Entrei num supermercado e li: “Páscoa, vale mesmo a pena”. O cartaz enorme chamava a atenção. Havia todo o tipo de amêndoas, ovos de chocolate de todos os tamanhos e cores, caixas de bombons decoradas com laços brilhantes. As crianças puxavam as mães pelos braços, apontando para os ovos maiores. Tudo era um convite para celebrar a Páscoa.
Estamos nas férias da Páscoa. A escola pára, o bom tempo convida a um salto até à praia, fazem-se planos, muda-se a rotina, viaja-se. Mas, ao mesmo tempo, podemos não compreender bem esta pausa. Não sabemos bem o que celebramos. Então, porque é que a Páscoa vale mesmo a pena? Pensei em 4 ideias chave que enquadram esta festa.
1) O que acontece depois da morte?
A Páscoa celebra a ressurreição de Jesus: a passagem da morte à vida de um homem que viveu há cerca de dois mil anos na Galileia. No tempo de Jesus havia muitas ideias sobre o que acontece a uma pessoa quando morre. Uns diziam que era o fim de tudo; outros falavam de um mundo sombrio onde os mortos permaneciam; alguns acreditavam que as almas dos justos estavam com Deus; outros ainda defendiam que, no fim dos tempos, os justos ressuscitariam.
No entanto, os Evangelhos não seguem nenhuma dessas explicações. Não dizem que Jesus “foi para um lugar dos mortos”. Não dizem que “a sua alma escapou do corpo”. Não dizem que “um dia, no futuro, ressuscitará”. Dizem-nos algo muito mais simples. E muito mais surpreendente: este Jesus, que eles conheceram, tocaram, ouviram e viram, este amigo que foi brutalmente executado pelos romanos, que morreu e foi sepultado… está vivo outra vez, pelo poder de Deus. Essa é a mensagem central da ressurreição de Jesus, que nos aponta o caminho, o modelo para compreender o que Deus quer de nós: reconhecermos que a nossa vida tem um sentido e que há vida depois da morte.
2) Quem é Jesus?
Nos últimos dois séculos, houve tentativas de relegar a vida de Jesus e a sua ressurreição para o domínio da mitologia (1). E, de facto, os mitos desempenham um papel muito importante no desenvolvimento das civilizações. Contam-nos verdades profundas sobre o mundo e sobre nós próprios.
C. S. Lewis, autor das Crónicas de Nárnia e especialista em literatura mitológica, explicava que os mitos transmitem verdades gerais, mas num tempo indefinido: começam com “era uma vez” ou “numa galáxia muito distante” (2). Falam de ideias, não de acontecimentos concretos. Os Evangelhos são diferentes. Não falam de discursos vagos ou abstractos. As histórias da ressurreição situam-se em lugares concretos (a Judeia, Jerusalém) que podemos encontrar no Google Maps. Há pessoas reais envolvidas: Pedro, João, Tiago, Tomé. Aconteceu quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, um governador romano real, do qual existem registos históricos, inclusivamente moedas com a sua imagem que podemos ser vistos no British Museum em Londres.
Os mitos são maravilhosos, têm grande poder literário, mas não conheço ninguém que tenha entregue a sua vida por personagens mitológicas como Thor, Apolo, Hércules ou Zeus. Já os apóstolos e as primeiras testemunhas da ressurreição morreram pela fé naquilo que viam como verdade. Para eles a fé não era uma teoria. As pessoas não morrem por histórias inventadas. Morrem por aquilo que acreditam ser real, tangível. E isto vemos claramente no cristianismo e na ressurreição de Jesus.
3) Será que a violência é o caminho para a paz?
Em quase todas as grandes narrativas das civilizações e até em séries modernas como Game of Thrones encontramos a ideia de que a ordem nasce da violência. É através de grandes actos de violência que a ordem se estabelece, e, quando a ordem se perde, é restaurada por mais violência. Se alguém me ataca com uma faca, eu respondo com uma arma; se me atacam com um exército, eu reúno um maior. Esta lógica está profundamente enraizada na nossa cultura.
No tempo de Jesus, o Império Romano mantinha a ordem no território, através do poder do seu exército e da ameaça de punições severas. O maior símbolo disso é a cruz: muitos defendem que foi a forma de execução mais brutal alguma vez criada. A pessoa era pregada ou amarrada e deixada lentamente a sufocar e a sangrar até morrer. Não há símbolo melhor da ideia de “ordem através da violência” do que a cruz romana.
É assim que Jesus morre, e é assim que o recordamos na Sexta-feira Santa. Mas quando ressuscita e aparece aos discípulos, àqueles que com Ele haviam convivido, que tinham sido os seus amigos, ainda que o tivessem traído, negado e abandonado nos últimos momentos da Sua vida, eles manifestam medo. E talvez não apenas pelo espanto, mas porque isto parece seguir a velha lógica: alguém injustamente morto regressa para se vingar. Jesus, quando ressuscita não apareceu a Pôncio Pilatos para se vingar nem às autoridade judaicas. Jesus apareceu aos apóstolos, mostrou as suas feridas e disse: “A paz esteja convosco”. A ordem divina não nasce da violência, mas do amor que absorve o ódio, do perdão que vence a agressão. É a misericórdia que restabelece a ordem.
É por isso que a ressurreição está na base de movimentos de não-violência, como os de Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi, S. João Paulo II e Desmond Tutu. Todos partem da ideia de que a ordem vem do amor, não da violência.
4) Deus diz sim ao corpo
Na Bíblia, no livro do Génesis, Deus criou tudo, o céu, a terra, os animais e, contemplando a criação viu que tudo era bom. Não há oposição entre espírito e matéria. Tudo é bom, e o conjunto é “muito bom”. Mas o pecado compromete essa criação. Deus responde com várias tentativas de resgate: Noé, a Lei, os profetas, Israel.
Na ressurreição, vemos que Deus diz “sim” não só ao espírito, mas também ao corpo. A ressurreição corporal de Jesus mostra que Deus não abandona a criação. Ele confirma-a, eleva-a, ressuscita-a.
A Páscoa é, acima de tudo, esperança. Podemos dizer “não” a Deus, e muitas vezes o fazemos. Porém, Deus continua a dizer “sim”.
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Este ano a Páscoa pode ser diferente. Talvez possas ir à Missa, ou confessar-te. Podemos voltar a ler o relato dos evengelhos que narram esse acontecimento revolucionário, seguir o que nos dirá o Papa Leão XIV nas cerimónias da Semana Santa em Roma. E, quando estivermos diante de ovos de chocolate ou amêndoas, perceberemos melhor o que estamos a celebrar. O amor de Deus é mais forte do que a morte, porque Jesus encontrou o caminho para sair do túmulo.
A Páscoa vale mesmo a pena. Feliz Páscoa da Ressurreição!
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- Entre os autores que interpretaram a vida de Jesus em chave mitológica ou simbólica destacam-se David Friedrich Strauss, Rudolf Bultmann, John Dominic Crossan, Marcus Borg, entre outros.
- Em “Myth Became Fact”, C.S.Lewis explica que os mitos comunicam verdades profundas e universais, não estão presos a um tempo histórico específico. E nas suas cartas compiladas (“The Collected Letters of C. S. Lewis”), descreve o mito como algo que atua na imaginação, que não depende de localização temporal e por isso começam com a formulação: “once upon a time”, “era uma vez”.