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Como o primeiro Papa americano entrou na arena política contra Trump

CNN , Christopher Lamb
17 abr, 08:34
Papa Leão XIV celebra missa na Argélia durante a sua viagem por África (Simone Risoluti/Vatican Pool/Getty Images)

Casa Branca e Vaticano estão em confronto direto

Ao chegar à Argélia, na segunda-feira, no início da sua histórica viagem por África, o Papa Leão XIV tinha uma escolha. Poderia ignorar a extraordinária diatribe de Donald Trump nas redes sociais, ou poderia enfrentá-la diretamente.

No final, escolheu a segunda opção, tomando a medida invulgar de criticar diretamente a Casa Branca de Trump. Em declarações aos jornalistas a bordo do avião papal, o Papa disse não ter "qualquer medo da administração Trump" e que não se deixaria intimidar por falar "em voz alta" sobre a mensagem de Deus.

"Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada, como alguns estão a fazer", afirmou, acrescentando: "muitas vidas inocentes foram perdidas... Acredito que alguém precisa de se levantar e dizer que existe um caminho melhor".

Os comentários de Leão XIV definiram-no como o contraponto internacional mais visível a Trump e criaram um confronto sem precedentes entre o primeiro Papa americano e um presidente dos EUA que lançou repetidos ataques contra ele.

No entanto, o pontífice nascido em Chicago, conhecido pelo seu estilo gentil e discreto, não escolheu esta luta. Tendo passado grande parte da sua vida adulta na Ordem de Santo Agostinho, cujos frades e freiras fazem votos de pobreza, castidade e obediência, com foco na unidade e na comunidade, as suas prioridades são a unidade e a construção de pontes.

Em vez de assumir o cargo com uma série de decretos executivos ou iniciativas que gerem notícias, o Papa dedicou grande parte do seu primeiro ano de mandato a ouvir e a implementar mudanças graduais. Salientou ainda a importância de instituições multilaterais como as Nações Unidas e o respeito pelo Direito Internacional, numa altura em que o presidente dos EUA sugeriu não estar vinculado a estas normas.

Embora tenha uma personalidade mais reservada do que o seu antecessor, o Papa Francisco, a operação militar dos EUA no Irão revelou a firmeza interior de Leão XIV e a sua disponibilidade para se manifestar de forma franca. Decidiu mencionar Trump pessoalmente - algo que os papas raramente fazem. E se não mencionou outros membros da administração Trump, as suas observações de que “Deus não ouve as orações daqueles que fazem a guerra” pareceram aludir à ânsia do secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, de enquadrar o conflito no Médio Oriente em termos religiosos.

Papas a clamar pela paz e a opor-se à guerra não é novidade. O Papa João Paulo II opôs-se veementemente à invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003. Com um Papa norte-americano, porém, as coisas são diferentes. Leão XIV fala inglês como língua materna, algo que não acontecia desde o século XII, e as suas palavras têm impacto no público americano, na Casa Branca e não só. Leão XIV é também conhecido no Vaticano pela sua “cara de póquer” - possui uma certa impenetrabilidade que o torna difícil de decifrar, e o seu estilo cuidadoso e deliberado confere, sem dúvida, um maior peso às suas palavras.

A mensagem de paz do Papa

Enquanto esteve em África, Leão XIV continuou a manifestar-se, afirmando que a sua estadia no continente oferece uma mensagem de paz que o mundo precisa de ouvir. Durante um encontro de paz em Bamenda, nos Camarões, Leão XIV proferiu um discurso com repercussão global.

“O mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos, mas mantém-se unido por uma multidão de irmãos e irmãs que se apoiam mutuamente”, disse.

“Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obter ganhos militares, económicos ou políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície.”

As tensões entre o Papa e Trump têm vindo a acumular-se desde antes do último conflito. Antes do conclave que elegeu o Papa Leão XIV, no ano passado, o presidente causou indignação ao publicar uma imagem gerada pela Inteligência Artificial de si próprio como o pontífice. A imagem fazia lembrar a imagem gerada por IA que Trump publicou - e posteriormente apagou - retratando-se como uma figura semelhante a Jesus, pouco depois de ter atacado o Papa. É também surpreendente que, embora os cardeais tenham eleito o primeiro Papa americano nos dois mil anos de história da Igreja Católica, Trump não tenha tido - pelo menos tanto quanto mostram os registos públicos - qualquer contacto directo com Leão XIV desde então.

Em vez disso, o vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, assistiu à tomada de posse de Leão XIV, entregando-lhe um convite para visitar os Estados Unidos. O Vaticano afirmou que o Papa não visitará os EUA em 2026 e que, em vez disso, planeia passar o dia 4 de julho - o 250.º aniversário da independência americana - na ilha italiana de Lampedusa, um importante ponto de chegada de imigrantes. É difícil imaginar o Papa a visitar o país enquanto Trump for presidente.

Na terça-feira, Vance manifestou-se sobre a polémica, dizendo que o Papa precisa de ser “cauteloso” quando fala de teologia e que se deve lembrar da teoria da Guerra Justa quando aborda a guerra no Irão.

A menção de Vance à teoria da Guerra Justa é surpreendente. Desenvolvido ao longo de séculos, o ensinamento é frequentemente utilizado pelos analistas militares como critério ético e moral para os conflitos armados. Um dos seus principais criadores é Santo Agostinho de Hipona, o pai espiritual da ordem religiosa católica a que pertence Leão XIV. Durante a sua visita à Argélia, o Papa fez uma peregrinação pessoal ao local onde Agostinho serviu como bispo no final do século IV e início do século V, e salientou que as pessoas não consideram a guerra no Irão justa.

O Vatican News argumentou, num editorial publicado um dia após as declarações de Vance, que, nas últimas décadas, o ensinamento católico tem demonstrado “como é cada vez mais difícil afirmar a existência de uma Guerra Justa”, particularmente numa “era atómica”.

O diretor editorial, Andrea Tornielli, insistiu que Leão XIV, “perante a loucura da escalada do conflito e os gastos desproporcionados com o rearme”, continua “a seguir o caminho aberto pelos seus antecessores, clamando pela paz, pelo diálogo e pela negociação com realismo e clareza profética”.

Os impérios vão e vêm

As críticas de Vance ao Papa serão provavelmente levadas mais a sério pelo Vaticano. Como convertido ao catolicismo, já usou um ensinamento de Santo Agostinho para defender a repressão da imigração promovida pela administração Trump. Leão XIV, por sua vez, tem criticado o tratamento dado aos imigrantes nos EUA.

“Desde que Vance entrou para a Igreja, alinhou com um grupo de filósofos, teólogos e comentadores de extrema-direita que se dizem os intérpretes autênticos de A Cidade de Deus, de Agostinho [uma obra fundamental]”, diz Dawn Eden Goldstein, escritora e académica católica, à CNN.

A especialista vinca que a “inquestionável perícia do Papa Leão XIV no pensamento de Agostinho… representa uma ameaça direta aos esforços do vice-presidente e dos seus amigos pós-liberais para se apresentarem aos católicos como intérpretes autorizados dos ensinamentos sociais e políticos da Igreja”.

Leão XIV tornou-se Papa poucos meses após a reeleição de Trump como presidente. Anteriormente, a ideia de um Papa dos EUA era considerada impossível, pois os cardeais não queriam aliar a Igreja à potência dominante mundial. No entanto, o regresso de Trump à Casa Branca mudou a forma como os cardeais viam os EUA no palco mundial. Isto abriu caminho para que rompessem com a tradição, e a figura de Robert Prévost, com a sua longa experiência na América Latina, tornou-o uma opção atraente.

A decisão histórica não foi muito diferente da do conclave de 1978 que elegeu João Paulo II. O primeiro Papa polaco e o primeiro pontífice não italiano em 400 anos foi escolhido no auge da Guerra Fria e viria a desempenhar um papel crucial na queda do comunismo na Europa de Leste.

“O incidente mais recente faz-me lembrar Harold Macmillan [antigo primeiro-ministro britânico] que disse que, entre as três instituições que nenhuma pessoa sensata deveria atacar, está o Vaticano”, refere Gerard O’Connell, correspondente do Vaticano para a revista America, um veículo de comunicação católico, e observador experiente dos assuntos da Igreja. “Imagino que o Vaticano verá isto na perspetiva da história, sabendo que os impérios vão e vêm.”

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