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Vigário regional do Opus Dei em Portugal

Num mundo dividido, a proposta de Leão XIV: unidade e Cristo

8 mai, 09:00
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Há um ano, poucos conheciam Robert Prevost quando foi eleito Papa. O seu primeiro apelo a uma paz desarmada e desarmante soou consistente. Via-se ali um homem pacificado por dentro. Com a serenidade robusta de quem conhece a dureza da realidade, mas nela encontra sentido e futuro.

Ao fim do primeiro ano, o retrato de Leão XIV tornou-se mais nítido e pessoal. Destacam-se duas ideias que quer lançar no mundo: unidade e Cristo no centro.

A semente da unidade - na Igreja e no mundo. Não é a unidade imposta pelos poderosos, que temem que algo lhes escape ao controlo. É a unidade própria dos corpos vivos, do jardim com mil flores, da trindade de pessoas num só Deus, e é a unidade desejada da família.

Mas como se pode alcançar a unidade na diversidade? Leão XIV reconhece que é um verdadeiro desafio. A polarização domina hoje muitas sociedades e a unidade deixou de ser um princípio fundamental.  Porém, alguns confundem unidade com uniformidade, e “não. Isso não pode ser.”

A proposta de Leão XIV para a unidade resume-se nas quatro palavras do seu lema: “In illo uno, unum”. “Naquele que é um, somos um” ou “Em Cristo, somos um”.  Dito assim, pode desconcertar por parecer um recurso pouco prático ou realista. As objeções podem ser bem concretas. Poderia perguntar-se: “Estamos a discutir as partilhas na família e a solução é Cristo?” “O condomínio está em guerra e a resposta é Jesus?” “Atropelaram-me na passadeira e fugiram, e é Deus quem me indemniza?”

A resposta é sim, mas não porque Cristo faça partilhas, reconcilie condóminos, ou seja um seguro contra todos os riscos. Para Leão XIV, as divisões só se resolvem em Deus feito homem. A unidade anda sempre ligada à outra ideia central do Papa: Jesus Cristo.

A semente de Jesus Cristo, o centro de tudo. Porquê esse foco, que pode parecer tão exagerado? Para Leão XIV, Cristo está no centro por uma razão simples: se é quem diz ser, então diz respeito a todos.  Se houve um homem historicamente localizado que afirmou ser Deus (e foi morto por ter dito que o era), fez o que nenhum homem faz, ensinou a arte de viver bem, foi visto vivo depois de ter sido morto, e disse que nos reuniria num mundo diferente e melhorado...; então isso diz respeito a todos.

Leão XIV confidenciou aos cardeais que o elegeram que o que o apóstolo Pedro disse a Jesus - “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” - expressa em síntese o tesouro que a Igreja tem e transmite há dois mil anos. ”Deus, de modo particular, confia-me este tesouro”. Também alertou os cardeais que essa mensagem iria contra a corrente de duas mentalidades.

A primeira, a mentalidade dos “contextos em que a fé cristã é considerada uma coisa absurda, para pessoas fracas e pouco inteligentes”. Aí, em lugar da fé preferem-se outras seguranças “como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder e o prazer”. É difícil falar do Evangelho e quem acredita vê-se “ridicularizado, contrastado, desprezado, ou, quando muito, suportado e digno de pena.”

A segunda, é a mentalidade que aprecia Jesus, mas o vê somente como homem e o reduz “a uma espécie de líder carismático ou super-homem”. Assim pensam muitas pessoas comuns - não apenas não crentes, mas também muitos batizados, para quem Deus fica, desta maneira, cada vez mais distante.

Com realismo, Leão XIV reconhece: “este é o mundo que nos está confiado e no qual somos chamados a testemunhar a alegria da fé. Por isso, também para nós, é essencial repetir: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo»”.

Mais do que um rótulo, a fé é uma procura. Em fevereiro, um ateu escreveu ao Papa uma pergunta inesperada: “Preciso da sua ajuda. É possível alguém considerar-se ateu e amar a Deus? Sinto a necessidade de amar a Deus, mas considero-me ateu; ou antes, creio que o sou e no fundo procuro Deus”. Habituados como estamos a classificar pessoas em crentes e não crentes, a abordagem de Leão XIV é refrescante.

“O verdadeiro problema da fé não é acreditar ou não acreditar em Deus, mas procurá-Lo.”

A verdadeira distinção não é entre crentes e não crentes, mas entre quem procura Deus e quem não procura.

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