Paramount sai vencedora na guerra de licitações contra a Netflix pela Warner Bros. Discovery

CNN , Brian Stelter
28 fev, 09:35
Paramount (Getty Images)

A Paramount tornou-se a principal candidata a adquirir a Warner Bros. Discovery após a Netflix desistir da guerra de licitações. A compra inclui canais de televisão, estúdios de cinema e a CNN. A decisão surge após uma oferta considerada “superior” pela Paramount e visitas do CEO da Netflix à Casa Branca, com potenciais implicações políticas envolvendo o ex-presidente Trump

A Paramount emergiu como vencedora na batalha de vários meses pela Warner Bros. Discovery depois de a Netflix ter desistido da guerra de licitações na quinta-feira, deixando a Paramount preparada para adquirir o vasto império mediático da Warner, incluindo a CNN.

A Netflix afirmou que “não vai aumentar a sua oferta pela Warner Bros.” depois de o conselho da Warner Bros. Discovery ter determinado que a Paramount apresentou uma oferta “superior” pelo gigante mediático.

“O negócio já não é financeiramente atrativo, por isso recusamos igualar a oferta da Paramount Skydance”, disse o serviço de streaming, acabando abruptamente com a disputa corporativa.

Com este anúncio, a Paramount aproximou-se significativamente de assumir o controlo da CNN, HBO e do restante portefólio de ativos da Warner Bros. Discovery (WBD).

O processo de revisão regulatória ainda levará vários meses, no mínimo. Mas, salvo surpresas, o CEO da Paramount, David Ellison, reunirá um vasto império de entretenimento e notícias com dezenas de canais de TV, múltiplos estúdios de cinema e duas redações líderes.

O CEO da WBD, David Zaslav, desejou sorte à Netflix e estendeu uma mão amiga à Paramount numa declaração na quinta-feira à noite.

“Uma vez que o nosso Conselho vote para adotar o acordo de fusão com a Paramount, será criado um valor tremendo para os nossos acionistas”, afirmou Zaslav, referindo-se ao facto de que o preço das ações da WBD mais do que duplicou durante a guerra de licitações. A oferta mais recente da Paramount foi de 31 dólares por ação.

“Estamos entusiasmados com o potencial de uma Paramount Skydance combinada com a Warner Bros. Discovery”, acrescentou Zaslav, “e mal podemos esperar para começar a trabalhar juntos a contar as histórias que movem o mundo.”

A retirada da Netflix — que, na prática, sugere que a Paramount está a pagar demais pela WBD — fez com que as ações da empresa disparassem 9% no pós-mercado, mostrando que alguns investidores se sentiram aliviados com a decisão.

O fator Trump

A mudança na sorte ocorreu no mesmo dia em que o co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, realizou reuniões na Casa Branca.

Sarandos foi visto a sair do complexo da Casa Branca com uma expressão sombria no rosto.

Sarandos foi visto a sair do complexo da Casa Branca com um ar desanimado. Pouco depois, a Netflix desistiu da guerra de licitações pela WBD, cedendo a batalha à Paramount.

A senadora democrata Elizabeth Warren, crítica ferrenha das ofertas da Netflix e da Paramount, questionou de imediato se as discussões de Sarandos com a administração Trump tiveram influência na súbita mudança de quinta-feira.

“O que é que os funcionários de Trump disseram ao CEO da Netflix hoje na Casa Branca?” perguntou Warren numa publicação no X, alegando que “parece capitalismo de compadrio, com o Presidente a corromper o processo de fusão em favor da família bilionária Ellison”.

O presidente Donald Trump já tinha indicado anteriormente que favorecia a Paramount em detrimento da Netflix, embora tenha dado sinais contraditórios sobre a mega-fusão.

No último fim de semana, Trump disse publicamente à Netflix para remover a conselheira Susan Rice, antiga assessora de Obama, ou “sofrer as consequências” — reacendendo a perspetiva de que colocaria a mão na balança corporativa.

Além disso, em dezembro passado, Trump afirmou que era “imperativo que a CNN fosse vendida”, enquanto o acordo com a Netflix não previa a venda da CNN, mas sim a sua separação numa nova entidade com os outros ativos de cabo da WBD.

No entanto, esse plano de separação corporativa poderá já não ser relevante. A Paramount afirmou repetidamente que procura adquirir toda a WBD, incluindo os ativos de cabo, embora tenha lançado dúvidas sobre o valor real desses ativos.

Oferta “superior”

A decisão da Netflix surgiu apenas uma hora depois de o conselho da WBD considerar que a oferta mais recente da Paramount era “superior” ao acordo existente para a Netflix comprar a Warner Bros e a HBO.

De repente, pela primeira vez, a WBD chamava a Paramount de favorita numa competição que Ellison iniciou no verão passado, apresentando uma proposta não solicitada para a empresa mediática muito maior.

A WBD rejeitou repetidamente as ofertas da Paramount e levantou dúvidas sobre a capacidade financeira da empresa. Quando o conselho da WBD assinou um acordo com a Netflix, a Paramount lançou uma oferta hostil de aquisição.

Na semana passada, a Netflix concedeu à WBD uma isenção de sete dias para negociar com a Paramount, enquanto chamava à ação desta última uma “distração contínua” para a indústria do entretenimento.

O objetivo, do ponto de vista da WBD, era descobrir a “melhor e última” oferta da Paramount, já que esta indicara anteriormente que iria acima da proposta de 30 dólares por ação.

De facto, a Paramount fez isso. A nova oferta de Ellison, anunciada na terça-feira, avalia toda a WBD, incluindo a CNN, em 31 dólares por ação.

A Paramount anexou vários incentivos ao acordo que atraíram o conselho da WBD, incluindo uma “taxa de rescisão regulatória” de 7 mil milhões de dólares. A empresa aceitou todos os termos-chave exigidos pela WBD.

Quando a WBD divulgou os resultados trimestrais na quinta-feira de manhã, Zaslav afirmou que a guerra de licitações “levou a oito aumentos de preço” e “até agora conseguiu um aumento de 63% no valor face à primeira oferta recebida em setembro, proporcionando valor significativo aos acionistas da WBD durante todo o processo”.

“O nosso foco tem sido e será sempre maximizar o valor e a certeza, mitigando riscos de desvantagem”, disse Zaslav, “e o conselho avaliará qualquer proposta com base nesse padrão, com o objetivo de garantir o melhor negócio para os nossos acionistas.”

Visita de Sarandos à Casa Branca

Sarandos visitou a Casa Branca para reuniões — embora, notavelmente, não com o presidente — pouco antes de a WBD anunciar que a oferta da Paramount era “superior”.

Analistas da indústria tinham previsto que o Departamento de Justiça de Trump poderia tentar bloquear o acordo, potencialmente levando a um período prolongado de litígio. Mas Sarandos demonstrou confiança na capacidade da Netflix de concretizar o negócio.

Uma reportagem publicada na quarta-feira pelo Politico sobre a próxima visita de Sarandos gerou especulações sobre se o presidente da Netflix teria um encontro pessoal com o presidente. Isso aparentemente levou a Casa Branca a esclarecer na quinta-feira que Sarandos não se reuniria diretamente com Trump.

“Netflix está a reunir-se com membros da equipa da Casa Branca”, disse um funcionário da Casa Branca à CNN.

Isso coincidiu com a versão de um porta-voz da Netflix, que afirmou que a liderança da empresa não solicitou, em primeiro lugar, uma reunião com Trump.

O porta-voz da Netflix também disse que a visita com os membros da equipa foi marcada há duas semanas e meia. O momento é digno de nota porque a disputa pela Warner se intensificou nos últimos dias, com as críticas de Trump a Susan Rice, por exemplo

Sarandos esteve na Casa Branca repetidamente nos últimos meses, embora nem sempre para se encontrar com o presidente.

Em paralelo, David Ellison tomou uma série de medidas para estabelecer uma relação próxima com Trump. Os dois homens tiveram uma reunião privada na Casa Branca no início deste mês, conforme noticiado anteriormente pela CNN.

Pouco depois do encontro com Ellison, Trump disse a um jornalista que “não estive envolvido” na disputa sobre a WBD, apesar de ter afirmado anteriormente, sobre o acordo com a Netflix: “Também estarei envolvido nessa decisão.”

Alejandra Jaramillo e Liam Reilly contribuíram para a reportagem.

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