O documentário "Palácio de Cidadãos" acompanhou os trabalhos da legislatura 2018-2019. Chega agora aos cinemas e apesar de tanta coisa ter mudado, o que chama a atenção são os problemas que se mantêm ou se agravaram nestes anos. Um filme que nos leva a espreitar nos gabinetes para perceber o que fazem os deputados da nação
Naquele ano, os estudantes encheram a praça em frente das escadarias da Assembleia da República com a sua greve climática e pediram "menos conversa, mais ação". Helena Roseta lutou e desesperou com os avanços e recuos para aprovar a lei de bases da habitação. Pedro Nuno Santos, na altura secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, deu ordens para se negociar e fazer o que tinha de ser feito. Na porta ao lado, José Soeiro, do Bloco de Esquerda, e Rita Rato, do PCP, foram alguns dos deputados que discutiram a revisão do Código Laboral. Os trabalhadores das pedreiras chegaram entusiasmados, mas saíram desalentados das galerias por não verem as reivindicações atendidas. Os médicos vieram de batas vestidas e revelaram aos deputados o seu cansaço. Andreia Cardoso, moradora da Quinta da Lage, na Amadora, emocionou-se ao expor a situação do seu bairro. Jorge Falcato, do Bloco de Esquerda, subiu ao púlpito na sessão solene para dizer que "celebrar Abril não pode ser uma cerimónia anual", mas "um compromisso permanente e muito há para fazer".
Naquele ano, entre setembro de 2018 e julho de 2019, o último ano de governação da "geringonça", as câmaras de Rui Pires andaram pelo parlamento e filmaram sessões plenárias e comissões, intermináveis reuniões de trabalho e discussões acaloradas, negociações e votações, almoços protocolares e trabalhos de limpezas. O realizador perdeu a conta às horas de filmagem. Quase seis anos depois, o documentário "Palácio de Cidadãos" - que foi apresentado no último DocLisboa, onde ganhou o prémio da competição nacional - está finalmente nos cinemas.
"Palácio dos Cidadãos" demorou mais de dez anos a ser feito. Os primeiros contactos começaram ainda no Governo de Passos de Coelho. Os pedidos de autorização aos vários grupos parlamentares foram endereçados já durante o Governo de António Costa. Não foi fácil, apesar de todo o apoio que tinham de Ferro Rodrigues e que defendeu sempre que "a Assembleia tem que ser um local aberto e transparente". "Mas, para nós, só fazia sentido se todos os partidos aceitassem", explica o realizador.
"Antes de tudo, já acompanhava o Canal Parlamento, via as sessões plenárias, o trabalho das comissões, e achava aquilo fascinante", recorda Rui Pires. Depois, enquanto esperava pelas autorizações todas, começou a ir mesmo ao parlamento. "A forma como os políticos falam, como as decisões são tomadas, as negociações, é tudo impressionante. É de facto no parlamento que as leis são feitas e que as decisões são tomadas. Os deputados são pessoas como nós, são cidadãos que se dispuseram a representar-nos."
Por um lado, temos os cidadãos comuns - os que apresentam petições, os que ali vão pedir ajuda, os que assistem nas galerias, os que vão só de visita. "As pessoas querem participar. E ali é o lugar onde podem participar", diz Rui Pires. "É preciso desmistificar a ideia de que as pessoas não estão interessadas na política."
Logo na primeira cena, as portas abrem-se. "Gosto muito de vos ver na vossa casa, esta é a casa da democracia", diz Eduardo Ferro Rodrigues, então presidente da Assembleia da República, dando as boas-vindas às pessoas que esperam para entrar no Parlamento. Vêm famílias inteiras, grupos de jovens, pessoas que se lembram do "outro tempo", turistas estrangeiros, bebés de colo. Percorrem os corredores e os jardins, espantam-se com os gatos e os pavões, querem saber quem se senta onde no hemiciclo, visitam as exposições, detêm-se no volume da Constituição de 1976, resguardada por uma caixa de vidro, aquela onde estão fundamentos da nossa democracia.
Por outro lado, temos os cidadãos deputados - e o seu trabalho, tantas vezes invisível e desconhecido, para resolver os problemas do país. "Não estamos aqui retratados, porque a Iniciativa Liberal ainda não estava no parlamento, mas reparei que os problemas são idênticos. As discussões sobre habitação e saúde continuam a ser muito atuais", comentou, no final da antestreia, Angelique da Teresa, vice-presidente da Iniciativa Liberal. "Os problemas não só persistem como se agravaram", concordou Paula Santos, líder parlamentar do PCP. Carlos Reis, deputado do PSD, preferiu sublinhar as diferenças, referindo que, desde então, entrou no parlamento um grupo de deputados com "uma forte pulsão antiparlamentar e antidemocrática". Rui Tavares, líder do Livre, ainda não era deputado em 2019, mas confessou que o filme o fez sentir "uma nostalgia pelo tempo da geringonça, via-se um esforço árduo de negociação".
"É o sítio onde as pessoas têm mais informação sobre a sociedade portuguesa, e têm de facto a capacidade de mudar alguma coisa. Então porque é que as coisas demoram a acontecer? Porque é que não se consegue atender os problemas?", questiona o realizador. Há "barreiras e bloqueios, leis que existem, mas não se efetivam, negociações que se prolongam e não dão em nada". Mas também há leis que se concretizam, votações que são aplaudidas, decisões que alteram, de facto, o rumo dos acontecimentos. Ali vivem-se "conflitos e dramas" e são eles "a matéria bruta deste filme". "Isto é a democracia em ação, foi incrível ver a política acontecer, ser testemunha disso", recorda Rui Pires.
A política é feita de vitórias e derrotas, como lembrou Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, na sessão de quarta-feira à noite, no Cinema Ideal, em Lisboa. Naquele ano, morreu João Semedo, antigo coordenador do BE, que tanto defendeu a lei da morte da assistida - a lei que esta semana voltou a ser chumbada pelo Tribunal Constitucional, referiu a bloquista. Em 2025 os moradores da Quinta da Lage continuam a lutar pelos seus direitos. "Mas é preciso dizer que o Manuel e os outros trabalhadores das pedreiras puderem ter direito à reforma sem penalização do fator de sustentabilidade", sublinhou. Catarina Martins prefere focar-se nas vitórias, sobretudo naquelas que podem de facto mudar a vida das pessoas. "Se vos disserem que a democracia é um grupo de pessoas a conversar num gabinete não acreditem. É sempre possível mudar o jogo e fazer a diferença."
Porque hoje é 25 de Abril:
- Às 11:00, no Cinema Ideal, em Lisboa, o filme "Palácio de Cidadãos" conta com apresentação do Capitão de Abril e Porta-voz do Conselho da Revolução, Rodrigo Sousa e Castro
- O filme mostra como foi em 2019 - há de ser parecido neste 25 de Abril: entre as 14:0 e as 18:00 (última entrada), a iniciativa "Parlamento de Portas Abertas" recebe todos os que quiserem ver por dentro o sítio onde se tomam algumas das decisões mais importantes do país.