PJ deteve Duarte Moral e mais quatro pessoas num processo que tem mais de 30 arguidos e que revelou uma alegada teia de interesses do PS. Em causa estão suspeitas de favorecimento. Antigo assessor de António Costa movimentava-se na área da consultoria a autarcas socialistas
Poucos meses antes de Duarte Moral ser detido, a empresa do assessor de imprensa do PS foi contratada para prestar serviços de consultoria política à presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, a socialista Carla Almeida. Este é o principal ramo de negócio que o homem que está no centro do furacão da operação que investiga favorecimentos autárquicos ligados ao PS se tem dedicado no último ano, mas não só.
Recentemente, segundo o portal base, que compila todos os contratos feitos pelo Estado, o antigo assessor de António Costa trabalhou também para a Câmara Municipal de Oeiras e para o INEM, onde intermediou serviços da Google. Todos estes contratos, que não são abrangidos na investigação da PJ, foram feitos no último ano e somaram um valor de 172 mil euros.
Estes últimos negócios foram feitos através da empresa Diálogo Emergente, que Duarte Moral fundou em 2021 juntamente com Rui Pedro Nascimento, um militante socialista que também desempenhou funções no grupo parlamentar do PS. A empresa tem em comum o nome dado pela Polícia Judiciária à operação “Imergente”, que culminou em 92 buscas nas zonas de Mafra, Oeiras, Coimbra e Lisboa, incluindo na sede do PS, no Largo do Rato.
Em Lisboa, a empresa que tem Duarte Moral como sócio conseguiu dois contratos por Consulta Prévia com a freguesia da Misericórdia, governada pela socialista Carla Almeida para consultoria de comunicação e imagem. O primeiro contrato foi atribuído em fevereiro de 2025 após terem sido consultadas três empresas: a de Duarte Moral, uma empresa controlada pela sua mulher, Rute Reimão - também ela detida na sequência desta operação -, e uma terceira empresa chamada Cecubometrics, criada por Emílio Vasquez Blanco, secretário da organização do PSOE na cidade espanhola da Coruña.
Ao todo, cinco pessoas foram detidas, uma delas inclusive por posse ilegal de arma, mas um dos suspeitos foi libertado, já que o Ministério Público entendeu que não havia razões para interrogatório.
Já o mais recente contrato, no valor de 72 mil euros, foi atribuído à empresa de Duarte Moral em fevereiro deste ano e ainda se mantém em vigor. Questionada pela CNN Portugal, a Junta de Freguesia da Misericórdia, onde fica grande parte da baixa lisboeta, não esclareceu se irá suspender o contrato em questão.
Além destes dois contratos, a empresa Diálogo Emergente recebeu ainda em julho de 2025 19.990 euros para prestar serviços de assessoria politica à vereação socialista da Câmara Municipal de Oeiras. O contrato demorou cinco meses e acabou em outubro do ano passado.
Fora do espectro da consultoria política, a empresa detida por Duarte Moral conseguiu há poucos meses vencer um contrato público no valor de 58.650 euros para prestar serviços de georreferenciação para o INEM durante os próximos três anos, com o objetivo de facilitar a localização de eventos nos Centros de Orientação de Doentes Urgentes e também de monitorizar os quilómetros percorridos em cada serviço realizado pelos meios não pertencentes ao instituto.
À CNN Portugal, fonte oficial do INEM refere que o critério de adjudicação definido no procedimento foi “o do mais baixo preço”, “tendo a empresa Diálogo Emergente, Lda. apresentado a proposta economicamente mais vantajosa nesse âmbito, razão pela qual lhe foi adjudicado o contrato”. “No âmbito dos procedimentos de contratação pública, o INEM verifica o cumprimento dos requisitos legais aplicáveis às entidades concorrentes, nos termos previstos no Código dos Contratos Públicos”, refere a mesma fonte.
Empresa da mulher faturou 96 mil euros em Santa Maria Maior
Para além de Duarte Moral, também a sua mulher Rute Reimão foi detida esta quinta-feira na sequência da operação da Polícia Judiciária. Reimão, que trabalhava na Junta de Freguesia de Santa Maria Maior desde 2014 como assessora cultural, assinou com aquela mesma freguesia, entre 2020 e 2023, cinco contratos através de uma empresa sua chamada Cidade Etérea.
Os contratos, que têm um valor de cerca de 96 mil euros, tiveram o objetivo de desenvolver projetos artísticos, culturais e sociais, e foram atribuídos por ajuste direto e consulta prévia pelo ex-presidente da junta Miguel Coelho, um dos homens que está também no centro da investigação.
Miguel Coelho, de resto, pediu já a suspensão do mandato de deputado municipal de Lisboa, alegando que se defenderá “com a consciência tranquila”. Para além dos contratos assinados com Rute Reimão, o ex-autarca estará a ser investigado pela contratação de uma rede de nove elementos ex-candidatos do PS àquela a Mafra.
Além disso, juntamente com o diretor de compras da junta de Santa Maria Maior, terá contratado os serviços de 19 empresas da zona de Mafra ligadas a militantes socialistas por valores que chegaram aos 800 mil euros. O próprio Duarte Moral teve também ligações empresariais ao PS de Mafra nas autárquicas de 2021, através da venda de panfletos publicitários e de consultadoria de comunicação.
Segundo o Ministério Público, a investigação concentra-se em adjudicações por autarquias, cujo valor global ascende a quase dois milhões de euros, tal como a “emissão de faturas para recebimento indevido, por dois suspeitos, de quantias de partido político”.
Já José Luís Carneiro garantiu também esta quinta-feira que “as autoridades judiciais" lhe comunicaram "que o PS não era visado nesta investigação”. "As autoridades judiciárias devem desenvolver o seu trabalho, como sempre disse, aliás, no momento que consideram oportuno. O nosso dever e o meu dever, quero garanti-lo - fá-lo-ei sempre - é cooperar com as autoridades para garantir a legalidade e o cumprimento no exercício dessa legalidade dos princípios fundamentais do Estado de Direito”, reiterou.
