"Espero que o próximo Papa seja lúcido, inteligente e cristão para fazer exatamente o mesmo que Francisco"

7 mai 2025, 07:00
Papa Francisco (AP)

ENTREVISTA || Num momento decisivo para o futuro da Igreja Católica, o sociólogo, professor catedrático e ex-deputado José Manuel Pureza reflete sobre o papel do futuro líder da Igreja católica, à luz do legado de Francisco. Numa conversa centrada nos direitos humanos, na justiça social e inclusão, sublinha que a única forma de garantir a continuidade é "aprofundar"

Católico ativo, José Manuel Pureza considera que o próximo Papa vai ter um papel “importante e difícil”. Em conversa com a CNN Portugal, no dia em que começa o conclave, o sociólogo considera que a Igreja não pode deixar de ter no centro das suas decisões as minorias, os mais fracos, os mais pobres.

Num mundo cada vez mais polarizado, José Manuel Pureza diz que espera “que o próximo Papa seja lúcido, inteligente e cristão para” seguir o exemplo de Francisco “em muitos momentos de tensão política e tensão internacional, de chamar para o centro das discussões os mais fragilizados”. O antigo deputado espera que o próximo pontificado seja marcado por um “convite à paz”. “Não de uma paz fofa, mas de uma paz que seja feita de justiça social, que seja feita de conjugação de esforços, de justiça ambiental também”, diz José Manuel Pureza.

Que papel se espera do próximo Papa na defesa dos direitos humanos, em contextos de guerra e de crise humanitária?

O legado de Francisco é muito forte do ponto de vista da centralidade que conferiu à defesa dos direitos dos mais fracos e dos mais vulneráveis. E fê-lo de maneiras muito diversas. Com gestos e com palavras fortes. Francisco olhou para o mundo com os olhos dos mais pobres, dos mais fragilizados, das vítimas de discriminação. Isso confere, na esfera pública, uma grande importância a estas vozes, a estas pessoas que normalmente são descartadas.

Depois desta lufada de ar fresco que veio com o pontificado Francisco a este respeito, qualquer contraste com isso será muito negativo.

Isso significa exatamente o quê?

Significa que, relativamente às dinâmicas de guerra e de conflito, a Igreja não pode deixar de ter um papel, uma palavra muito forte de convocação dos decisores políticos às soluções que protejam os mais fracos.

E de convite à paz…

Convite à paz sempre na perspetiva, não de uma paz fofa, mas de uma paz que seja feita de justiça social, que seja feita de conjugação de esforços, de justiça ambiental…

Não há possibilidade de voltar atrás?

Há esse risco, mas creio que não seria bem aceite. E mais: ficaria um vazio impossível de preencher. Se essa presença, se essa voz, se essa convocação moral, que tem um impacto político forte, deixar de ser feita, fica um vazio que as forças mais guerreiras, mais conservadoras, mais desrespeitadoras dos direitos das pessoas vão certamente aproveitar.

Considerando a trajetória recente da Igreja Católica em relação a temas como a migração, o racismo, a desigualdade social, acredita que o novo pontífice deverá aprofundar ou reorientar de alguma forma esta abordagem?

Não se trata de acreditar, porque o exercício de poder que agora começa vai determinar muita coisa. Mas a minha esperança é de que seja aprofundar. E a palavra ‘aprofundar’ é a palavra certa. Tem-se falado muito, nos últimos dias, de ‘continuidade’. E creio que a única forma de garantir efetivamente continuidade do caminho que foi encetado por Francisco é aprofundá-lo, não é dar-lhe uma continuidade passiva.

Há muita gente que está apostada na inércia. Em deixar andar, para ir diminuindo, a pouco e pouco, a velocidade. E em matérias como a centralidade dos pobres, como a ecologia integral, como a reforma das estruturas da Igreja, como o combate aos abusos sexuais perpetrados no seio da Igreja, como o papel das mulheres dentro da Igreja (tema sobre o qual se deram passos muitíssimo tímidos), ou há aprofundamento, ou então aquela ideia de que isto fica em ponto morto é uma ilusão, porque quando as coisas ficam em ponto morto, deste ponto de vista, a possibilidade de voltar atrás é muitíssimo grande.

Deve haver aprofundamento com passos mais corajosos e mais determinados ainda.

Lembro que Francisco, já depois de ter saído do internamento no Hospital Gemelli, deixou convocada uma Assembleia Eclesial de caráter universal, que se realizará em 2028, e onde os cardeais, os bispos, os padres, as freiras e os leigos, homens e mulheres, terão um papel de igualdade. Há um horizonte para 2028 que muitos tentarão que não se cumpra. Isso significa que, do lado de quem olha para a Igreja dita e praticada por Francisco com expectativa, a palavra ‘aprofundamento’ é a única palavra certa.

José Manuel Pureza, sociólogo, professor catedrático e ex-deputado do Bloco de Esquerda

O futuro Papa pode adotar uma posição mais progressista, precisamente sobre o direito das mulheres dentro da Igreja e na sociedade?

Essa é uma questão decisiva. Na verdade, já se percebeu há muito tempo que onde o conservadorismo ataca mais, dentro da Igreja e fora dela, é claramente no reconhecimento dos direitos iguais para as mulheres.

Reconheço que Francisco deu alguns passos importantes no plano do simbólico. A nomeação de uma mulher para perfeita de um dicastério não é coisa pouca, mas há muitíssimo por fazer. Não está tudo, mas está muitíssimo por fazer.

O contraste entre uma Igreja de todos, todos, todos e o papel que é reservado às mulheres é insuportável.

Uma exigência de coerência, uma exigência de lucidez e uma exigência de dignidade e de decência aponta para a necessidade de serem dados muitos mais passos, com inteligência, com certeza, mas, sobretudo, com uma grande determinação para que as mulheres sejam sujeitos de pleno direito dentro da comunidade eclesial como têm de ser desde sempre.

Nas paróquias, alguma vez elas deixarão de ser as zeladoras da Igreja e as catequistas e pouco mais que isso?

Nunca deixarão de ser isso, certamente, como nenhum homem deveria deixar de ser isso também. Mas o que é preciso não é isso. O que é preciso é que isso não sirva de álibi para fazer o discurso de que elas são pessoas que têm muito cuidado com o espaço eclesial e que têm relações de cuidado com as pessoas, mas depois, no que diz respeito à voz, à autoridade, à decisão, em todas as estruturas da Igreja, não se avança.

Muitas vezes, a ideia, a apologia do cuidado e da proximidade serve para cobrir a falta de reconhecimento de um papel muito mais acrescido por parte das mulheres e isso não pode ser. Há uma grande responsabilidade do próximo Papa na condução dessa dimensão de conversão da Igreja a uma igualdade plena dos membros do seu povo.

Falemos dos direitos dos homossexuais e da comunidade LGBTQIA+. Que impacto é que o próximo pontificado poderá ter nesta comunidade? É possível que venha a acontecer um maior nível de inclusão? A Igreja está preparada para essa inclusão?

O caminho que Francisco fez a esse respeito foi um caminho muito inteligente. Porque, no essencial, o que fez foi acolher a realidade das pessoas concretas e inibir-se de fazer um julgamento com base em tabelas de preceitos abstratos. Creio que a Igreja não pode, não tem como ser imune a uma dinâmica social muito forte de reconhecimento dessa expressão da sexualidade, dessa expressão da condição humana.

Não pode, não deve travar, não podem erguer-se muros em relação a isso. Francisco utilizou muito a palavra ‘misericórdia’, e creio que está certo. Esse olhar de coração.

E como vai ficar a situação dos católicos recasados?

Estamos sempre a falar do mesmo. Em todos estes assuntos que temos estado a tocar temos sempre o mesmo diapasão. Na verdade, houve caminho, houve, sobretudo, uma expressão inequívoca de disponibilidade para o acolhimento, portanto, transformou-se uma atitude de julgamento severo, de prática administrativa cega à humanidade, numa abertura, num estender de mão, numa vontade de acolher e isso coroado na expressão tão forte, dita em Lisboa, da Igreja para “todos, todos, todos”, onde cabem “todos, todos, todos”.

Seja no que diz respeito às mulheres, seja no que diz respeito à comunidade LGBTQIA+, seja no que diz respeito aos divorciados recasados, a minha expectativa é a mesma: ‘aprofundamento’ para que essa convocação da Igreja a ser uma Igreja de todos, e de todas.

Nas paróquias, nas estruturas eclesiais concretas de pequena dimensão, a questão dos divorciados recasados não é sentida pelas pessoas em geral como nada de pecaminoso. As pessoas, os casados, os divorciados recasados que se acercam da Igreja para continuarem a ter uma vida de comunidade eclesial, é sentida como algo normalíssimo, como algo até desejável por parte das comunidades.

Ainda há padres que negam a comunhão, por exemplo…

Com certeza. Porque tiveram essa aprendizagem de uma coisa severa, de uma coisa carrancuda, de uma coisa julgadora, e não de uma Igreja de acolhimento e de todos. Só podemos esperar que a Igreja e o Papa que a vier a coordenar tenham a inteligência e a humanidade cristã de dar mais um passo nesse sentido.

Acredita, portanto, que o próximo Papa vai conseguir manter o equilíbrio entre a tradição doutrinária da Igreja e alguma abertura aos novos paradigmas dos direitos humanos universais?

Há um livro, talvez o mais conhecido, o mais importante, do teólogo da libertação brasileiro, Leonardo Boff, cujo título é “Igreja, Carisma e Poder”. E Francisco soube unir essas duas dimensões. No seu pontificado, na sua palavra, no seu gesto, Francisco foi capaz de, não digo acabar com essa contradição - porque é uma contradição -, mas soube unir essas duas dimensões.

O que espero que possa acontecer no futuro é que essa dialética entre o carisma, o serviço, o acolhimento e o poder possam continuar a caminhar de uma forma que ponha no centro o essencial do Evangelho, que é o amor ao próximo e em especial aos mais pobres. Se assim for, creio que a Igreja poderá continuar a ser um lugar de esperança e um lugar de caridade no sentido de acolhimento do outro. Se assim não for, o caminho para a irrelevância é imensurável.

Seria um retrocesso difícil de combater?

Com certeza que sim.

Num mundo cada vez mais polarizado, espera que o novo Papa assuma um papel de mediador ativo nos grandes conflitos sociais e políticos?

O papel que Francisco quis ter e soube ter, em muitos momentos de tensão política e tensão internacional, foi o de chamar para o centro das discussões os mais fragilizados, o serviço aos mais fragilizados. Aquilo que foi tentativa de intermediação, aquilo que foi serviço às comunidades envolvidas em processos muito polarizados, foi sempre na base da centralidade conferida aos pobres, aos frágeis, aos descartados. E, portanto, não foi uma mediação político-diplomática comum.

Isso é o que se espera de uma Igreja seguidora de Jesus. Sempre o serviço aos mais pobres, sempre o serviço aos mais frágeis.

Deixe-me só dar-lhe um exemplo: toda a mensagem e toda a prática de Francisco em relação às questões da ecologia e do cuidado com a nossa casa comum foi sempre na base daquilo que Francisco chamou de conjugar o clamor da terra com o clamor dos pobres.

Esta articulação entre o cuidado da terra, o cuidado da criação e o cuidado com os pobres foi, digamos assim, a chave de leitura dessa grande força que Francisco quis dar à questão ecológica. Sempre os pobres, sempre os frágeis, sempre os descartados.

Por isso mesmo, o que espero é que este caminho que Francisco trilhou seja o mesmo, certamente com outra palavra, mas sempre com essa centralidade conferida aos mais pobres. Porque é isso que faz com que Francisco diga não à guerra, não ao armamento, sim à mediação, sim à paz por meios pacíficos.

Espero que o próximo Papa seja lúcido, inteligente e cristão para fazer exatamente o mesmo.

E qual a importância do perfil geográfico e cultural do futuro Papa?

Esta é uma questão mais difícil. Não tenho um conhecimento, uma informação que me permita responder com muita certeza. Mas há uma coisa que sei: neste conclave vão estar cardeais de 71 nacionalidades. E sabemos que uma das dinâmicas postas em marcha por Francisco (não foi ele que a inaugurou, mas aprofundou-a muito) foi precisamente a dimensão de trazer para as estruturas da Igreja aquilo que vamos chamando as periferias. Também as periferias geográficas.

Haverá um dia, não sei se será agora, em que o Papa não seja, digamos, não seja do centro do sistema mundial. Francisco inaugurou isso, ao dizer que vinha do fim do mundo. Talvez um asiático, um africano… mas isso não é o mais importante, não creio que o mais importante seja ser asiático, africano, europeu ou americano. O mais importante é ele ser a voz das periferias, não só geográficas, mas sobretudo das periferias sociais.

A geopolítica interna do conclave também há de estar marcada por essa realidade de diversidades continentais e culturais e até étnicas. Mas não sei exatamente que peso é que isso vai ter. Espero que esse peso não seja determinante, a não ser na exata medida em que essa atenção às periferias seja atenção às periferias todas, não apenas às geográficas, mas sobretudo às sociais.

O Papa Francisco foi sempre uma voz muito crítica do atual modelo económico global. O próximo Papa, o sucessor de Francisco, deverá manter essa linha?

Francisco teve uma palavra muito forte a esse respeito - a condenação da economia que mata. A palavra claríssima de condenação deste modo de organização económica capitalista, neoliberal, etc. Francisco foi muito claro desse ponto de vista.

É bom reconhecer que essa leitura crítica da organização económica mundial já tinha sido feita também anteriormente. Os Papas que o antecederam foram igualmente críticos. O próprio João Paulo II, desse ponto de vista, foi um Papa bastante claro na condenação da forma da organização económica do mundo, do capitalismo contemporâneo.

Mas o capitalismo contemporâneo está a mudar. Está a radicalizar-se. Está a perder mecanismos de travagem.

Essa é uma missão que se espera que o Papa que vem aí desempenhe, sabendo que o vai fazer numa circunstância mais difícil ainda. Porque, de João Paulo II para Bento XVI, de Bento XVI para Francisco, e de Francisco, agora, para o próximo Papa, o caminho que tem sido trilhado do ponto de vista da organização do poder económico em termos internacionais, globais, tem sido um caminho de radicalização dos traços mais perversos desse modo de organização económica.

O próximo Papa vai ter aqui uma tarefa muito importante. E voltamos ao mesmo: olhando essa realidade do ponto de vista dos descartados e dos frágeis, vai ter de ter coragem para denunciar e para apresentar alternativas.

Vai ter uma tarefa muito importante ou muito difícil?

As duas coisas. Vai ter uma tarefa muito importante na exata medida em que há um caminho que está em marcha e que o próximo Papa tem de dar sinais de qual é que acha que deve ser a orientação da Igreja. E é um caminho muitíssimo difícil, porque a comunidade dos cristãos vive num mundo contemporâneo, não vive no céu dos anjos. O mundo marcado por tensões tão fortes, por dinâmicas tão violentas, é o mundo da Igreja.

O mundo da Igreja não é outro. Não é dentro do Vaticano nem dentro das paróquias. É a comunidade humana que está em jogo.

É uma tarefa dificílima, aliás, também por fatores internos. Tem a ver com a reação de alas mais conservadoras ou de uma grande inércia cúmplice da travagem destas dinâmicas transformadoras, que vão estar presentes, evidentemente, vão estar presentes no conclave e vão estar presentes no dia a dia da Igreja. É uma missão muito difícil e cá estaremos, todas e todos, para fazer caminho.

Que mensagem é que gostava de ver o próximo Papa enviar ao mundo no primeiro discurso que fizesse na janela da Praça de São Pedro?

Estou muito influenciado pela noite em que Francisco foi escolhido. E em que, chegando à varanda, a primeira coisa que disse foi “Irmãos e irmãs, boa noite”. Que foi uma coisa que imediatamente deu um sinal de comunhão com todas as pessoas. E depois, a seguir, continuou, não exatamente com estas palavras, mas disse “vão para casa, vão jantar, descansem”.

A primeira palavra que gostaria que pudesse acontecer seria essa palavra de igualdade - “Eu sou o Bispo de Roma, não sou o chefe todo-poderoso de uma instituição mundial”. Isso seria muito importante.

E, nas primeiras palavras para o povo cristão e para o mundo, eu daria muita importância a essa decisão de manter, de forma corajosa, os pobres, os fragilizados e os discriminados como centro da atenção.

O próximo Papa não vai ser e não pode ser o Papa dos bispos e dos cardeais. Tem de ser o Papa das pessoas que têm realmente casas de 30 metros quadrados. Quando têm.

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