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Papa Francisco: 12 anos, 12 ideias

13 mar 2025, 09:00

Roma, 5/04/2023. Para mim, um dia inesquecível. Basílica de São Pedro, na noite de Sábado Santo, preparando a Vigília Pascal. Foi uma surpresa. Inesperadamente, tive oportunidade de estar a sós com o Papa. O que se diz quando se está diante do Papa? Falei-lhe do que me ia no coração: família e amigos, a minha missão de sacerdote, as minhas expectativas e dúvidas. Mas as ideias fugiram, afinal estava diante do Papa. Antes de lhe pedir um abraço disse-lhe que os seus escritos ajudam muitas pessoas. E que me propunha difundir-los.

Francisco ficou sério ao ouvir as minhas palavras. Fez um compasso de espera. Olhou-me e disse: "Seria melhor que falasses menos do Papa e mais de Jesus." Ainda hoje tenho gravado esse olhar de pai. Esta reação, na sua simplicidade, resume o legado teológico do Papa argentino. Quando assinalamos 12 anos da eleição de Francisco (13/03/2013), e vivendo ele uma fase tão delicada do seu estado de saúde, escolhi 12 ideias que sintetizam o pensamento deste Papa, que é de todos, não apenas dos católicos.

1. Deus é misericórdia. Em continuidade com São João Paulo II (Papa da misericórdia) e Bento XVI (autor de Deus é amor), Francisco sublinha que esse amor se manifesta concretamente na misericórdia. Sublinha que a missão da Igreja é evangelizar. E o que significa evangelizar? Significa que Deus se fez homem para nos salvar e, ao morrer na cruz, manifesta a sua infinita misericórdia. Isto não é uma ideia bonita. Francisco foi o primeiro Papa que se deixou fotografar enquanto se confessava, o momento da Misericórdia. Os seus gestos são eloquentes. E nós também experimentamos assim a misericórdia de Deus?

2. O nosso Bilhete de identidade são as Bem-aventuranças. Isto não é novo. Mas nunca tinha ouvido alguém dizer que todo o Evangelho se resume nessas máximas: «Felizes os pobres em espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça, (...) pois é grande nos céus a vossa recompensa» (Mt 25,1-13). Este é o exame de consciência diário de Francisco. E poderia ser o nosso também. 

3. Três palavras mágicas. O Papa defende que o núcleo do casamento é a participação no amor de Deus. O hino da caridade de São Paulo (1 Cor 13, 4-7) tem uma riqueza inesgotável que o Papa nos faz redescobrir em Dilexit nos. Escreve e fala muito sobre a família. E com essa sabedoria dos avós deixou aqueles conselhos práticos aos casais: repetir três palavras mágicas:“Com licença, obrigado e desculpa” e nunca acabar um dia sem fazer as pazes. 

4. Quem és na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37)? Em Fratelli Tutti, interpela-nos "Com que personagem da parábola te identificas? Com o estalajadeiro? Com o homem caído à beira do caminho? Com o sacerdote? Com o levita?" E, a partir daí, retira consequências: o Evangelho é para ser vivido, não apenas conhecido. A fé manifesta-se no amor ao próximo, independentemente da sua origem, crença ou condição. Esta parábola torna-se, assim, um apelo urgente à construção de uma sociedade mais justa e solidária. Na Quinta-feira Santa de 2013, lavou e beijou os pés de jovens detidos, incluindo muçulmanos, rompendo tradições e enfatizando o serviço aos mais marginalizados.

5. A santidade da “porta ao lado". Esta é uma das expressões do Papa Francisco que ficará para a história e que nos ajuda a compreender o grande princípio do Concílio Vaticano II: que todos estamos chamados a ser santos. Na Exortação Gaudete et Exsultate diz:

"Gosto de ver a santidade no povo de Deus paciente: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham para sustentar a família, nos doentes, nas religiosas idosas que continuam a sorrir. Nesta perseverança do dia a dia, vejo a santidade da Igreja militante, a santidade da porta ao lado, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus. Ou, como diria de outro modo, a 'classe média da santidade'".

6. Três ideias para os jovens. Na Christus Vivit, resume 3 grandes para os jovens:(1) Deus é amor; (2) Cristo salva-te e está vivo; (3) Somos chamados a viver a vida cristã numa amizade pessoal e íntima com Jesus. A centralidade de Jesus foi algo que todos vivemos na JMJ em Lisboa. A palavra que o Papa mais utilizou nos seus discursos no nosso país não foi “todos”. Foi “Jesus”. Disse-o 102 vezes.

7. Dose diária de alegria e de evangelho. A palavra "alegria" encontra-se em quase todos os documentos e pregações do Papa Francisco. Condena aqueles que vivem "uma Quaresma sem Páscoa" e convida-nos, no Jubieu da Esperança de 2025, a abrir as portas a Jesus. O Evangelho é essa fonte de alegria e esperança. “É bom ter o evangelho no bolso, como quem tem o telemóvel, e ler uns minutos todos os dias”, ilustrou Francisco. 

8.  Faz sentido pensar no mundo como uma casa comum? Através da fraternidade universal e do cuidado da ecologia humana Francisco acha que sim. Este é um resumo das encíclicas Laudato Si' e Fratelli Tutti, que abordam a ecologia integral «que comporta deixar emergir todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo opcional ou secundário da experiência cristã». A casa é comum porque é de Deus. Cuidemos dela.

9. A fé não precisa de efeitos especiais. Na sua primeira encíclica (Lumen Fidei), aborda a relação entre “fé e verdade" e também entre “fé e amor". Recorda que “a fé, sem verdade, não salva. Fica-se numa bela fábula, a projeção dos nossos desejos de felicidade". Ao mesmo tempo, traduz-se em amor a Deus e aos outros. Por isso, a fé não é intransigente e o crente não é arrogante, antes pratica, de modo natural, o diálogo. Francisco (em continuidade com Bento XVI) escreve:

"Cristo não é apenas aquele em quem acreditamos, a máxima manifestação do amor de Deus, mas também aquele com quem nos unimos para poder crer. A fé não só olha para Jesus, mas também vê com os olhos de Jesus. A fé é uma participação no seu modo de ver o mundo."

10. Jesus teve um pai que não foi Superhomem. O Papa tem promovido fortemente a devoção a São José “pai na ternura”. Tomando o seu exemplo ensina-nos a “aceitar aquilo que é mais débil em nós”. Em Manila, em 2015, dizia: “no meu escritório, tenho uma imagem de São José que dorme, e dormindo, cuida da Igreja. Quando tenho um problema ou uma dificuldade, escrevo-o num papel e coloco-o debaixo da imagem de São José, para que ele sonhe sobre isso. Isso significa: para que ele reze por este problema. E fico descansado”. Quer uma boa leitura gratuita para o dia do Pai? Com coração de Pai do Papa Francisco.

11. E nós “temos Mãe”. Expressão dita pelo Papa Francisco em Fátima. Lembra-nos que, no meio das dificuldades, tristezas e desafios da vida, não estamos sozinhos. Maria, como mãe amorosa, está sempre ao nosso lado, intercedendo por nós e guiando-nos. Sempre que o Papa sai ou entra em Roma vai visitar a Basílica de S. Maria Maior, como quem dá um beijo à mãe quando entra ou sai de casa. E um dado interessante para nós portugueses: Fátima foi o único santuário mariano fora de Itália que ele visitou por duas vezes. 

12. “Bom almoço e rezem por mim”. Habituamo-nos a estas palavras do Papa no final do Angelus. O Papa sabe-se necessitado e pede orações. Recordo aquele chuvoso 13 de março de 2013 na Praça de S. Pedro quando todos ouvimos habemus papam. Estava com um amigo italiano e outro americano que pensavam que o novo Papa seria do seu país Eis que aparece Francisco e este foi o seu primeiro pedido: “Rezem por mim”. As palavras de um Papa que acreditava na força de Deus e que a oração é a sua única arma.  

O que o Papa diz, procura viver. Em Timor, numa cerimónia de Estado em Itália, numa visita à prisão na Colombia ou na cama do hospital. O testemunho é o que realmente move. Precisaremos de mais uns anos para entender o seu pensamento. Estar diante de Francisco é como estar diante desses quadros impressionistas. Precisamos de ter perspectiva, de nos afastar para entender que o quadro não são traços arbitrários, mas que tudo faz parte de uma unidade. Perceberemos mais tarde a grandeza de Francisco e o seu impacto na igreja e no mundo. O impacto de um Papa que nos deixa uma imagem bem real: quer que falemos mais de Jesus do que dele próprio. 

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