Líder da Igreja Católica recebeu seis vítimas dos abusos sexuais na Igreja, mas há quem ache a emenda pior que o soneto. Depois disso houve tempo para um dia diferente no Santiago Bernabéu
Não é José Mourinho, não é Vitinha e não é Michael Olise, pelo menos ainda. “Leão XIV é a contratação-estrela deste estádio” anunciou em pleno Santiago Bernabéu o organizador do evento que levou o Papa até ao recinto do Real Madrid, Christian Gálvez, naquele que foi o momento alto do terceiro de vários dias do líder da Igreja Católica na capital espanhola, que se apanha num total turbilhão de emoções, já que também por lá se realizam vários concertos de Bad Bunny.
Leão XIV deu então uma volta de honra e aceitou ele próprio entrar na metáfora, anunciando um autêntico “golaço” com este evento.
“Queridos irmãos, queridas irmãs, boa tarde. Fazer um golo neste estádio é o momento mais impressionante de um jogador, mas a igreja de Madrid fez algo para recordar. Isto foi um golaço”, afirmou, pedindo comunhão a toda a cidade em torno de um bem comum.
Um pedido mais bem-disposto para desanuviar um dia que começou pesado, com o Papa a encontrar-se com seis sobreviventes dos abusos no seio da Igreja Católica de Espanha.
O evento foi anunciado pelo Vaticano, mas não caiu bem a toda a gente, nomeadamente às dezenas de vítimas que ficaram de fora, e que acusaram o Papa de querer apenas uma oportunidade para ficar bem na fotografia.
O encontro durou cerca de uma hora, mas pouco mais se sabe do que se passou lá dentro, para lá da atenção que Leão XIV deu às propostas para que a Igreja se torne mais eficaz a prevenir problemas como este.
Uma das soluções foi apresentada pelo próprio Papa ainda antes do encontro, com Leão XIV a pedir aos bispos espanhóis que ouçam as vítimas e lhes paguem as indemnizações devidas, no que deve ser um sinal de “comprometimento determinado” da Igreja para com aqueles que sofreram.
O relatório mais recente dá conta de que centenas de pessoas foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica espanhola ao longo de várias décadas, num problema que ecoa um pouco por todo o mundo, e que também se fez sentir em Portugal.
O presidente do grupo “Infância Roubada”, que representa estes sobreviventes, não achou que a ação do Papa tivesse sido suficiente. “Estão a ser usados pela Igreja, pela Conferência Episcopal, para limpar a imagem da Igreja espanhola”, acusou Juan Cuatrecasas, que pediu algo mais do que encontros e palavras.
Continuando a metáfora começada no Santiago Bernabéu, há quem olhe para o início desta visita como um autogolo.
