"Precisamos de mantimentos, precisamos de medicamentos e, por favor, reconstruam a ponte": o apelo de um Paquistão em situação de catástrofe

29 ago, 07:10
Cheias no Paquistão

Chuvas diluvianas continuam a provocar cheias e enxurradas como não há memória no Paquistão. Há milhões de pessoas sem casa, sem comida e sem água potável. Uma calamidade que se soma à crise económica e à crise política que o país já enfrentava

Mais de mil pessoas já morreram no Paquistão por causa de enormes chuvadas, que têm provocado um pouco por todo o país cheias e enxurradas diluvianas. Mais de quatro milhões de pessoas estarão deslocadas, ou porque perderam as suas casas, levadas pelas águas e lamas, ou porque estas não garantem condições de segurança. Segundo as autoridades, pelo menos 700 mil habitações já foram destruídas - muitas delas, casas precárias feitas de pedras e lama, que se dissolveram e foram arrastadas pelas enxurradas.

De acordo com os dados da Autoridade Nacional de Gestão de Catástrofes do Paquistão, as cheias deste mês e do mês passado já afetaram pelo menos 4,2 milhões de pessoas. Para além de um milhar de mortos, contam-se mais de 13 mil feridos. 

O ministro paquistanês das alterações climáticas elevou a mais de 30 milhões o número total de afetados por estes fenómenos climatéricos extremos.

Milhões de paquistaneses correm risco de vida, à espera de comida, de água potável e de abrigo, com as equipas de salvamento da proteção civil e os grupos de militares chamados de urgência em grandes dificuldades para chegar às comunidades mais isoladas. Províncias como Sindh e Balochistan são as mais afetadas, mas as regiões montanhosas de Khyber Pakhtunkha estão a ser também gravemente atingidas.

"Precisamos de mantimentos, precisamos de medicamentos e, por favor, reconstruam a ponte, ficámos sem nada", escreveram os populares de uma aldeia isolada num apelo desesperado para uma equipa de reportagem da BBC que conseguiu chegar perto da povoação, no Vale de Manoor, nas montanhas de Khyber Pakhtunkha. Os jornalistas da BBC estavam numa das margens do rio, com uma corrente torrencial de água e lama que nos últimos dias destruiu as pontes existentes, isolando a aldeia onde morreram, pelo menos 15 pessoas, em resultado das inundações. As aldeias, que fazem parte de uma das rotas turísticas mais conhecidas do Paquistão, num vale famoso pelo trekking e pelo turismo de aventura, estão agora praticamente isoladas, sem ligação à cidade principal a não ser pela estrada da montanha, que demora mais de oito horas a ser percorrida.

"A minha casa e os meus filhos estão do outro lado do rio”, relatou uma habitante local, entrevistada pela BBC. “Há dois dias que estou aqui à espera, pensando que o governo poderia vir reparar a ponte. Mas as autoridades dizem-nos que devemos começar a andar à volta do outro lado da montanha para chegar às nossas casas. Mas isso é uma caminhada de oito a dez horas. Eu sou uma mulher velha. Como posso caminhar tanto?"

"Nunca vi destruição nesta escala"

Nas monções deste ano, que têm atingido uma violência extrema, sem paralelo em anos recentes, mais de três mil quilómetros de estradas já desapareceram, e centenas de pontes também terão sido levadas pela fúria das águas. Essa foi uma das razões para a mobilização das Forças Armadas paquistanesas, chamadas para ajudar as agências civis a alcançar as áreas isoladas - a muitas delas, só é possível o acesso por helicóptero.

E nalguns casos é difícil aferir qual o verdadeiro ponto da situação, pois boa parte das zonas afetadas deixaram de ter ligações telefónicas fixas ou cobertura da rede de telemóvel. Em Quetta, a capital do Baluchistão, todos os serviços de telecomunicações foram suspensos, deixando a cidade com mais de 2 milhões de habitantes completamente isolada do resto do mundo.

"Nunca vi destruição nesta escala, acho muito difícil de pôr em palavras ... é esmagador", disse este fim de semana o ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Bilawal Bhutto-Zardari, em entrevista à Reuters. 

Para além do impacto imediato, o governante lembrou que muitos campos agrícolas, que que deveriam proporcionar a maior parte do sustento da população local, simplesmente desapareceram. "Obviamente isto terá um efeito sobre a situação económica global", disse o responsável do governo paquistanês.

Crise económica e financeira…

As cheias vêm agravar ainda mais a situação do país do Sul da Ásia, que já se encontrava numa profunda crise económica, com uma inflação elevada, uma moeda em desvalorização, escassez de moeda estrangeira para importações e um elevado défice da conta corrente.

Desde 2019 que o Paquistão está sob um programa de resgate do FMI, cuja direção executiva vai decidir esta segunda-feira se liberta ou não uma nova tranche de apoio ao país. Estão em causa, nesta fase, 1,2 mil milhões de dólares - valor que poderá ser mais alto se o FMI aceitar acrescentar ajuda imediata para que as autoridades paquistanesas possam acudir à situação de emergência que o país enfrenta.

Para além de enfrentar uma profunda crise económica e financeira, o governo de Islamabade também enfrenta um cenário de crise política, que se arrasta desde abril, quando o anterior primeiro-ministro foi destituído por uma moção de censura.

Segundo organizações não governamentais e observadores independentes a atuar no país, o governo, politicamente fragilizado e sem margem financeira, tem ainda mais dificuldades para enfrentar a emergência em curso.

Segundo Mosharraf Zaidi, chefe executivo do Tabadlab, um think tank de Islamabad, tanto o governo nacional como os governos provinciais “lutam para satisfazer até mesmo as necessidades básicas”. E, apesar dos esforços, as emergências ou catástrofes parecem ficar em grande parte sem resposta, segundo contou ao Nikkei Asia.

… e crise política

O atual governo, liderado por Shehbaz Sharif, tomou posse após a destituição de Imran Khan, que havia sido eleito primeiro-ministro em 2018. Sem apoio parlamentar maioritário, e tendo caído em desgraça junto dos generais que continuam a controlar na sombra a política paquistanesa, Khan tentou um golpe constitucional, precipitando eleições - mas foi travado pelo mais alto tribunal do país.

Agora, está envolvido numa série de processos judiciais, acusado de diversos crimes, desde enriquecimento ilícito e financiamento ilegal do seu partido até acusações de terrorismo. 

Porém, na semana passada, o seu partido ganhou uma eleição para um lugar vago na Assembleia Nacional em Karachi, o que reforçou a perceção de o PTI, o partido de Khan, apesar de estar na oposição continua a ser o mais forte do país. E o próprio Khan continua a gozar de elevados índices de popularidade, ou não fosse, ainda hoje, o mais lendário capitão de críquete da seleção nacional paquistanesa. 

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