Pode o Papa demitir-se? É improvável mas Francisco gosta de surpresas

CNN , Christopher Lamb
2 mar, 09:14
O Papa Francisco saúda os fiéis durante a sua audiência geral semanal na Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, a 13 de setembro de 2023 (Franco Origlia/Getty Images via CNN Newsource)

Quando Bento XVI se tornou o primeiro papa a demitir-se em 600 anos, a Igreja Católica ficou em polvorosa. Agora, depois de passar duas semanas no hospital a lutar contra uma pneumonia, especula-se no Vaticano se o seu sucessor, o Papa Francisco, poderá fazer o mesmo.

“Penso que as únicas circunstâncias em que ele [Francisco] consideraria a demissão, como já disse, seria se tivesse uma doença degenerativa ou debilitante a longo prazo que o impedisse de desempenhar plenamente o ministério papal”, refere Austen Ivereigh, um biógrafo papal, à CNN.

O Papa foi colocado numa máquina de ventilação esta sexta-feira, depois de ter sofrido um episódio súbito de dificuldade respiratória, informou o Vaticano, num episódio complicado por vómitos, alguns dos quais foram aspirados pelo Papa. Uma fonte do Vaticano disse que as próximas 24-48 horas irão determinar se o estado geral do Papa se deteriorou. Já no sábado de manhã, Francisco estava a descansar, depois de uma noite que o Vaticano considerou tranquila. No domingo a situação mantinha-se.

Demitir-se do papado não é como deixar de ser presidente de uma empresa ou diretor-geral de uma grande empresa. Não há limites de mandatos, não há conselho de administração e é considerado um cargo vitalício. Para os católicos, o Papa é o sucessor de São Pedro, desempenhando um ministério dado pelo próprio Cristo. No entanto, o papado é também um cargo e os avanços da medicina moderna e da esperança de vida apresentam um novo cenário. Também não é claro quanto tempo o Papa de 88 anos permanecerá no hospital ou qual o seu prognóstico a longo prazo.

Ivereigh insistiu que o facto de ser um Papa idoso ou frágil não é um impedimento, nem a Igreja Católica quer que se abra um precedente de que quando um Papa atinge uma certa idade ou um certo grau de saúde tem de se demitir. Para além disso, explicou o biógrafo, este Papa é “um Papa de corpo inteiro” e não quereria um papado dramaticamente reduzido.

Esta semana trouxe de volta as memórias desse dia dramático, a 11 de fevereiro de 2013, quando Bento XVI, nascido Joseph Ratzinger, anunciou que se ia afastar. Tudo aconteceu no que se supunha ser uma reunião de rotina de cardeais - conhecida como consistório - para votar sobre causas de santidade. No final dessa reunião, o Papa alemão começou a falar em latim e surpreendeu os presentes ao dizer-lhes que se ia demitir. Alguns cardeais começaram a inclinar-se uns para os outros para perguntar se o tinham ouvido corretamente.

O Vaticano anunciou que Francisco tinha convocado um consistório, numa data não especificada, para analisar os candidatos à santidade. A decisão foi tomada durante uma reunião no hospital onde está a ser tratado, com alguns dos seus mais altos funcionários, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, e o arcebispo Edgar Peña Parra, efetivamente o chefe de gabinete papal.

“Após a surpresa da demissão de Ratzinger, os consistórios em certos períodos difíceis da Igreja tornaram-se altamente políticos”, lembra Marco Politi, um respeitado comentador do Vaticano e autor de um novo livro sobre o papado de Francisco, "The Unfinished".

“Creio que, neste momento, o pontífice está concentrado na perspetiva de sobreviver à crise e de poder completar o Jubileu. No seu 89.º aniversário, será forçado a perguntar-se se ainda está apto a liderar a Igreja”. A Igreja Católica está a meio de um ano de celebração do jubileu, um evento tradicionalmente realizado de 25 em 25 anos.

Francisco gosta de manter as pessoas em alerta e terá sabido que o anúncio do consistório iria desencadear muita especulação. É pouco provável que o Papa quisesse revelar a sua mão numa decisão tão importante.

“Para Francisco, a liberdade de discernir estas questões é absoluta”, aponta Ivereigh.

A liberdade é importante porque, de acordo com a lei da Igreja, uma renúncia papal é uma decisão que deve ser “tomada livremente e devidamente manifestada” e não deve ser “aceite por ninguém”. Um pontífice não pode estar sujeito a coação ou pressão externa quando toma a sua decisão.

No passado, Francisco afirmou que o papado é ad vitam (que significa “para toda a vida” em latim) e que a demissão não está na sua agenda. No entanto, nunca excluiu a possibilidade de se demitir e afirmou que a decisão de Bento XVI tinha “aberto a porta” para que futuros papas se reformassem.

Um conclave é convocado da mesma forma após uma renúncia e uma morte papal, mas em 2013 Bento XVI alterou a lei para permitir que a eleição ocorra mais cedo.

O Papa argentino é movido por um profundo sentido de missão e, desde que foi hospitalizado, tem mostrado determinação em recuperar, apesar de lutar contra uma pneumonia em ambos os pulmões. O arcebispo Paul Gallagher, ministro dos Negócios Estrangeiros do Vaticano, salientou esta semana que não está prevista uma renúncia papal e que Francisco vai dar tudo por tudo para recuperar.

“Se a vontade de Deus é que ele melhore, ótimo”, garantiu à America, uma publicação católica. “Se a vontade de Deus é que ele não melhore, bem, então ele aceitará isso. É esse o espírito da sua vida...”

Este Papa consegue muitas vezes fazer surpresas. E se Francisco se demitisse, é muito provável que o fizesse quando as pessoas menos esperassem.

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