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Coordenador e editor de Religião e Cidadania TVI/CNN Portugal

Urgências do tempo na iminente tarefa dos cardeais

1 mai 2025, 22:02
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À sétima, foi. As congregações gerais, preparatórias do Conclave, já tinham percorrido temas vários sobre a Igreja, o mundo e a Igreja no mundo, incluindo o drama dos abusos sexuais. Na sétima reunião, com a presença de 124 eleitores, ou seja, cardeais com menos de 80 anos, chegaram ao debate dois assuntos inevitáveis e tensos: os problemas financeiros e a evidente polarização de sensibilidades pastorais e eclesiais.

1. Coube ao cardeal alemão Reinhard Marx, coordenador do Conselho para a Economia, apresentar o quadro geral e atualizado, “os desafios e questões críticas existentes”, como foi publicamente comunicado, “oferecendo propostas orientadas para a sustentabilidade e reiterando a importância de as estruturas económicas continuarem a apoiar de forma estável a missão” evangélica da Igreja.

Sabe-se que a situação financeira não é confortável. O défice do Vaticano foi de 78 milhões de euros em 2022 e de mais de 83 milhões em 2023, apontando-se para 87 milhões no ano passado. Para 2025, vários departamentos dos dicastérios e serviços diretamente dependentes do governo da Cidade do Vaticano tiveram de refazer orçamentos e baixar drasticamente as expectativas. Francisco teve de apoiar uma redução de pessoal, não reocupando lugares de quem se reformou. Os cortes têm obrigado a redefinir projetos e parcerias. A crise não é de agora, resulta de décadas de gestão menos cuidada, mas nunca comprometeu o que é essencial: as missões e a pastoral social.

Nesta congregação geral, interveio ainda o cardeal camerlengo Kevin Farrell, enquanto presidente do comité para os investimentos, e o cardeal arcebispo emérito de Vienna, Christoph Schönborn, presidente da comissão de vigilância do IOR (Instituto para as Obras Religiosas), outrora conhecido como banco do Vaticano, que teve profundas reformas para a transparência nos pontificados de Bento XVI e de Francisco. Coube ao esmoler, o cardeal polaco Konrad Krajewski, reafirmar, apesar das dificuldades, o empenho do Vaticano no serviço solidário.

Os cardeais que vão escolher o novo Papa confirmaram, assim, que a dinâmica sinodal implica repensar a sustentabilidade das comunidades, reforçar a criatividade evangélica na ação pastoral e caritativa, até para fazer esquecer o escândalo da sumptuosidade e da soberba, que minava a Cúria romana até há pouco tempo.

Em fevereiro, ainda hospitalizado, Francisco instituiu a Commissio de donationibus pro Sancta Sede, uma comissão nova com a tarefa específica “de incentivar as doações com campanhas especiais entre os fiéis, as Conferências Episcopais e outros potenciais benfeitores, enfatizando sua importância para a missão e as obras de caridade da Sé Apostólica, bem como encontrar financiamentos de doadores dispostos a projetos específicos” apresentados pelas Instituições da Cúria Romana e do Governo do Estado da Cidade do Vaticano.

A Santa Sé deixou de ser uma fonte inesgotável de apoio financeiro e também tem ação social. Estranha-se por isso que, localmente, a gestão dos bens e do dinheiro seja tão opaca e amadora. 

2. Na mesma assembleia de cardeais, ouviram-se intervenções sobre a polarização interna, como reflexo de divisões na sociedade. Há quem reclame uma reflexão sobre o papel do “povo de Deus” na Igreja, os leigos, as bases comunitárias, com referências explicitas ao “valor da sinodalidade”, em “estreita relação com a colegialidade episcopal”, mas como “expressão de uma corresponsabilidade na diferença”.

Aos poucos, percebe-se que dois importantes eixos do pontificado, ainda em processo – a sinodalidade e a transparência, cujos dinamismos e pressupostos explicam muito do legado, nas mais variadas áreas e abordagens – vão contar nos critérios para a escolha do sucessor.

No mesmo dia, o colégio de cardeais fez sair um comunicado no qual pede aos fiéis que ajudem com a oração. Terá sido coincidência? Os cardeais dizem precisar de “discernimento espiritual” para escutar “a vontade de Deus”, conscientes “da responsabilidade a que são chamados” e “diante da grandeza da iminente tarefa” de escolher um Papa que enfrente os desafios complexos na Igreja e no mundo.

3. Por entre a animação mediática com nomes e listas de preferidos nas casas de apostas, a realidade – como diria Francisco – sobrepõe-se às ideias. Não estará a ser fácil a tarefa de fazer corresponder um perfil a um rosto concreto. A marcação do Conclave para dia 7 de maio, quando podia começar um ou dois dias antes, permite mais tempo para os cardeais se conhecerem, para o discernimento, sintonias e estratégias de ação. Afinal, é no debate franco e no segredo dos bastidores, em conversas frontais ou discretas, que pode vislumbrar-se, na prática, a tradição da Igreja, segundo a qual é o Espírito Santo que auxilia os cardeais. Bem podem e devem pedir a ajuda do Alto e todas as intercessões possíveis até ao último minuto, quando entoarem Veni Creator no cortejo para a capela Sistina.

Houve um antes de Francisco e um durante, como vai haver um depois. O Papa argentino encontrou uma Igreja em derrapagem moral e institucional, atravessou o caminho das pedras contra opositores internos e tempestades ideológicas. Mas ninguém disse que o resto do percurso, na recuperação da confiança, em coerência evangélica, é de piso fácil. 

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