Francisco por Leandro Karnal: vai ser estranho um Papa voltar a usar ouro e sapatos vermelhos
Um dos grandes pensadores contemporâneos da América Latina assume "vai ser difícil negar" o legado de Francisco no próximo pontificado
Humildade e capacidade de comunicação. É assim que o historiador Leandro Karnal, um dos grandes pensadores contemporâneos da América Latina, descreve Francisco, "um Papa que estabeleceu pontes e não muros" mas que, ainda assim, cometeu erros.
Em entrevista à CNN Portugal, Leandro Karnal assinala a "humildade de apresentação" do Papa Francisco, que, ao contrário dos Papas anteriores, "pediu desde o início uma cruz que não fosse de ouro e recusou utilizar os sapatos vermelhos tradicionais do Papa". A primeira viagem oficial de Francisco foi a Lampedusa, antecipando assim o que seria "uma aposta na internacionalização da Igreja" no seu pontificado.
Durante os últimos 12 anos, Francisco "nomeou para os postos de cardeais pessoas mais diversificadas, diminuiu o peso da Europa no colégio de cardeais, deixou sedes tradicionais sem cardeais na Itália, o que foi bastante incómodo para alguns italianos", lembra o historiador, que aponta que, dos quase 135 cardeais que vão poder votar no Conclave, "mais de 100" foram nomeados pelo Papa Francisco. Daí que o historiador acredite que o próximo Papa será certamente influenciado pelo pontificado de Francisco.
"É um legado que vai ser difícil negar. Se o papa voltar a usar sapatos vermelhos, visitar só grandes centros, nomear cardeais apenas para postos tradicionais nas grandes igrejas europeias, isso vai ser estranho", assume.
Leandro Karnal acredita que o grande desafio do próximo Papa será a capacidade de comunicação - que, aliás, foi o tendão de Aquiles de Papas anteriores, assinala o historiador. "João Paulo II era mais conservador do que Francisco, e foi um grande Papa de comunicação, canonizado pela Igreja. Bento XVI, um teólogo extraordinário, foi péssimo em comunicação, porque ele era um homem da intelectualidade. Francisco, com a sua simplicidade... Basta lembrar quando ele veio ao Brasil, logo no início do papado, para as Jornadas Mundiais Juventude, visitou também uma igreja evangélica, ou seja, [foi] um Papa que estabeleceu pontes e não muros."
Ao longo do seu pontificado, contudo, Francisco também cometeu erros, como assinala Leandro Karnal, lembrando uma entrevista em que o Papa disse "uma palavra muito feia, uma gíria romana - fracciadne - que é uma palavra muito feita para se referir a homossexuais, muito pesada". O Papa acabou por pedir desculpas mais tarde.
Para o historiador, este episódio mostra que "mesmo um Papa com tanto diálogo com a modernidade, sobrevive em formas mais ou menos antigas". "Essa palavra fracciadne - que para nós não tem peso, porque não somos italianos, mas que para a região central de Roma é uma palavra muito pesada - é uma palavra pejorativa e diz respeito a um insulto, inclusive. O Papa pediu desculpas e as pessoas cometem erros, cometem deslizes, mas este foi um Papa que foi muito procurado pelas pessoas, foi recebido como uma luz de renovação."
