Paredes de Coura: novos valores do rap, Princess Nokia e Slowthai, mas também velhos valores do rock, alternativo, os Pixies

21 ago, 08:54
Pixies no Paredes de Coura (EPA/Hugo Delgado)

A noite deste sábado e último dia de festival em Paredes de Coura foi do rap, gutural, proveniente dos dois lados do Atlântico. Mas foi também dos Pixies, que se apresentaram em antologia

Imaginem um díptico, colossal. De um lado, está a decorrer a performance de uma rapper, norte-americana. Do outro, a actuação de outro rapper, britânico. Ela é Princess Nokia. Ele, Slowthai. Ambos cantam sobre os preconceitos, as injustiças, a hipocrisia da sociedade. Ambos vieram de contextos sociais desfavorecidos. Ambos falam muito para o público e advogam a importância do amor, da auto-estima, da liberdade. Ela está alegre, celebratória. Ele, num timbre mais rouco – de tanto vociferar? –, acusa mais tensão na voz. Princess Nokia entrou às nove e vinte no palco principal desta última noite de concertos em Paredes de Coura, Slowthai actuou a seguir. A plenitude de uma actuação alimentou-se da existência da outra. Os dois tocaram o tema Barbie Girl, dos Aqua. Já lá vamos a Pixies.

Atrás de uma mesa de mistura colocada no palco, o DJ, de t-shirt preta Adidas vintage, começa por pôr a tocar… We Like to Party, dos Venga Boys. O público delira, começa tudo a dançar. Mais espanto: a seguir, passa Barbie Girl. Atrás, estão a ser projectadas imagens de um videojogo dos tempos do Spectrum, um prédio gerado por computador está a arder. Ouvimos ainda Around the World (La La La La La), de A Touch of Class, Sandstorm, do DJ Darude, e – bendito Shazam – Confusion (Pump Panel Reconstruction Mix), dos New Order. É então que o DJ diz, em inglês: “Estão prontos para Princess Nokia?” A audiência está conquistada.

Destiny Nicole Frasqueri, aka Princess Nokia, entra em palco e é um estrondo. Veste um top que se estende a uns mini-calções, é uma espécie de macacão, preto, feito de tiras de tecido. Tapa apenas os mamilos, a junção das nádegas e o sexo. Feminista e activista assumida, esta atitude de celebrar o seu próprio corpo, confiante, é o melhor dos exemplos de empoderamento da mulher que Princess Nokia pode dar. A rapper tem enrolada à cintura uma espécie de mangueira, amarela, que dispara água. E diz, à primeira canção: “tornei-me muito, muito sexy”.

Antes de lançar o tema, a cantora de ascendência porto-riquenha – define-se como mulher afro-indígena – diz encorajar toda a “positividade sexual”. E canta I Like Him: “I want him/ And want him too// I like him/ Like him too” (“Desejo-o/ Desejo aquele também// Gosto dele/ Gosto daquele também”). De vez em quando, ouve-se o toque de uma sirene, que vai pontuando de alarme a actuação.

A seguir, Princess Nokia diz, em espanhol, que gosta de mulheres, assume-se gay. Assume-se, na verdade, tudo – tudo cabe no seu ser. E canta um dos seu temas conhecidos, Slumber Party, “I’m not shy, I’ll say it/ I’ve been picturing you naked” (“não sou tímida/ devo dizê-lo/ tenho andado a imaginar-te nu/a”). “As pessoas perguntam-me o que sou: mulher, homem, branca, morena, mentirosa… sou isso tudo, meus amores. É uma escolha minha.” E resume-se da melhor maneira: “sou uma boa pessoa”, ponto. A dada altura, tira as maminhas do top e brinca com elas nas mãos.

Canta ainda Brujas, Diva e acaba como começou, a dançar ao som de música que não é sua: nada menos do que Cozy, do álbum de Beyoncé acabado de ser editado, Renaissance.

Agora, a segunda parte do díptico. Às 22 e 50, entra Slowthai em palco, sozinho. Está a tocar uma versão de Can’t Help Falling in Love, de Elvis Presley. Tyron Kaymone Frampton começa por dizer que precisa do amor do público. Está de tronco nu, corpo tatuado, calções aos quadradinhos azuis, meias e ténis brancos. Ao longo da sua performance, Slowthai não se cansará de dizer o quão importante é sermos iguais a nós próprios e marimbarmo-nos para o que os outros pensam.

“Look at the way I walk, look at the way I talk/ Where is the pepper? ‘Cause niggas be throwing salt” (“Olha para a forma como ando, olha para a forma como falo/ Onde está a pimenta? Porque os blacks estão a atirar sal”), canta em 45 Smoke, do último disco, Tyron. “Estão a viver a vida?”, insiste junto do público. “Estão a viver a vida ou estão a deixar a vida viver-vos a vocês?” Segue-se I Feel So Good: “Lions don’t sleep over the opinion of sheep/ Nothing seems real ‘til it lands at your feet” (“Os Leões não perdem o sono por causa da opinião das ovelhas/ Nada parece real até aterrar a teus pés”).

A dada altura, alguém lhe atira umas cuecas de mulher. De cigarro na mão esquerda, que tem aliança, agradece a oferta mas diz estar já comprometido. No fundo de palco, o vídeo de um prédio a arder tem estado a ser projectado. De repente, atrás da casa em chamas, passa um comboio, lá longe. Diz-nos que o mundo é indiferente às desgraças de cada um, continua a girar como se nada fosse.

Slowthai dedica ainda uma canção a todos os desprivilegiados, porque vêm de classes mais baixas. Chama-se Doorman e fala sobre as vissicitudes de um amor entre duas pessoas de estratos sociais diferentes. Ao som de Barbie Girl, despede-se, agradecendo à audiência e apelando a que cuidemos uns dos outros.

Amor foi também o que polvilhou, de boa energia, o concerto dos franceses La Femme ao final da tarde, com o logotipo a piscar em azul e rosa no fundo do palco principal. Esta banda de Biarritz apresentou-se vestida de fato completo branco, o blazer ornado com uma grande gola preta. A dada altura, um dos elementos femininos tira o casaco e fica em soutien, preto, super-bonita e confiante na sua beleza feminina – que não é para esconder. Os vários actores do festival parecem sintonizados em passar uma mensagem de verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade.

O concerto desta banda que encarna o melhor do pop francês, acrescentando-lhe laivos de psicadelismo e new wave, acontece num crescendo de cadência. Tocam o clássico Où Va le Monde, o primeiro momento alto da actuação. Metade do anfiteatro tem as pessoas em pé, algumas dançam, outras fazem uma bola de praia às riscas laranja e branco pular pelo ar. A outra metade está ocupada por pessoas sentadas.

A música é de alegria, o que não acontece necessariamente com as letras. Os La Femme são apologistas de que se pode falar de coisas sérias, fazer crítica social, mas com boa disposição e a dançar. “J'appelle à tous ceux qui en ont gros/ Ensemble on va donner l'assaut/ On part au concert des bourreaux/ Ce soir on va lâcher les chevaux” (“Apelo a todos aqueles que se preocupam/ Juntos vamos fazer o ataque/ Vamos ao concerto do verdugo/ Esta noite vamos deixar os cavalos à solta”), cantam em outro dos seus temas mais conhecidos, Foutre le Bordel, do álbum mais recente, Paradigmes.

Há ainda tempo para Antitáxi (“prends le bus”, “apanha o autocarro”), Sur La Planche e terminam com It’s Time to Wake Up, retirado do primeiro álbum, Psycho Tropical Berlin, de 2013: “Toi mon survivant/ Une nouvelle guerre a commencé/ Dans ton corps, une puce électronique/ Volontaire, obligatoire/ Moi et toi contre les autres” (“Tu, meu sobrevivente/ Uma nova guerra começou/ No teu corpo, um microchip/ Voluntário, obrigatório/ Eu e tu contra os outros”). Nada de leve nestas prosas.

O clássico fica para o fim – deste texto e da noite de concertos, que encerra também a 28ª edição de concertos do festival de Paredes de Coura, depois de dois anos de interregno devido à pandemia. A actuação dos Pixies foi de antologia. A banda de Black Francis e sem Kim Deal quis garantir que as pessoas dessem o seu dinheiro por bem empregue. Foram 31 os temas que os Pixies tocaram, durante uma hora e quarenta minutos de concerto.

Há dois tipos de pessoas a assistir na plateia: as que conheceram a música dos Pixies à medida em que iam lançando os álbuns, numa era pré-internet (por acaso alguém tinha um amigo que tinha um conhecido que lhe tinha trazido uma cassete dos Estados Unidos). E depois há todas as outras. Foi para ambas uma excelente oportunidade: umas para revisitarem a discografia desta banda basilar da história da música popular alternativa de final dos anos 80 e tudo o que se fez a seguir, outras para a conhecerem – ou conhecerem um pouco melhor.

Na sua habitual postura de entrar em palco sem dizerem um olá e começarem a tocar de imediato as canções, todas coladas umas às outras à excepção de quando Black Francis tem de trocar de guitarra, a fórmula do sucesso dos seus concertos que faz a sua música sobreviver ao vivo ainda hoje é o facto de as canções serem curtas, extremamente bem tocadas – viva, Joey Santiago – e não se perder tempo com o que quer que seja que extravase a música. Ou seja, não gastar sequer minutos a falar com o público.

Começam com Gouge Away, a garantir cedo a viagem pelo túnel do tempo rumo ao quarto de adolescente a ouvir incessantemente a cassete de Doolittle copiada. Segue-se Wave of Mutilation (e quase juramos que a repetiram no final do concerto) e uma sequência de canções velozes, curtas, viscerais: Broken Face, Crackity Jones e Isla de Encanta.

Vão também permeando o alinhamento com algumas canções ditas novas, já da fase do reagrupamento, a partir de 2003. Mas não faltam os grandes clássicos: Gigantic, Mr. Grieves, Caribou, Monkey’s Gone to Heaven, Levitate Me, Bone Machine, Velouria, Where is My Mind e, também, a única canção que não se suporta ouvir deles, Here Comes Your Man. À semelhança de Should I Stay or Should I Go, de The Clash, são canções que conseguiram eclipsar todas as outras boas músicas destas duas super-bandas junto dos mais incautos ou preguiçosos, que ficam insuportavelmente histéricos de cada vez que as ouvem.

Mas perdoamos esse pequeno lapso aos Pixies. Compensaram-nos ao não deixarem de fora a Hey!, esse interpretação sublime e suprema do que significa amor, desejo e comunhão – tão carnal que se torna ascética.

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