CRÓNICA || Morreu hoje o Papa Francisco - o primeiro, o argentino, o reformista. Tinha 88 anos. Viveu muito, nem sempre bem, nem sempre bem-amado, mas viveu como pretenderia: em proximidade, com desapego, a transformar
Jorge Mario Bergoglio partiu.
E, com ele, leva o peso de um pontificado que foi tão luminoso quanto solitário. O primeiro Papa do Hemisfério Sul, o primeiro jesuíta a sentar-se no trono de Pedro, o primeiro a escolher o nome de Francisco - um nome que se tornou uma bússola para os gestos que definiriam a sua passagem pela História.
Quando, na noite de 13 de março de 2013, a sua figura discreta apareceu na varanda da Basílica de São Pedro e saudou os fiéis com um desarmante
— Buona sera
foi como se um vento novo atravessasse os corredores milenares do Vaticano. Era o anúncio de uma Igreja que queria abandonar as vestes imperiais para regressar à simplicidade do Evangelho. Um Papa que recusava as pompas, que se deslocava de metro, que pagava as próprias contas de hotel. Um Papa que falava aos esquecidos do mundo.
Mas ser Francisco não foi um exercício de candura, foi um campo de batalha.
O Papa argentino enfrentou tempestades dentro e também fora dos muros leoninos. O peso da Cúria Romana, resistente a mudanças, os escândalos de abusos que corroeram a credibilidade da Igreja, as guerras culturais que o viram ser chamado tanto de revolucionário quanto de traidor da tradição.
Mas ele seguiu, com a lentidão de quem carregava cruzes invisíveis, mas também com a determinação de quem sabe que a Igreja não podia ser museu de relíquias, mas sim hospital de campanha.
Para os deserdados do mundo, foi um irmão. Lavou os pés de refugiados, abraçou os doentes com uma ternura que a burocracia eclesiástica tantas vezes esquece, fez da misericórdia a sua política e do acolhimento a sua doutrina. Construiu pontes entre religiões, entre cépticos e crentes, entre progressistas e conservadores, entre aqueles que sempre se sentiram filhos da Igreja e aqueles que, durante séculos, ouviram apenas portas a fechar-se.
Morre Francisco, mas o que fica da sua passagem? - perguntamos. Ficam as imagens de um Papa solitário sob a chuva, na Praça de São Pedro deserta durante a pandemia, carregando o peso do medo do mundo inteiro. Ficam as palavras, algumas ferozes, outras doces, mas todas lançadas com a precisão de quem sabia que o tempo era curto e a resistência era tamanha. Fica a luta pela reforma da Igreja, ainda inacabada, ainda incerteza.
Fica, sobretudo, o exemplo - o de um Papa que, no fim, apenas quis ser chamado de padre. De Francisco, como o santo que abraçou os leprosos e falava com os pássaros.
E agora? - perguntamos. Agora fica a poeira do tempo, a inevitável reinterpretação histórica. O que a Igreja fará com o seu legado, se o guardará como relíquia ou se o seguirá como profecia, é ainda um mistério. Mas uma coisa é certa: o mundo teve um Papa que, por um breve instante, fez a instituição mais antiga do Ocidente parecer nova de novo. E isso, por si só, já foi um milagre.
A sua visão de uma Igreja voltada para os pobres e para os marginalizados abriu portas, mas também feriu susceptibilidades. Em muitos momentos, enfrentou oposição interna feroz, de sectores que viam nas suas reformas uma ameaça à tradição. No entanto, mesmo diante de críticas e resistências, Francisco manteve-se firme no seu compromisso com uma fé encarnada, uma fé que se traduz em acção e presença junto aos que sofrem.
No campo geopolítico, não hesitou em ser mediador de crises, construtor de diálogos improváveis e voz profética em tempos de guerra e injustiça.
Do conflito na Síria à crise climática, da questão dos migrantes à exploração desenfreada dos recursos naturais, Francisco foi um Papa que apontou para as feridas abertas da humanidade, pedindo mais compaixão e mais responsabilidade.
Os seus escritos, como a encíclica Laudato si’, sobre o cuidado com a casa comum, e Fratelli tutti, sobre a fraternidade universal, tornaram-se marcos de um pensamento que transcendeu o catolicismo e ecoou em diversas tradições e movimentos sociais. Ele não apenas pregou a solidariedade - fez dela um imperativo moral e político.
Nos últimos anos, o peso da idade e da doença tornou-se visível. A bengala, depois a cadeira de rodas, os gestos mais lentos, as pausas mais longas.
Mas nem isso o impediu de continuar a desafiar a Igreja e o mundo, como quando decidiu abrir caminho para um Sínodo que colocaria as mulheres e os leigos no centro do debate. Era a sua forma de dizer que a Igreja não podia continuar a ser apenas um espaço de poder clerical, mas sim uma comunidade viva, pulsante, aberta ao espírito.
Agora, Francisco pertence à História.
O seu rosto, marcado pelo tempo e marcado pelas batalhas, estará para sempre associado a uma tentativa de reforma que, mesmo inacabada, já deixou marcas profundas. Terá sido compreendido? - no silêncio da partida, perguntamos. O tempo, e a Igreja que ele tanto amou, darão a resposta.
A sua humildade radical ecoará por décadas. No momento da sua eleição, recusou a cruz dourada e manteve a de ferro. Escolheu viver em Santa Marta em vez dos aposentos apostólicos, transformando gestos simples em mensagens poderosas. Ele compreendia que a fé verdadeira se manifesta no serviço e na renúncia ao poder.
Durante os sínodos, a sua liderança era mais de escuta do que de comando. Queria uma Igreja onde as decisões não fossem impostas, mas discernidas. Essa postura incomodou, criou resistências, mas reflectiu um profundo desejo de fidelidade ao Evangelho.
Para ele, os pastores deviam ter o “cheiro das ovelhas” e estar próximos da gente e entender as suas dores e entender as suas esperanças.
Os seus encontros com líderes mundiais foram mais do que diplomacia: foram actos de construção de pontes. Da reconciliação entre Cuba e os Estados Unidos às conversas com líderes islâmicos, Francisco mostrou que a Igreja não é, não deveria ser, uma fortaleza fechada, mas um espaço de diálogo. Esse desejo grande de aproximação também foi visível na relação com os ortodoxos, os protestantes e os judeus.
Mas foi nas ruas e nas periferias que Francisco se sentiria mais em casa.
Trouxe consigo a experiência de um pastor que caminhava entre os pobres de Buenos Aires. Visitou prisões, abraçou os esquecidos, ouviu os excluídos. Cada viagem apostólica foi, tentou ser, um testemunho do seu compromisso com os que não têm voz.
O seu legado será debatido, contestado, reinterpretado.
Mas uma coisa é certa - respondemos. Francisco não passou pelo mundo como um burocrata da fé. Foi um homem que acreditou que a Igreja deveria estar onde há dor, onde há solidão, onde há injustiça. E, até ao fim, foi fiel à sua visão.
Francisco não foi apenas um Papa. Foi um sinal de contradição, um profeta destes nossos tempos, uma testemunha de que o Evangelho é uma força viva.
O nome de Francisco ecoará sempre que esta sua Igreja se perguntar para onde deve ir. Para onde deve ir? A resposta residirá talvez no que o Papa sempre, tanto, repetiu: ir ao encontro, caminhar em conjunto, servir com amor.