repensar as suas funções, sair de onde não é necessário e concentrar-se naquilo em que é fundamental. Que é preciso preparar a Segurança Social para um inverno demográfico que promete ser longo. Mexer nas leis laborais para dinamizar o mercado de trabalho. E que é fundamental adequar o sistema político a uma nova realidade.
Nada disto se fará sem muito sangue, suor e lágrimas, e Passos Coelho, melhor do que ninguém, sabe-o. Mas dar más notícias ao país nunca foi propriamente uma dificuldade, sobretudo quando se acredita, como Passos parece acreditar, que o país, agora, mais do que nunca, anseia por estas reformas.
E é aqui que vale a pena cruzar Pedro Passos Coelho com André Ventura, seu admirador confesso, para percebermos se é mais o que os une ou o que os separa.
Há temas que os aproximam: a imigração, a segurança, a revisão constitucional e até a necessidade de uma reforma do sistema político, sobretudo se ela passar pela retirada de regalias aos titulares de cargos políticos.
Mas imaginemos um Governo que tivesse Passos Coelho como primeiro-ministro e André Ventura como vice-primeiro-ministro. Em cima da mesa, as propostas do Chega: aumentar todas as pensões para o valor do salário mínimo nacional, taxando, para isso, os lucros milionários da banca e acabar com as portagens. Sobre reforma laboral, depende. Ventura só é a favor se os trabalhadores não vierem para a rua protestar, porque, caso contrário, é contra. Sobre as carreiras na função pública, é para aumentar toda a gente. E a despesa pública, pergunta Passos? Vamos buscar o dinheiro ao combate à corrupção, responde Ventura.
O cenário é difícil de imaginar porque ele nunca se concretizará. Uma coligação do Chega de Ventura com um PSD de Passos Coelho terá de significar uma de duas coisas: ou a capitulação de Ventura em tudo o que andou a prometer nos últimos anos — o que esvaziaria o Chega —, ou uma instabilidade política permanente, que impediria qualquer esperança de reformista. E é aqui que entra a estratégia verbalizada por Passos Coelho na semana passada: apresentam-se as reformas e, se forem chumbadas, os eleitores que se pronunciem.
Este raciocínio, porém, pode incorrer num erro de avaliação por parte de Pedro Passos Coelho. O país pode até estar farto do marasmo em que está mergulhado há décadas, querer mudança e ansiar por um líder capaz de operar uma transformação que melhore a vida das pessoas. Mas isso não significa, necessariamente, que os eleitores estejam disponíveis para a dor que essas transformações vão provocar. Para que a sua vida piore antes de melhorar.
E, também nisso, o que separa Passos Coelho de André Ventura é muito maior do que aquilo que os une. É que, se Passos sente que tem uma missão, assente nas suas convicções, e está disponível para pagar o preço de as defender, a única missão de Ventura é chegar ao poder, da forma mais oportunística que conseguir. E, neste caso, as convicções só atrapalham.