A reação de Leão XIV surge depois de Trump ter atacado o Papa no domingo à noite, denunciando a sua posição sobre a guerra no Irão e dizendo que o líder da Igreja Católica é "péssimo em política externa"
O Papa Leão XIV reagiu veementemente às críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, defendendo a sua posição de procurar a paz e rejeitar a violência no contexto da guerra com o Irão.
"Não tenho medo da administração Trump nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, que é o que acredito que estou aqui para fazer, o que a Igreja está aqui para fazer", afirmou o Papa aos jornalistas a bordo do seu avião, ao iniciar uma viagem de dez dias ao continente africano.
"Não somos políticos, não lidamos com a política externa com a mesma perspetiva (que) ele possa entender", continuou. "Mas acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador."
Os comentários surgiram depois de Trump ter atacado o Papa no domingo à noite, denunciando a sua posição sobre a guerra no Irão e dizendo que Leão XIV é "péssimo em política externa".
"Não gostamos de um Papa que diga que não há problema em ter armas nucleares. … É um homem que não acha que devemos brincar com um país que quer armas nucleares para poder destruir o mundo",disse Trump aos jornalistas, acrescentando: "Não sou fã do Papa Leão."
Leão, o primeiro Papa americano, tem-se tornado cada vez mais vocal sobre a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, tendo na semana passada condenado a retórica de Trump contra o povo iraniano como "verdadeiramente inaceitável".
Esse comentário foi motivado pela ameaça de Trump de que "uma civilização inteira morrerá esta noite", nas horas que antecederam a celebração de um cessar-fogo de duas semanas com o Irão.
Tanto Trump como o seu secretário da Defesa, Pete Hegseth, invocaram Deus em mensagens públicas durante o conflito, com Hegseth a apresentar o esforço de guerra como divinamente apoiado e até a recorrer a justificações bíblicas.
Leão tem repetidamente rejeitado esta ideia.
"Jesus é o rei da paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra", afirmou no Domingo de Ramos. "Ele não escuta as orações daqueles que travam guerras, mas rejeita-as."
As observações do presidente sobre o Papa na noite de domingo surgiram pouco depois de ter publicado uma crítica semelhante e extensa ao pontífice no Truth Social.
"O Papa Leão é FRACO em matéria de criminalidade e péssimo em política externa", escreveu Trump, acrescentando que não quer um Papa que ache aceitável que o Irão tenha uma arma nuclear ou que considere “péssimo que a América tenha atacado a Venezuela”.
Após a operação norte-americana para capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, o Papa apelou para que a "vontade do povo venezuelano" fosse respeitada e para que se restabelecesse a estabilidade no país.
"Não quero um Papa que critique o presidente dos Estados Unidos", acrescentou Trump na sua publicação.
O presidente dos EUA prosseguiu afirmando que Leão XIV "não constava de nenhuma lista para ser Papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano, e eles acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com o presidente Donald J. Trump."
Pouco depois dos comentários de Trump, o presidente publicou uma imagem no Truth Social em que se retratava como uma figura semelhante a Cristo a curar uma pessoa doente, com bandeiras americanas e águias ao fundo.
No início da tarde de segunda-feira, a publicação parecia ter sido apagada. A CNN questionou a Casa Branca sobre o motivo pelo qual a publicação foi aparentemente apagada.
As declarações de Trump no domingo surgiram pouco depois de o programa “60 Minutes” da CBS News ter transmitido uma reportagem em que cardeais americanos de alto nível manifestavam o seu apoio à posição do Papa sobre a guerra e à sua oposição anterior à repressão à imigração levada a cabo pela administração Trump.
A CNN contactou a Casa Branca para saber se Trump estava a reagir à reportagem do "60 Minutes".
Em resposta aos comentários de Trump, o responsável do Vaticano, Antonio Spadaro, afirmou que o presidente estava a atacar "uma voz moral" porque "não consegue contê-la".
"Trump não debate com o Papa Leão: implora-lhe que recue para uma linguagem que ele possa dominar. Mas o Papa fala outra língua, uma que se recusa a ser reduzida à gramática da força, da segurança, do interesse nacional", afirmou Spadaro no X.
"O ataque é uma declaração de impotência. … Se o Papa Leão fosse irrelevante, não mereceria uma palavra. Em vez disso, é chamado à atenção, apontado, combatido: um sinal de que a sua palavra atinge profundamente", afirmou.
Leão XIV já se tinha pronunciado anteriormente contra a proliferação de armas nucleares.
"O compromisso de construir um mundo mais seguro, livre da ameaça nuclear, deve ser perseguido através de encontros respeitosos e de um diálogo sincero, para construir uma paz duradoura, fundada na justiça, na fraternidade e no bem comum", afirmou em junho passado, enquanto Trump ponderava atacar as instalações nucleares do Irão.
Elise Ann Allen, correspondente em Roma do meio de comunicação católico Crux, afirmou que os comentários de Trump eram um sinal de que ele se "sentia ameaçado pelo facto de Leão estar a emergir como uma figura mais forte na cena internacional".
"Acho que o que está a acontecer é que Donald Trump está a começar a sentir a pressão", disse à CNN. "(Ele) tem de ter cuidado, porque tem de se lembrar que foram os católicos moderados que o elegeram em ambas as eleições."
Leão XIV defende um "desarmamento do nosso discurso" e "não vai entrar nesse tipo de retórica", acrescentou.