O bilhete que prometia unir o país por 20 euros tornou-se, para muitos, um passe de frustração. Entre comboios "esgotados" em segundos e reservas impossíveis, as críticas ao Passe Ferroviário Verde multiplicam-se
O que começou como uma medida para promover a mobilidade sustentável e tornar o transporte ferroviário mais acessível, está, um ano depois, a gerar frustração entre os utilizadores. O Passe Ferroviário Verde permite viajar por todo o país por 20 euros mensais, mas muitos passageiros que o adquiriram denunciam que, na prática, o passe não garante lugar nos comboios, e que, frequentemente, são obrigados a pagar bilhetes à parte.
"Pago o passe para não poder usar"
João Ferreira é um dos muitos passageiros que, semanalmente, faz o trajeto Porto–Lisboa. Desde que comprou o Passe Ferroviário Verde, há cerca de um ano, diz que as dificuldades têm aumentado.
“Pago o Passe Ferroviário Verde para não poder usar. Nunca há lugares disponíveis, principalmente ao domingo. Este passe é uma treta, a procura aumentou dez vezes, mas o número de lugares continua igual”, desabafa em declarações à CNN Portugal.
Nos primeiros meses, João conta que o sistema funcionava bem. “Tudo corria sem complicações”, recorda. Mas, a partir de abril, “a dificuldade em reservar aumentou muito”.
“Se quisesse reservar o bilhete Porto–Lisboa das 17:45 no domingo, tinha de estar pronto exatamente 24 horas antes. E mesmo assim, em segundos, esgotava tudo. Não havia qualquer hipótese.”
Tentou várias vezes contactar a CP. “Esperei 30 minutos até ser atendido, mas assim que comecei a explicar o problema, desligaram a chamada. Aconteceu três vezes. Também já tentei contactar por mensagem, mas sem sucesso”, denuncia.
“Como os bilhetes estão constantemente esgotados, muitas vezes acabei por ter de gastar 25 euros em autocarros para conseguir regressar no domingo a Lisboa”.
"A CP está a limitar lugares para quem usa passe"
Fernando Tavares, que partilha uma experiência semelhante, acusa a CP de estar a restringir o acesso aos lugares reservados para titulares do passe.
“Esses chico-espertos estão a limitar os lugares para quem usa o passe. Ontem tentei reservar dois bilhetes para familiares e já não havia lugares. A CP recebe dinheiro do Estado pelos passes e ainda limita os lugares para quem os usa”, critica nas redes sociais da empresa.
Fernando acredita que há restrições deliberadas no sistema. “Durante três dias consecutivos tentei reservar bilhete para Valença - sempre no primeiro minuto das 24 horas anteriores - e dava tudo esgotado. É impossível que os lugares desapareçam tão rápido. Tenho quase a certeza de que a CP está a limitar os lugares disponíveis para o passe.”
"Duvido que nos três dias não houvesse lugares disponíveis no comboio logo no primeiro minuto. Para que serve pagar 20 euros de passe se depois não temos lugar?", continua.
"O sistema diz que está cheio, mas o comboio vai com lugares vazios"
Letícia Gamelas, que viaja frequentemente entre Lisboa Santa Apolónia e Coimbra, relata o mesmo problema, em declarações à CNN Portugal.
“É incrível como continua a ser tão difícil usar o passe verde nos Intercidades. Muita gente tenta reservar e o sistema diz que está cheio, mas depois o comboio vem com imensos lugares vazios".
Letícia sublinha que “quem paga um passe mensal devia poder viajar sem este stress todo”. “O objetivo do passe é facilitar a mobilidade e não a complicar. Enquanto uns ficam em terra, o comboio vai com lugares vazios e a CP continua a dizer que está lotado”.
A passageira diz compreender a intenção política por detrás da medida, mas critica a forma como está a ser executada.
“Aprecio a intenção de tornar o transporte ferroviário mais acessível, mas a experiência de utilizador revela falhas que, a meu ver, ferem a boa-fé do contrato de serviço público que as entidades responsáveis celebraram com o Estado”, defende.
Para Letícia, a principal incongruência está na forma como as reservas são geridas: “Muitas vezes aparece a indicação de ‘comboio sem lugares vagos’ e, no entanto, visualmente vê-se que há lugares livres, por exemplo, numa sexta-feira entre Lisboa e Aveiro. Ou os lugares estão a ser bloqueados antecipadamente, ou o sistema de reservas não está a funcionar como devia.”
Letícia aponta ainda outro problema: os atrasos frequentes. “Muitas vezes ultrapassam os 30 minutos, o que leva passageiros a perder ligações, a ficar retidos em estações menos seguras ou a ter de esperar muito mais tempo à noite. Isso contraria os requisitos mínimos de qualidade que um serviço público de transporte deveria garantir.”
"A CP arquivou a queixa que fiz e nunca me respondeu"
Soraia Teixeira, militar, vive situação semelhante e diz que o problema se repete com todos os que conhece que compraram o passe.
“Tinha acabado de carregar o passe para três meses (60 euros), visto que sou militar e que de 15 em 15 dias uso transportes públicos para me deslocar de Alenquer até ao Porto. No dia seguinte, quando tentei reservar um lugar, já estavam todos esgotados.”
Obrigada a deslocar-se para o serviço, Soraia não teve alternativa. “A única solução foi viajar em primeira classe. Quinze dias depois, aconteceu o mesmo. Fiz o Cartão Jovem para ainda conseguir algum desconto, mas voltei a pagar um bilhete em primeira classe.”
Reconhece que há épocas de maior procura, “mas o problema é recorrente”.
“A relação qualidade–conforto–rapidez não justifica os preços absurdos que são praticados. Para além disso, a CP arquivou a queixa que fiz e nunca me respondeu.”
Questionada pela CNN Portugal, a CP - Comboios de Portugal reconhece que “nos dias e horários de maior utilização dos serviços Intercidades, a elevada afluência pode condicionar os lugares disponíveis para os detentores do Passe Ferroviário Verde”.
A empresa admite que, “nos primeiros meses de comercialização, recebeu algumas reclamações relacionadas com a indisponibilidade de lugares em determinados percursos”, mas garante que “têm vindo a decrescer".
“O Passe vem ao encontro da missão da CP de promover a mobilidade verde e a coesão territorial, reforçando o compromisso da empresa com um transporte público de qualidade, económico e sustentável para todos”, sublinha a operadora, acrescentando que está “atenta às reclamações dos clientes e a monitorizar o uso do passe, sobretudo nos serviços Intercidades, para avaliar medidas que possam mitigar eventuais constrangimentos”.
A CP assegura ainda que, “sempre que há capacidade, dentro das limitações de material circulante e de recursos humanos existentes, e a procura o justifica”, procura reforçar a oferta, aumentando o número de carruagens disponíveis.
Queixas aumentam 500% em 2025
Os dados fornecidos pelo Portal da Queixa à CNN Portugal mostram uma tendência oposta à descrita pela CP. Desde a implementação do Passe Ferroviário Verde, em outubro de 2024, foram registadas 50 reclamações relacionadas com o título - sete em 2024 e 43 em 2025, o que representa um aumento superior a 500% no número de queixas.
Só entre outubro e novembro de 2025, as reclamações associadas ao passe representaram mais de 20% do total das queixas dirigidas à CP, os valores mensais mais elevados desde o lançamento da medida.
As principais queixas dizem respeito a questões financeiras e de benefícios (34%), como falhas na aplicação das condições contratuais e dificuldades no reembolso ou carregamento do passe; deficiências na qualidade do serviço (28%); e problemas de pontualidade (22%).
A insatisfação é transversal a várias regiões do país: Lisboa (20%), Évora (14%), Santarém e Porto (12% cada) e Aveiro e Setúbal (8%) concentram a maioria das reclamações. A faixa etária 25-34 anos é a mais representada (32%), seguindo-se a dos 45-54 anos (22%).
Os dados do portal indicam ainda que as queixas atingiram o pico em outubro e novembro de 2025, coincidindo com o aumento da procura registado pela própria CP, o que sugere que a pressão sobre o sistema de reservas pode estar na origem de muitos dos problemas relatados pelos utilizadores.
A CNN Portugal questionou a CP e a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) sobre o número concreto de queixas e de passageiros que ficam sem transporte, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo. Já o Ministério das Infraestruturas remeteu todos os esclarecimentos para a CP.
Mais de 13 milhões de euros de receita no primeiro ano
O Passe Ferroviário Verde entrou em vigor a 21 de outubro de 2024 e tem o valor de 20 euros por 30 dias consecutivos de utilização, podendo também ser adquirido para 60 ou 90 dias, por 40 e 60 euros, respetivamente. É carregado no Cartão CP, que custa seis euros (três euros para estudantes).
O título é válido nos comboios regionais e urbanos de Coimbra e na segunda classe dos InterRegionais e Intercidades. Nos serviços urbanos, abrange, na Área Metropolitana de Lisboa, o percurso entre Carregado e Azambuja, e, na Área Metropolitana do Porto, as ligações entre Vila das Aves e Guimarães, Paredes e Marco de Canaveses, Paramos e Aveiro e ainda Lousado e Braga.
Estão excluídos o Alfa Pendular, o Internacional Celta e a primeira classe dos Intercidades e InterRegionais.
No caso dos Intercidades, a utilização está condicionada à reserva de lugar obrigatória nas 24 horas anteriores à viagem, que pode ser feita na bilheteira online, na aplicação da CP, nas bilheteiras físicas ou nas novas máquinas automáticas instaladas em estações da Área Metropolitana de Lisboa.
De acordo com dados oficiais, o Passe Ferroviário Verde representou mais de 13 milhões de euros de receita para a CP no primeiro ano em vigor, com cerca de 650 mil títulos vendidos e 120 mil novos clientes.
O Ministério das Infraestruturas considerou que estes números comprovam o “êxito do título de transporte”, destacando que 64% dos utilizadores são novos clientes, o que “prova o sucesso da medida e o contributo para as metas de descarbonização”.
A CP garante que, só em setembro, foram comercializadas mais de 67 mil assinaturas, um valor mensal recorde, e que, ao longo do ano, foram efetuadas quase 2,2 milhões de reservas nos comboios Intercidades.