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Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Páscoa: ovos e cobardia

9 abr 2025, 12:00

Porto, 2/4/2025. Foi num fim de uma aula prática de religião, daqueles dias em que os olhos dos alunos já pedem férias, que um deles me atirou a pergunta: "Professor, o que é que os ovos de chocolate têm a ver com a Páscoa?" Fiquei sem resposta. Ri-me, hesitei. Eu não fazia a mínima ideia. Lembrei-me dos meus anos de seminário onde aprendi muitas coisas, mas nunca me explicaram o significado dos ovos da Páscoa. Fui investigar.

Descobri que, para os cristãos, o ovo da Páscoa é muito mais do que uma guloseima. O ovo é um símbolo. Representa o túmulo de Cristo, arredondado, fechado, aparentemente inerte. E ao mesmo tempo, representa a vida que brota, escondida e silenciosa, como um coração que volta a bater. O ovo tem dentro dele a promessa de algo novo. Tal como o sepulcro vazio, que em vez de representar a morte, fala-nos da primavera.

A ressurreição de Jesus continua, ainda hoje, a causar estranheza. A modernidade assenta no que se pode medir, provar, replicar. Porém, com base em estudos históricos robustos e no cruzamento de fontes antigas, emerge a ocorrência de algo que escapa às explicações fáceis. Autores como Craig Evans, Michael Licona, N.T. Wright ou Richard Bauckham têm reforçado que há credibilidade histórica no testemunho da ressurreição. 

O túmulo estava vazio. Os lençois, ainda dobrados. Era humanamente inexplicável a ausência do corpo de Jesus. Era fisicamente impossível que alguém o tivesse roubado, já que para tirá-lo da mortalha, teria sido necessário desenrolar os lençois e o sudário, que teriam ficado por ali soltos. Mas eles tinham diante dos seus olhos os lençois e o sudário, tal como estavam quando tinham deixado ali o corpo do Mestre na tarde de sexta-feira. A única diferença é que o corpo de Jesus já não estava lá. O resto permanecia no seu lugar. E dezenas de pessoas afirmaram que o viram, tocaram e o ouviram. 

Se Cristo não ressuscitou, é apenas mais um moralista. Porém, se a ressurreição aconteceu, então tudo muda. Para aprofundar o sentido da Páscoa deixo as seguintes sugestões: 

1. Faça silêncio e reze. Arranje tempo para falar com um Deus que o quer escutar. Mas como é impossível ter uma conversa próxima e profunda num local ruidoso, precisamos de silêncio para viver este diálogo com Deus nestes dias. Para rezar a Via Sacra, para assistir às cerimónias especialmente à Vigília Pascal. A ressurreição não se escuta no ruído: ouve-se no fundo do coração. Apague os ecrãs por uns minutos. Pergunte a Jesus: “O que esperas de mim nesta Páscoa?”

2. Recomece hoje. A Páscoa é a festa das segundas oportunidades. Está tudo a correr mal? Comece outra vez. Caiu? Levante-se. A cruz parecia o fim e foi apenas o reset de uma vida nova de Deus. Nada está perdido enquanto houver vida. Essa vida de Jesus tocamo-la quando nos confessamos.Cristo saiu do túmulo sem ressentimentos. Talvez esteja na altura de pedir perdão e perdoar, de deixar também as suas pedras para trás. Perdoe alguém e liberte-se do peso do passado com o perdão de Deus. 

3. Faça o bem discretamente. A ressurreição começou na escuridão de um túmulo, sem testemunhas. O bem verdadeiro também é assim: silencioso, gratuito, inesperado. Nestes dias, provavelmente mais dedicados à família, surpreenda alguém com um gesto de bondade numa refeição, em algo que era preciso fazer em casa, naquele telefonema que conforta quem está mais em baixo. 

4. Dê sentido às tradições. Coma ovos de Páscoa, partilhe amêndoas, mas lembre-se: há vida escondida dentro de tudo isso. Ensine os mais novos que a Páscoa não é apenas mais um domingo. É o porquê de todos os Domingos. Se puder, receba o compasso ou a cruz em sua casa, deseje uma “Santa Páscoa” quando se cruzar com um vizinho no elevador ou com a senhora que habitualmente o atende na mercearia. 

5. Com a Páscoa a sua vida ganha um sentido. A Páscoa dá-nos a conhecer um Deus que é próximo. E se Cristo vive, então o nosso baptismo também é sério. O silêncio da Vigília Pascal é interrompido pelo cântico alegre do "Aleluia". Com flores, com luzes, com baptismos de adultos (como os mais de 7.000 em França, um aumento de 30% em relação ao ano passado). É o sinal de que não pertencemos à morte, mas à vida. Deus foi à frente, a vida ganha um sentido.

Faço uma segunda reflexão sobre a Páscoa. Quando leio o Evangelho correspondente aos primeiros dias depois da Páscoa, não posso deixar de pensar nos Apóstolos "como um bando de cobardes". Estavam escondidos, assustados, atemorizados.... E o mais chamativo é que Jesus Cristo, sendo capaz de o fazer, não fez ali uma Reforma da Igreja que era bem necessária. Qualquer treinador de uma equipa da terceira liga tê-los-ia mandado para o banco, por serem inúteis.

Com excepção das Santas Mulheres, que dão aos discípulos uma notável lição de fortaleza.. As histórias destes dias da Páscoa são as histórias das cobardias dos apóstolos. E isto é muito animador. Não é evidente que o nosso comportamento fosse diferente do deles. Talvez tivéssemos corado como Pedro para fugir daquela acusação, ou teríamos sido outros filhos do trovão, julgando os outros, ou talvez mais silenciosos, menos acessíveis, como Nicodemos, mas com a coragem de nos defendermos quando todos estão escondidos na noite.

As narrações evangélicas da Páscoa são algo paradoxais: porque é necessário recordar estas misérias da nossa vida em dias gloriosos? Os textos poderiam ter-se centrado na parte histórica mais relevante, com mais êxito nos posts de Instagram: aparições, milagres, caminhar sobre a água... Mas não o fazem. As histórias destes dias de alegria lembram-nos que só Deus pode julgar os corações, as histórias, a vida cristã de cada um. Trazem para primeiro plano a realidade de que, apesar de acreditarmos que estamos na “equipa dos bons”, também negamos Deus, por vezes até pretendendo utilizar "o fogo que desça do céu" para eliminar "aqueles que não são tão bons como nós".

Como nos recorda o Papa Francisco, a Páscoa fala-nos da insondável dimensão do amor de Deus manifestado no perdão e na compreensão. A lógica de Deus é diferente. Cristo morre pelos nossos pecados, e isto surpreende-nos; mas é ainda mais espantoso que, mesmo depois de nos darmos conta das nossas limitações e cobardias, Ele ainda confie em nós.

***

Naquela aula, não consegui dar a resposta que queria. Mais tarde falei com aquele aluno. Expliquei-lhe que o ovo tem tudo a ver com a Páscoa. Aparentemente parece uma pedra amorfa. Mas é um túmulo com vida lá dentro. Só onde Deus está, começa verdadeiramente a vida. Lembre-se do túmulo de Jesus quando abrir o ovo de chocolate. Lembre-se que nós também temos uma vida por descobrir, e um caminho a percorrer apesar das nossas debilidades e cobardias.

Uma Santa Páscoa!

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