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Coordenador e editor de Religião e Cidadania TVI/CNN Portugal

Omissões

27 abr, 14:17
Funeral do Papa Francisco (EPA)

As exéquias de um Papa deixam um registo de comoção entre multidões, mas também de imagens que percorrem o mundo. Há uma grande diferença entre a simplicidade nas últimas vontades de Francisco e a inevitável grandiosidade cerimonial e mediática – nestes momentos, os órgãos de comunicação social resguardam-se numa espiral com abordagem segura, em consenso, acompanhando exaustivamente o acontecimento.

A cerimónia fúnebre de um Papa envolve-se numa quase encriptada leitura. É o caso, naturalmente, dos símbolos, gestos, momentos litúrgicos ou eucarísticos. Esta cerimónia ofereceu também imprevisíveis e improvisados pormenores: a oportunidade, no interior da basílica de São Pedro, antes da saída da urna para a celebração, de presidentes dos EUA e da Ucrânia se sentarem frente a frente, numa conversa cara a cara, e, posteriormente, a alteração do rigoroso protocolo da Santa Sé, que colocou Zelensky na primeira fila dos chefes de estado, quando, pela ordem protocolar, devia ter ficada mais atrás.

Tudo isto suscita legitimas análises, mas há um momento da cerimónia que, no que à vida da Igreja diz respeito, pode ter mais relevância do que se pensaria: a homilia do cardeal Re, que presidiu à cerimónia fúnebre.

Vale a pena recuperar a memória das homilias proferidas nos dois anteriores funerais de um Papa.

Em 2005, o então decano Joseph Ratzinger, que viria a ser eleito Papa Bento XVI, realçou os dias derradeiros no sofrimento de João Paulo II e citou o seu penúltimo livro – “Levantai-vos, vamos!” – para apresentar alguém que, no seu tempo e contexto, contrariou uma “fé cansada” e “procurou o encontro com todos”.

No funeral do Papa emérito Bento XVI, em 2023, foi o Papa em exercício a escrever a homilia. Francisco disse que o antecessor teve um “programa de vida que inspira e pretende modelar”, com “dedicação agradecida e orante”, tendo percebido que “não podia carregar sozinho aquilo que, na realidade, nunca poderia sustentar sozinho”.

O legado de um Papa é muito maior do que qualquer homilia que lhe seja dedicada. Num e noutro caso, Ratzinger e Bergoglio sublinharam o alcance de pormenores que distinguem na derradeira homenagem.

No caso de Francisco, o decano Giovanni Battista Re, tentou uma resenha biográfica de Jorge Mario Bergoglio, numa espécie de síntese alternativa ao rogito que acompanha o féretro do Papa. Uma tarefa que ficaria, como ficou, sempre aquém.

O cardeal italiano tem 91 anos e já não vai entrar no Conclave que elege o próximo Papa. Na homilia, Re referiu a “manifestação popular de afeto e adesão”, os “sérios problemas de saúde” de Francisco, que ainda assim quis, na última Páscoa, “saudar, do papamóvel aberto, toda a grande multidão”. Francisco, disse Re, estabeleceu “um contacto direto” com as pessoas, “desejoso de ser próximo”, com uma “atenção especial às pessoas em dificuldade, gastando-se sem medida, em particular pelos últimos da terra, os marginalizados”, sem deixar de estar “atento àquilo que de novo estava a surgir na sociedade”. Na senda de João XXIII – o Papa do aggiornamento, que abriu o Segundo Concílio do Vaticano –, Francisco insistia que a Igreja não deve atrasar-se no acompanhamento de uma “mudança de época”.

Na memória dos 12 anos de pontificado, a homilia destacou a preocupação de Francisco em fazer da Igreja “uma casa para todos, com as portas sempre abertas”, as viagens, particularmente a Lampedusa, a Lesbos e ao Iraque – que, na autobiografia, Francisco descrevera como a mais impactante.

Foi ainda salientado o ritmo do encontro e da solidariedade, em contraste com a “cultura do descarte”, a fraternidade e amizade social refletida na encíclica Fratelli tutti, simbolicamente rubricada em 2019 com um alto representante do Islão sunita no documento sobre Fraternidade Humana, o cuidado corresponsável com a casa comum na encíclica Laudato Sí, a voz “perante o eclodir de tantas guerras nos últimos anos, com horrores desumanos e inúmeras mortes e destruições”, implorando “incessantemente” à sensatez, “convidando a uma negociação honesta para encontrar soluções possíveis”.

Mas foram duas referências de carater pessoal e três omissões que mais surpreenderam na homilia do cardeal decano. Como quem dá indicação de futuro, disse que “o Papa Francisco escolheu percorrer este caminho de entrega até ao último dia da sua vida terrena” e que sempre “conservou o seu temperamento e a sua forma de orientação pastoral, imprimindo de imediato a marca da sua forte personalidade no governo da Igreja”.

Re não teve uma única palavra sobre a denúncia do clericalismo ou a “tolerância zero” quanto aos abusos sexuais, marcas inapagáveis no pontificado Francisco, nem qualquer referência direta a um tema incontornável no legado, sem o qual este nem se entenderia na sua globalidade: a sinodalidade, ou, dito de outra forma, a dinâmica sinodal.

É a movimentação mais participada e crítica na história recente da Igreja, que colocou os cristãos católicos de todo o mundo, clero e leigos, homens e mulheres iguais no batismo, em escuta e debate sobre os grandes desafios internos, a inclusão, a corresponsabilidade, contrariando o “clericalismo”, a “masculinização” e o “abuso de poder” (são expressões do Papa Francisco).

Francisco insistiu nesta urgência sinodal participada, ampliando o processo até à realização de uma assembleia eclesial em 2028. Até lá, as comunidades devem pôr em prática experiências locais de inclusão e escuta. Este é um tema incontornável na Igreja atual – “caminhar juntos”, na diversidade.

A dinâmica sinodal lançada por Francisco agarrou um futuro, um caminho de futuro na Igreja, tem uma implementação obviamente distinta consoante a geografia, a experiência eclesial concreta, e está a gerar algumas reações negativas de setores mais clericalizados, imobilistas ou mesmo “retrocedistas” (outra palavra usada pelo Papa Francisco).

Esta omissão do cardeal Re não é necessariamente contrária à sinodalidade, mas notou-se e permite essa leitura.

Para dar continuidade às lúcidas intuições de Francisco, a palavra cabe agora aos cardeais reunidos em congregações-gerais preparatórias do Conclave, sobretudo aos eleitores, defensores e promotores da sinodalidade. A Igreja para “todos, todos, todos” só é no respeito pela diversidade e tem óbvias implicações humanas, relacionais, estruturais e legislativas. O que o próximo Papa disser – ou não… –, logo no início do pontificado, sobre a dinâmica sinodal, indicará quanto do legado de Francisco continuará a ser referência para a Igreja.