Dentro da cidade dos mortos escondida sob Paris e do pouco conhecido apartamento na Torre Eiffel

CNN , Richard Quest e Joe Minihane
13 jul 2024, 17:00
Torre Eiffel (Photo by Ryan Pierse/Getty Images)
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Charmoso. Histórico. Romântico. O fascínio de Paris permanece intacto. A Cidade Luz é um farol brilhante, que acolhe visitantes de todo o mundo desejosos de se entregarem a um pouco de ‘joie de vivre’ (expressão francesa para "alegria de viver").

Há dois anos consecutivos, Paris está no topo da lista das cidades mais atrativas do mundo do Euromonitor International, vencendo em termos de turismo, sustentabilidade, desempenho económico, saúde e segurança.

Tudo isto estará em evidência quando Paris acolher os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2024, em julho e agosto, 100 anos depois da última vez em que a competição se realizou em solo francês.

Locais inesquecíveis e ruas de uma beleza inigualável continuam a ser uma atração tão grande. Desde o trânsito do Arco do Triunfo à Torre Eiffel, passando pelas Catacumbas e pela imponência de Notre-Dame, Paris é um local onde os sonhadores e os amantes da história se sentirão sempre em casa.

A ressurgir das cinzas

Um incêndio destruiu o telhado da Notre Dame em abril de 2019 (Fabien Barrau/AFP/Getty Images)

É em Notre-Dame que o passado e o presente de Paris se encontram. A catedral mais emblemática do mundo começou a ser construída em 1163 e a localização nas margens do Sena faz do monumento um dos marcos mais impressionantes da cidade. Foi testemunha da Revolução Francesa, da coroação de Napoleão como Imperador de França e de duas guerras mundiais.

Mas, em abril de 2019, o símbolo francês sofreu um incêndio devastador durante um restauro planeado, tendo o fogo destruído o teto de madeira e feito cair o pináculo na nave da catedral. Notavelmente, a grande fachada, o órgão, todos os vitrais e obras de arte foram apenas ligeiramente danificados e permaneceram intactos.

Em dezembro deste ano, Notre-Dame voltará a abrir as portas, com um trabalho concluído em apenas cinco anos, quando muitos previram que demoraria 20 anos. Dois mil escultores, pedreiros, carpinteiros e artistas foram contratados, tendo a sua experiência assegurado que o restauro deixaria a catedral com um aspeto praticamente idêntico ao que tinha antes do incêndio.

Philippe Jost assumiu o cargo de presidente do restauro em 2023 e diz que o teto de madeira representou o maior desafio.

“A estrutura de carvalho, conhecida como ‘La Floret’, ardeu completamente. Está agora a ser reconstruída. Procurámos milhares de carvalhos nas florestas de França", conta.

Jost acrescenta que não havia nada que a equipa não pudesse restaurar.

"Não se pode identificar o que foi reconstruído, porque é a mesma pedra e o mesmo tipo de trabalho. É o respeito que devemos ao monumento".

"Penso que estamos a 85% ou 90%", diz, quando questionado sobre quão perto a sua equipa está da conclusão.

O trabalho aqui é absolutamente incrível, um testemunho do facto de este tipo de artesanato ainda existir no século XXI.

As colunas nuas da catedral elevam-se até ao teto; as paredes, despojadas de séculos de pó e sujidade, parecem novas.

O custo do incêndio não foi apenas financeiro. A limpeza e o restauro cuidadosos - assegurando a saúde do edifício durante talvez os séculos vindouros - roubaram alguma da mística sombria e do encanto que os visitantes recordarão, mas esse é um pequeno preço a pagar por trazer um edifício tão importante de volta da beira do abismo.

Um desvio mortal

Os restos mortais de seis milhões de parisienses estão sepultados em catacumbas sob a capital francesa (Benoit Tessier/Reuters)

O passado de Paris não é, no entanto, apenas visível ao nível da rua. Se entrar num edifício sem importância no bairro de Montparnasse e seguir pelas escadas abaixo do solo, encontrará uma recordação muito real das pessoas que outrora chamaram casa a esta cidade: as Catacumbas de Paris.

Seis milhões de almas estão enterradas aqui, no que se pensa ser uma das maiores valas comuns do mundo.

"Estas são todas as pessoas que viveram em Paris nos últimos 10 séculos", diz o nosso guia enquanto passamos por filas de crânios e ossos, ordenadamente dispostos nas paredes destas antigas pedreiras de calcário.

No final do século XVIII, Paris enfrentava uma realidade sombria: os cemitérios a transbordar constituíam uma ameaça para a saúde dos seus habitantes. A solução consistiu em retirar os corpos destes antigos locais de repouso e transferi-los para um ossário dedicado, alojado nas extensas pedreiras subterrâneas de calcário da cidade.

As catacumbas propriamente ditas ocupam apenas uma pequena fração dos 300 quilómetros de pedreiras que formam uma intrincada rede por baixo das ruas de Paris. São tão vastas que se diz que comunidades inteiras vivem nelas, com raves literalmente subterrâneas, uma pedra angular da cena de festas alternativas da cidade.

O grande número de restos mortais humanos aqui presentes não pode deixar de provocar uma profunda contemplação.

"Toda esta teatralidade é eficiente porque toda a gente que faz a visita guiada pensa, a dada altura, na sua própria morte", afirma o nosso guia. "Pensando 'Sim, eu também um dia!’".

"Yes, you can can"

Embora os mortos sejam uma distração um pouco mórbida, há algo muito mais animado no Boulevard de Clichy, num local que tem servido para se divertir desde 1889. O Moulin Rouge.

Berço da dança do high-kicking can-can, foi pioneiro de uma nova forma de cabaret quando abriu no final do século XIX, iniciando uma moda que perdurou durante quase 100 anos. Foi também um sinónimo do período da Belle Époque, quando a prosperidade e o progresso apontavam para um mundo melhor.

Hoje em dia, continua a ser tão emblemático (exceto algum percalço ocasional), com os bailarinos vestidos com fatos deslumbrantes que tornam os movimentos ainda mais impressionantes.

"Quando se começa a usar, não diria que é fácil, mas já danço aqui há seis anos, por isso sinto que faz parte de mim", diz Jasmine, uma das bailarinas que veste estes fantásticos fatos duas vezes por noite, todas as noites.

Cada um é feito à mão e à medida dos bailarinos, com mais de três quilómetros das melhores penas de avestruz utilizadas todos os anos para estas criações. São meticulosamente trabalhadas por Maxime Leroy e a sua equipa na Maison Fevrier - um prestigiado ateliê de penas que está no ativo há quase um século. Têm de encontrar um equilíbrio difícil, sendo pesadas sem pesar para os bailarinos quando sobem ao palco e dão os seus famosos pontapés.

"É tudo uma questão de como se termina", explica Jasmine, ao revelar como se faz can-can corretamente, acrescentando que é preciso ficar de pé e tentar dar um pontapé clássico com a perna direita. Não é tão fácil como parece e é ainda mais difícil de fazer. É por isso, talvez, que o Moulin Rouge perdura até aos dias de hoje.

Um paraíso gastronómico

Os franceses não são conhecidos pela sua paciência, mas quando se trata de comida, levam o seu tempo. Como esperar na fila, não importa quanto tempo, pela sua baguete matinal.

A tecnologia moderna simplificou muitos aspetos da produção de pão. No entanto, em Paris, ainda existe uma forte tradição de fabrico artesanal e os clientes estão dispostos a pagar um pouco mais por isso. De facto, em 2022, a UNESCO incluiu a baguete francesa na lista de bens do património cultural, reconhecendo o significado e a importância para o modo de vida francês.

E embora seja improvável que cozinhar a sua própria omelete se compare a uma comprada, pode pelo menos tentar fazer a omelete parisiense. E ninguém sabe fazer uma melhor do que o chefe Yannick Alleno. Com 16 estrelas Michelin no currículo, o chefe sabe do que está a falar. De facto, Yannick Alleno diz que, quando treina novos chefes, uma omelete é o melhor prato para começarem.

"É preciso dizer-lhes para fazerem uma omelete", garante. "Esta é a coisa mais difícil de perceber. Porque estamos a usar as duas mãos. Mexemos a frigideira e temos de olhar e controlar o fogo por baixo. Cozinhar é uma dança com o fogo. É preciso saber dançar com o fogo. A omelete é a coisa perfeita para isso".

O método de Alleno requer quatro ovos, leite e uma pitada de pimenta, antes de ser cozinhado em lume forte, rodando a frigideira à medida que se vai cozinhando para garantir que fica devidamente cozido, mas nunca duro nas bordas.

"Porque estamos em França... pimenta (na mistura), manteiga por cima. É disso que eu gosto", sorri Alleno, enquanto faz a sua magia. Pode parecer um prato simples, mas coma uma omelete em Paris e sairá de lá a sonhar em fazer a sua própria omelete da mesma forma.

O apartamento pouco conhecido da Torre Eiffel

Gustave Eiffel, aqui representado em cera, mantinha um apartamento no alto da torre que leva o seu nome (Astrid Di Crollalanza/Gamma-Rapho/Getty Images)

Naturalmente, nenhuma viagem a Paris estaria completa sem uma visita à Torre Eiffel. O edifício mais alto da cidade e o local mais emblemático é o símbolo não só de Paris, mas também de França. E poucas pessoas sabem tanto sobre ela como o guia turístico José Ruiz Cobo.

Cobo é um veterano da Torre Eiffel, tendo aqui trabalhado durante 21 anos, mas confessa que nunca se cansa de subir a este edifício incrível.

"Especialmente a esta hora, quando não está cá ninguém e se pode realmente apreciar a vista", admite, enquanto nos dirigimos para o topo no início do dia.

Para Cobo, no entanto, a área de observação pública no cimo não é a parte mais especial da Torre Eiffel. Em vez disso, é o apartamento privado de Gustave Eiffel, o engenheiro que concebeu esta espantosa estrutura.

Situado na ponta da torre, este pequeno espaço está repleto de história, um lugar para o criador contemplar a sua maior realização, um edifício destinado a permanecer de pé apenas 20 anos após a sua construção para a Exposição Mundial de 1889.

O apartamento de 100 metros quadrados foi reduzido para dar lugar a casas de banho públicas, mas continua a ser tão mágico como se poderia imaginar. E, apesar das inúmeras ofertas, Eiffel recusou-se a permitir que inquilinos se instalassem.

"Houve quem oferecesse grandes somas de dinheiro para o alugar por uma noite", relata Cobo. "Mas ele era tão obcecado pela ciência que recusou. Só trazia a família, os amigos e os cientistas. O convidado mais famoso é provavelmente... Thomas Albert Edison, que trouxe o seu aparelho de gravação".

É uma parte da Torre Eiffel que poucos se apercebem que está aqui. Não que a vista por si só não seja motivo suficiente para fazer fila durante horas a fio, claro. É, sem dúvida, a melhor maneira de ver Paris, uma cidade que é impossível não amar. As vistas em todas as direções são magníficas, o que faz com que os visitantes tenham vontade de ver e experimentar o máximo possível antes de terem de partir.

Joseph Ataman, da CNN, contribuiu para esta história.

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