"Todos, todos, todos": memórias das duas visitas do Papa Francisco a Portugal

21 abr, 08:59

Francisco visitou Portugal em 2017 e em 2023. Da primeira vez canonizou os pastorinhos em Fátima, na segunda festejou a alegria da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa

“Na Igreja ninguém está a mais, há espaço para todos. Repitam comigo. Quero que digam na vossa própria língua: todos, todos, todos." Foi no Parque Eduardo VII, em Lisboa, na  cerimónia de acolhimento, o primeiro encontro do Papa Francisco com os jovens que participavam Jornada Mundial da Juventude, em agosto de 2023, que o Papa disse aquela que se tornaria a frase mais marcante do evento. A ideia de que a Igreja deveria ser para todos, sem exceção, não era nova nos discursos de Francisco, mas foi ali, perante os milhares de jovens vindos de todo o mundo que ganhou o seu verdadeiro significado. "Rapazes e raparigas, somos amados tal como somos, sem maquilhagem, entendem isto?", desafiou-os. "Amigos, quero ser claro convosco, que sois alérgicos às falsidades e a palavras vazias: na Igreja há espaço para todos e, quando não houver, por favor façamos com que haja, mesmo para quem erra, para quem cai, para quem sente dificuldade." 

Não era a sua primeira visita a Portugal. Essa tinha acontecido em 2017.

2017: peregrino em Fátima para adorar Nossa Senhora

O Papa Francisco esteve então menos de 24 horas em Portugal, tendo vindo como peregrino a Fátima para assinalar o centenário das aparições de Nossa Senhora. Chegou na sexta-feira, dia 12 maio, à tarde, e foi recebido por uma multidão de pessoas, que encheram as ruas de Fátima e o recinto do santuário. Havia uma enorme expectativa em relação ao Papa que estava ainda no início do seu pontificado e trazia uma mensagem de abertura e de aproximação da Igreja às pessoas. Depois do mais circunspecto Bento XVI, o sorriso de Francisco e a sua tendência para quebrar os protocolos, aproximando-se de quem o esperava junto às grandes, tornou-o desde logo querido dos portugueses. Nas fotografias está quase sempre de braço estendido em direção às pessoas - essa é a sua imagem de marca.

Francisco visitou a Capelinha das Aparições e participou  na habitual procissão das velas e na oração do rosário. Nesta viagem, totalmente dedicada a Fátima, a mensagem foi sobretudo religiosa: “Se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele”, disse numa das suas intervenções.

A peregrinação de maio é sempre muito participada, mas nesse ano foram ainda mais os que quiseram estar em Fátima, especialmente para rezar com Francisco. Cerca de 500 mil pessoas assistiram no sábado, 13 de maio, à cerimónia em que o Papa canonizou os pastorinhos Jacinta e Francisco. Ao altar subiu Lucas, um menino brasileiro cuja cura de uma grave lesão cerebral sofrida em 2013, considerada milagrosa, fundamentou a canonização dos irmãos pastorinhos.

Francisco deixou Fátima nessa tarde, pouco antes de o Benfica se sagrar campeão nacional e de Salvador Sobral vencer o Festival Eurovisão da Canção - foi um dia de muitos festejos.
 

2023: a alegria da juventude e o reconhecimento dos erros da Igreja

Seis anos depois, o Papa voltou a Portugal num contexto completamente diferente. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é sempre um momento de alegria. Francisco, então já com 86 anos, abriu o sorriso e escolheu as palavras certas para se dirigir aos mais novos, muitas vezes afastando-se dos discursos que tinha preparado para falar livremente. A sua saúde estava mais frágil, devido a uma operação aos intestinos e depois a uma infeção respiratória. Mas, na preparação da viagem, que se realizou entre 2 e 6 de agosto, a única condição do Vaticano foi para se ter atenção à mobilidade do Papa, que se deslocava numa cadeira de rodas. Tirando isso, a agenda não fez concessões. E apesar dos muitos compromissos, e de às vezes se mostrar cansado durante as cerimónias, perante os fiéis aparecia sempre sorridente, acenando e cumprimentando todos os que o aguardavam e o chamavam pelo nome - “Francisco! Francisco!" - como se fosse já um velho amigo. E Francisco a todos deu atenção. Benzeu bebés de colo, trazidos pelos pais em busca de uma graça divina, teve gestos de carinho para crianças que o abordaram, sorriu e escutou.

Esta foi a primeira visita do Papa Francisco a Portugal depois de nesse ano ter sido revelado o demolidor relatório da Comissão Independente para o Estudos dos Abusos Sexuais a Crianças na Igreja Católica Portuguesa, com testemunhos que dão voz a mais de 4.800 vítimas. A expectativa era grande: de que forma Francisco iria referir o tema? Não foi preciso esperar muito, logo à chegada, dirigindo-se à comunidade eclesiástica no Mosteiro dos Jerónimos, o Papa referiu-se a um “grito angustiado” que deve ser ouvido por todos, em particular pela Igreja Católica, apelando  à reconciliação das vítimas com a instituição, num caminho “purificação humilde e contínua”.

Ainda nesse dia, Francisco encontrou-se com treze das vítimas portuguesas. Foi, nas palavras de quem participou, um momento emocionante. “Havia, de facto, uma disponibilidade emocional muito grande, sem pressas, sem atenção ao tempo e, por isso, cada pessoa teve o seu momento, a sua oportunidade de partilhar aquilo que entendeu, foi escutada", contou a psicóloga Rute Agulhas. Francisco escutou e, no final, “pediu perdão, com vergonha, em seu nome pessoal e em nome da Igreja. E encorajou todos a continuar o seu caminho, apesar das cicatrizes que permanecem".

Nos dias que durou a JMJ, os jovens encheram Lisboa de bandeiras de todas as cores. Dormiram em escolas e ginásios, celebraram missas nos jardins, sentaram-se nos passeios de calçada portuguesa, cantaram e dançaram por todo o lado, numa alegria contagiante. E no penúltimo dia fizeram-se ao caminho, em peregrinação até ao novíssimo Parque Tejo, onde foi instalado o enorme e polémico altar. "Esta é a juventude do Papa", gritavam os jovens que passaram horas à torreira do sol para rezarem na vigília com o Papa, e que depois dormiram, estendidos no chão, junto ao rio, para participar na última cerimónia com Francisco. “Não tenham medo”, disse o Papa, falando para mais de um milhão de pessoas. Na despedida, o convite foi feito à ação - não tenham medo de agir, de seguir em frente com os vossos ideais e as vossas crenças, essa foi a mensagem que o Papa quis deixar aos jovens.

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