Onda de choque após operação policial anticorrupção no Parlamento Europeu

Agência Lusa , AM
10 dez 2022, 15:34
Parlamento Europeu (Julien Warnand, EPA)

Cinco pessoas foram presas em Bruxelas na sexta-feira, no seguimento de pelo menos 16 rusgas, numa investigação sobre suspeitas de pagamentos “substanciais” de um país do Golfo para influenciar as decisões dos deputados europeus

Uma operação policial belga anticorrupção no Parlamento Europeu, ligada ao Qatar, provocou fortes reações em Bruxelas, com representantes eleitos e organizações não-governamentais a apelar a um debate urgente sobre a melhoria das regras éticas na instituição.

“Este não é um incidente isolado”, disse a Transparência Internacional. “Durante várias décadas, o Parlamento permitiu o desenvolvimento de uma cultura de impunidade (…) e de uma total ausência de controlo ético independente”.

Este controlo na instituição é “defeituoso”, escreveu no Twitter Alberto Alemanno, professor de direito no Colégio da Europa em Bruges.

Cinco pessoas foram presas em Bruxelas na sexta-feira, no seguimento de pelo menos 16 rusgas, numa investigação sobre suspeitas de pagamentos “substanciais” de um país do Golfo para influenciar as decisões dos deputados europeus.

O Ministério Público federal não nomeou o país, mas uma fonte judicial próxima do caso confirmou à agência AFP que se tratava do Qatar, como revelaram os meios de comunicação social Le Soir e Knack.

O caso surgiu a meio do Campeonato do Mundo em 2002, quando o país anfitrião teve de fazer esforços para defender a sua reputação de respeitar os direitos humanos, especialmente os dos trabalhadores.

O caso assumiu uma dimensão extra quando a identidade da quinta pessoa presa na sexta-feira à noite foi confirmada, tratando-se da eurodeputada grega Eva Kaili, uma antiga apresentadora de televisão de 44 anos de idade que se tornou uma figura da social-democracia no seu país. É ainda vice-presidente do Parlamento Europeu, juntamente com outros 13 deputados europeus.

Este sábado, as audiências de cinco suspeitos prosseguiam em Bruxelas, segundo um porta-voz do Ministério Público federal.

Partido Socialista Europeu “completamente surpreendido” com detenções

O Partido Socialista Europeu ficou “completamente surpreendido” com as detenções de sexta-feira, que envolveram a vice-presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, falando num “balde de água fria” e num “choque” para o movimento sindical europeu.

Fonte do Partido Socialista Europeu (PES) disse à agência Lusa que declarações recentes de Eva Kaili - que, numa sessão plenária em novembro, tinha caracterizado o Qatar como um “pioneiro dos direitos laborais” - provocaram estranheza, mas nunca “passaria pela cabeça de ninguém que isso pudesse ter, pelo menos supostamente, outras origens”.

Falando num “balde de água fria” para o PES, a fonte em questão também considera que a detenção do secretário-geral da Confederação Internacional de Sindicatos (ITUC, na sigla em inglês), Luca Visentini, constitui um “choque” para o movimento sindical europeu.

“É preocupante, até porque há muitas vezes a tentação de colar a ITUC excessivamente aos socialistas, e agora aparecerem no mesmo caso os socialistas e a ITUC... É mau para o movimento sindical europeu”, considera.

A fonte refere que, de acordo com informações iniciais, deverá ter sido o ex-eurodeputado socialista Pier Antonio Panzeri - também detido na sexta-feira - que originou a investigação por detrás das detenções.

O PES espera agora que não haja mais detenções, uma vez que o Parlamento Europeu é “extremamente exigente” em matéria de transparência quanto a relações com lóbis, de forma a evitar conflitos de interesses.

Sobre o eventual envolvimento de eurodeputados socialistas portugueses, a fonte em questão garante “ninguém tem qualquer ligação ao Qatar” e, portanto, não deverá surgir “absolutamente nada” nesta investigação que envolva a delegação portuguesa.

Apesar disso, o PES considera este caso terá “custos” na imagem do Parlamento Europeu, mas considera que o tamanho dos danos irá depender da evolução da investigação.

Para já, realça que, tanto o Parlamento Europeu como o PES, foram “muito claros em negar qualquer envolvimento” no caso e em “manifestar a sua disponibilidade para cooperar” com as autoridades policiais.

Entretanto, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que a instituição europeia que lidera irá fazer “tudo o que puder” para ajudar a investigação.

“O nosso Parlamento Europeu é firmemente contra a corrupção. Nesta fase, não podemos tecer comentários sobre qualquer investigação em curso, a não ser para confirmar que cooperámos e continuaremos a cooperar plenamente com todas as autoridades judiciais e policiais relevantes”, escreveu Metsola numa mensagem publicada na sua conta oficial na rede social Twitter.

A vice-presidente do Parlamento Europeu (PE), a social-democrata grega Eva Kaili, está entre os cinco detidos na Bélgica no âmbito de uma investigação sobre alegado lóbi ilegal do Qatar para influenciar decisões políticas em Estrasburgo, segundo a imprensa belga.

Eva Kaili, que ocupa uma das 14 vice-presidências do PE, foi detida na sexta-feira no âmbito desta investigação e a sua casa alvo de buscas pelas autoridades, noticiaram os jornais "Le Soir" e "Knack".

Fonte ligada ao processo adiantou à agência France-Presse (AFP) que Eva Kaili foi “detida para ser interrogada” pela polícia.

Em Atenas, o Partido Socialista Grego (Pasok-Kinal), do qual Kaili é membro, anunciou que esta foi "demitida". O PES entretanto também já anunciou a suspensão de Kaili com "efeitos imediatos".

A polícia de Bruxelas realizou este sábado 16 buscas domiciliárias e efetuou as detenções, entre as quais o companheiro de Kaili, atual colaborador ligado ao grupo dos Socialistas e Sociais Democratas no PE, adiantaram as mesmas fontes.

“Le Soir” e "Knack" tinham avançado na sexta-feira de manhã a existência de uma investigação sobre um alegado caso de corrupção, organização criminosa e branqueamento de capitais iniciado pela Procuradoria-Geral da República da Bélgica em julho, por suspeita de que o Qatar teria tentado influenciar o posição do PE.

“Há vários meses que investigadores da polícia suspeitam que um Estado do Golfo tenta influenciar as decisões económicas e políticas do Parlamento Europeu”, adiantou, na sexta-feira, o Ministério Público Federal belga em comunicado.

Este Estado teria executado esta estratégia através do “pagamento de quantias substanciais de dinheiro, e oferecendo presentes importantes a terceiros, a pessoas com uma posição política ou estratégica importante dentro do Parlamento Europeu", acrescentou.

Embora o Ministério Público belga não mencione explicitamente o Qatar, os dois meios de comunicação belgas citam várias fontes que confirmaram que se trata do país que organiza o Mundial de futebol.

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