ENTREVISTA || A psicóloga clínica Laura Sanches é autora de vários livros sobre parentalidade. Desde que se estreou como mãe, em 2011, começou a dedicar-se a áreas como educação e desenvolvimento infantil. No último livro, não só desmistifica a “culpa” como grande companheira dos pais, como defende a sua necessidade e a importância na educação dos nossos filhos
“Ela não é o inimigo. É a nossa bússola enquanto educadores”. A psicóloga clínica e conselheira parental Laura Sanches, defende o papel da culpa na parentalidade. A propósito do lançamento do último livro “Educar com culpa”, a especialista conversou com a CNN Portugal.
Pelo meio, falou-se da importância da brincadeira livre enquanto regulador de emoções e do cultivo da saúde mental das crianças. Lura Sanches defende a urgência de “resgatar o nosso instinto alfa” e fala da importância da leitura para o desenvolvimento da criança e dos malefícios das tecnologias e das redes sociais.
A culpa é a grande companheira das mães. A Laura defende que não a devemos eliminar ou combater. Porque é que a culpa é tão importante na maternidade ou na parentalidade?
Porque a culpa é o outro lado do instinto alfa, que é o instinto de cuidar. Não podemos assumir a responsabilidade de cuidar de alguém sem sentir sempre alguma culpa e, se eliminamos a culpa, também saímos desse papel de cuidadores que é fundamental para sermos capazes de educar os nossos filhos, ou qualquer outra criança aos nossos cuidados. Quando eliminamos a culpa deixamos de nos sentir responsáveis.
Por isso precisamos de criar uma relação com ela e de encontrar algum espaço para que ela possa estar presente, aproveitando também aquilo que nos possa mostrar sobre o caminho que queremos seguir.
Faz sessões de aconselhamento parental. Quais são as principais razões e em que idades é que os pais mais a procuram?
As idades variam muito. Já tive casos de pais com bebés, preocupados mais com questões relacionadas com o sono ou com o pós-parto das mães ou adaptação aos irmãos. Mas também tenho pais de crianças em idade escolar e adolescentes, preocupados com questões de bullying, de dificuldades com ecrãs, problemas de comportamento na escola ou questões mais sérias como perturbações do comportamento alimentar, automutilação ou até ideação suicida (tudo questões que, infelizmente, têm vindo a aumentar muito nos últimos anos).
“Precisamos de ouvir a nossa voz, aquela que sabe, sempre, o que é melhor para os nossos filhos”. Esta frase está na contracapa do seu livro. No meio de tantos conselhos e tantas opiniões, o nosso instinto está, de facto sempre certo?
Quando ouvimos o nosso instinto conseguimos perceber melhor aquilo que funciona com aquela criança, ao mesmo tempo que também ficamos mais seguros do nosso papel e isto é fundamental para que tudo se desenrole da melhor maneira. Mais do que estarmos preocupados com o que é certo ou errado, até porque, na educação, isto é quase sempre relativo. Na educação, o mais importante não é estarmos preocupados com o que é certo ou errado, o mais importante é que sejamos capazes de confiar naquilo que estamos a fazer e na nossa capacidade de lidar com as situações e até mesmo com os erros. Porque todas as pessoas se arrependem de algumas coisas que fazem com os filhos, até porque, à medida que vamos amadurecendo, ou tendo mais filhos, é natural que comecemos a ver as coisas com outros olhos.
Mas o fundamental mesmo é sentir que, mesmo quando acreditamos que devíamos ter feito alguma coisa diferente, estamos sempre a tempo de nos alinharmos mais com o caminho que queremos seguir e até de corrigir os erros.
O que devemos fazer com tantos conselhos e sugestões que a mãe, a sogra, as irmãs, as amigas e até perfeitos desconhecidos nos dão com tanta generosidade?
Podemos ouvir e escolher aqueles que se adequam ou não ao nosso caso. Os conselhos que podem fazer mais sentido são aqueles que são dados por alguém que gosta de nós, que nos conhece bem e ao nosso filho também e que também poderá estar no papel de cuidar de nós, ou seja, alguém em quem confiamos e de quem sentimos que é seguro depender. Porque os pais e mães também precisam de familiares mais velhos que possam cuidar deles, enquanto eles cuidam dos filhos.
O problema é que a sociedade já não está organizada desta forma mais hierárquica e é muito diferente quando recebemos conselhos de alguém que está num lugar de cuidar realmente de nós e a quem estamos ligados ou de alguém que está simplesmente a repetir fórmulas ou regras.
Também é importante percebermos se esses conselhos ajudam a fortalecer a confiança e o instinto dos pais ou se servem para os afastar dele. Conselhos que são baseados em fórmulas como as que infelizmente, hoje em dia, ainda são defendidas, como de só dar de mamar de três em três horas, por exemplo, ou de deixar chorar até adormecer, só servem para afastar as mães e os pais do seu instinto e nesse caso devem ser mesmo ignorados.
Repete o conselho de que temos de resgatar o nosso instinto alfa. O que é isso? E, sobretudo, como é que isso se faz?
Instinto alfa é o nome dado por Gordon Neufeld, ao instinto de cuidar, de nos sentirmos responsáveis por outra pessoa. Quando estamos em modo alfa ficamos mais predispostos para identificar as necessidades de outra pessoa e acreditamos que somos a resposta para elas. Para resgatar esse instinto temos de começar por perceber que somos justamente a pessoa mais capaz de ser a reposta para os nossos filhos. Temos de sentir que estamos no lugar certo a cuidar deles e que somos capazes de assumir esse papel, mesmo que, de vez em quando, surjam dúvidas pontuais.
Temos de valorizar a relação acima de qualquer outra coisa e saber que é através dela que conseguimos cuidar verdadeiramente dos nossos filhos ou de qualquer criança aos nossos cuidados.
E a maior parte das vezes, infelizmente, também temos de ser capazes de silenciar as vozes ao nosso redor, que nos fazem duvidar destas nossas capacidades cada vez mais, como explico também no livro.
O burnout parental é uma realidade? E é uma realidade crescente? Chegam-lhe ao consultório muitos pais em exaustão?
Sim, cada vez mais. Uma boa parte dos pais que me procura sente-se esgotada, exausta e, muitas vezes sem saída. Quer porque a sua rede de apoio é cada vez mais pequena ou mesmo inexistente e não há uma organização hierárquica da sociedade que permite que se sintam cuidados, quer porque Portugal é um país onde se espera que as pessoas passem demasiadas horas no trabalho, quer porque não são capazes de encontrar o tal instinto alfa, o que torna a parentalidade muito mais cansativa. Muitos pais são muito bem-intencionados, mas passam a maior parte do seu tempo a tentar dar resposta às necessidades da criança, o que faz com que entrem num ciclo em que estão constantemente a tentar responder, mas a sentir que aquilo que lhe dão nunca chega.
Isto é muito esgotante e acontece quando é a criança que está no controlo e não os pais, como descrevi no meu livro anterior.
Assistimos hoje a uma multiplicidade de terapeutas, coaches, especialistas em parentalidade e uma multiplicidade de “estilos de parentalidade”. Que efeito é que isto tem sobre os pais? Mais ansiedade?
O efeito mais nocivo de tudo isto é a perda do instinto alfa. Quando os pais seguem os conselhos, as receitas ou as fórmulas de outras pessoas estão a sair do seu lugar de responsabilidade e de capacidade e isso deixa-os mais ansiosos sim, mas também mais exaustos, perdidos e com a sensação de que nada daquilo que fazem adianta alguma coisa. É preciso que os pais encontrem em si a resposta para lidar com os problemas, muito mais do que encontrarem soluções dadas por terceiros.
O que lhe apetece responder quando ouve que uma “uma palmada na hora certa nunca fez mal a ninguém” ou “está só a fazer birra” ou ainda “não lhe dês colo que fica viciado”?
Sabemos que as palmadas não educam ninguém e já há estudos que mostram que os castigos físicos podem ser muito prejudiciais, mas também é preciso que os pais que já bateram saibam que não é isso que vai traumatizar a criança para sempre e que podemos reparar as relações depois de fazermos alguma coisas de que nos arrependemos.
As birras são apenas uma manifestação de incapacidade da criança para lidar com a frustração que sente em dado momento. É importante lembrar que a birra é uma coisa que acontece à criança, elas não o fazem com nenhum objetivo nem para conseguir nada. E as birras não devem ser ignoradas e muito menos castigadas porque na verdade aquilo que as crianças precisam é de alguém que as ajude a processar e a integrar aquilo que estão a sentir nesse momento: emoções demasiado intensas com que ainda não sabem lidar.
E dizer que uma bebé fica viciado no colo, na verdade, será o mesmo que dizer que fica viciado em comida se o alimentarmos. Porque sabemos que o toque é uma necessidade tão vital como a de ser alimentado. Talvez até mais na verdade, como demonstrou um estudo com mais de 60 anos que punha macaquinhos recém-nascidos em contacto com um boneco de arame que os alimentava e com outro que estava revestido com um tecido felpudo e macio e que demonstrou uma clara preferência desses macaquinhos pelo boneco revestido de tecido. O colo ajuda os bebés a regular os seus níveis de stress e até a regularem a sua temperatura corporal, os batimentos cardíacos e a respiração.
Tem no seu livro um capítulo dedicado à importância da brincadeira. Brincamos pouco com os nossos filhos? Estamos a desaprender de brincar com os nossos filhos?
O problema não passa tanto por brincarmos ou não com os nossos filhos, mas pela falta de tempo para a brincadeira livre que as crianças têm hoje em dia. A brincadeira livre quase desapareceu da vida das nossas crianças e isto tem consequências gravíssimas para o seu desenvolvimento.
Também estabelece uma relação entre a falta de brincadeira e o declínio da saúde mental. É a isso que se refere?
Sim, a brincadeira é essencial para o desenvolvimento de alguns aspetos fulcrais para a saúde mental. A brincadeira livre ajuda a calibrar o sistema de alarme, porque quando as crianças brincam, correm alguns riscos o que ativa naturalmente o seu sistema de alerta de forma segura e lhes permite familiarizarem-se com essas sensações ao mesmo tempo que permite que esse sistema seja eficiente a responder aos estímulos. Isto é importante para que sejamos capazes de entrar e sair desses estados de alerta de forma adequada e a falta de contacto com estas sensações também pode estar relacionada com as crises de pânico, cada vez mais frequentes, em que o que acontece é que o alarme dispara e a pessoa entra em pânico com as sensações a que não está habituada, o que, por sua vez, aumenta mais ainda o alarme.
A brincadeira livre também é importante para o desenvolvimento da empatia, porque as crianças precisam de ser capazes de se por no lugar do outro para a brincadeira funcionar. Algo que sabemos que tem vindo a diminuir nos nossos jovens e dificulta as relações interpessoais, um aspeto importante para um bom desenvolvimento e para a satisfação com a vida.
Também é importante para ajudar a lidar com a frustração, porque as crianças quando brincam estão mais motivadas para resolver problemas, ultrapassar obstáculos e para lidar com os fracassos.
E ajuda a regular as emoções…
A brincadeira livre também ajuda a processar as emoções mais difíceis, como a tristeza, porque num contexto de brincadeira a criança sente-se segura e por isso não é tão ameaçador entrar em contacto com este tipo de emoções. Só falar das emoções às crianças não serve de muito, porque elas precisam mesmo é de ter espaço para as sentir para conseguirem lidar com elas e na brincadeira é sempre mais fácil sentir todo o leque de emoções.
A maior consciência do corpo que a brincadeira traz também é importante para que sejamos capazes de sentir as emoções, porque é no corpo que elas se manifestam.
Sermos capazes de entrar em contacto com as emoções é um aspeto essencial da capacidade de adaptação, é o que nos permite processar a frustração e a tristeza que vem com ela e saber que seremos capazes de seguir em frente mesmo nas situações mais difíceis.
Isto é também a base da autoconfiança.
A brincadeira livre também tem um papel muito importante no desenvolvimento da autoimagem e ajuda a criança a descobrir os seus gostos e motivações internas, o que é muito importante para a pessoa sentir que tem um rumo na vida, para ser capaz de fazer escolhas certas e que a façam sentir-se preenchida.
Alerta-nos nesse capítulo que “os videojogos não são brincar”, mas “ler pode ser brincar”. Andamos a supervalorizar os ecrãs e as tecnologias?
Sim, os ecrãs na verdade são uma grande ameaça para a brincadeira livre porque são demasiados atrativos para as crianças e é muito fácil que ocupem todo o espaço do brincar, se os adultos não tomarem medidas para proteger esse espaço, porque brincar é importante, mas não é urgente, como diz Gordon Neufeld. E os ecrãs podem facilmente trazer um sentimento de urgência porque tudo neles está feito para provocar dependência.
Mas os ecrãs nunca podem ser considerados um brincar verdadeiro porque lhes falta algo essencial: no brincar verdadeiro, as crianças trazem o seu mundo interno para fora, projetam os seus gostos, motivações e ideias que criam, desenvolvem e levam a cabo, por vezes até com algum esforço.
Os ecrãs nunca ajudam a criança a descobrir o seu mundo interno porque fazem precisamente o contrário: enchem-na de coisas exteriores a si. Enchem-na de motivações e desejos que até podem ter partido de si, mas que depois são completamente adulterados e subvertidos pelos fabricantes e criadores de conteúdos que pretendem capturar a nossa atenção pelo máximo de tempo possível e até incentivar a novos desejos e motivações que nem existiam antes.
E a leitura?
Ler pode ser considerado brincar na medida em que, quando lemos, também projetamos uma parte do nosso mundo interno nas personagens, por isso mesmo é que ver as séries ou o filme baseado no livro que gostámos de ler é sempre uma desilusão: porque aí estamos a ver o mundo que outra pessoa projetou e não o nosso.
Além disso ler também é uma forma de experimentar várias vidas de uma forma muito mais profunda do que os ecrãs permitem e experienciar as emoções das personagens através da leitura também nos permite encontrar forma de lidar com as nossas, exatamente como acontece na brincadeira. Quando lemos, apesar de o corpo ficar parado, há uma atividade interior muito rica e que pode ser até bastante profunda, como acontece na brincadeira e ao contrário daquilo que fazem os ecrãs.
Mas, na prática, que perigos trazem a tecnologia para a educação das nossas crianças?!
Os perigos começam na falta de tudo aquilo que a brincadeira desenvolve. Os números já mostram a falta de empatia, o aumento dos casos de ansiedade, depressão, automutilação, de perturbações do comportamento alimentar, das tentativas de suicídio e dos suicídios na adolescência.
As dificuldades de relacionamento também são outro dos grandes perigos dos ecrãs em excesso, sendo que já temos muitos jovens que têm a pornografia como um modelo para as relações amorosas, o que é bastante prejudicial ao seu desenvolvimento naturalmente.
As crianças e os adolescentes ainda não têm o seu cérebro completamente amadurecido por isso são muito mais vulneráveis aos estados de dependência que os ecrãs podem provocar, ao mesmo tempo que também são mais afetadas pelos seus efeitos.
E as redes sociais?
As redes sociais e o mundo dos jogos online também contribuem cada vez para um afastamento entre os jovens e os adultos porque são uma presença constante e criam cada vez mais ruído nas relações. E é importante lembrar que os adultos ainda precisam de ter um papel fundamental na educação e na vida dos adolescentes, porque um adolescente nunca pode ser uma boa figura de referência para outro adolescente.