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Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Deus, se existes, cuida do Papa Francisco

24 fev 2025, 15:43
Papa francisco

nota do editor: a foto de abertura deste artigo é de arquivo

 

Porto, 22/02/2025. Passei rapidamente num supermercado para comprar algo que me fazia falta. Na fila da caixa, uma senhora perguntou-me: “Como está o Papa Francisco?”. A questão apanhou-me desprevenido. Naquele momento, estava focado a pensar se me esquecera de algo que deveria comprar, pensava nas pessoas que iria encontrar em breve e numa chamada telefónica que deveria fazer a um amigo por ocasião do seu aniversário.

E, de repente, aquela senhora perguntou-me pelo Papa. E continuou: “Que posso fazer pelo Papa?”. Esta segunda pergunta era ainda mais comprometedora. O que se pode fazer pelo Papa numa fila de supermercado no Porto? Disse-lhe que o Papa é uma pessoa próxima e que podemos rezar por ele. Mas ela respondeu: “Eu não sou crente. Como posso rezar?”.

Aquela terceira pergunta deixou-me pensativo, enquanto a minha interlocutora colocava os produtos no tapete rolante da caixa. Por uns instantes, fui com a cabeça até Roma. Com uma intuição rápida, respondi: “Talvez possa rezar assim: ‘Deus, se existes, cuida do Papa Francisco’”.

Despedimo-nos amavelmente. E fiquei a pensar: como é possível que, no meio de um supermercado, uma pessoa não crente ajude um padre a rezar pelo Papa ?

Temos acompanhado o estado de saúde do Papa Francisco, os boletins clínicos, as transmissões em direto. Recorremos ao Dr. Google e ao ChatGPT para perceber melhor o que significa uma infeção polimicrobiana ou uma plaquetopenia. O Papa Francisco é um doente muito especial: não conheço outro paciente que exponha assim as suas vulnerabilidades.

Aos 88 anos, outro doente pediria descanso e privacidade. O Papa não quer, não consegue. Do 10.º andar do Hospital Gemelli, telefonou para Gaza, procurando saber como está a comunidade católica naquele lugar. Daquele quarto saiu um lamento pelo terceiro aniversário da guerra na Ucrânia. E, ao mesmo tempo, sabe agradecer: “Nestes dias, recebi muitas mensagens de afeto e fiquei particularmente tocado com as cartas e os desenhos das crianças. Obrigado por essa proximidade e pelas orações de conforto que recebi do mundo inteiro! Confio todos à intercessão de Maria e peço que rezem por mim”.

Na sua recente autobiografia, Francisco revelou como gostaria de enfrentar os últimos momentos da vida:

“Quando eu morrer, não serei enterrado em S. Pedro, mas [na Basílica de] Santa Maria Maior: o Vaticano é a casa do meu último serviço, não da eternidade. (...) Estarei perto daquela Rainha da Paz a quem sempre pedi ajuda. (...) Embora saiba que Ele já me concedeu muitas, só pedi ao Senhor mais uma graça: cuida de mim, quando quiseres, mas, como sabes, tenho bastante medo da dor física… Por isso, por favor, não deixes que me magoem muito.”

O Papa poderá não estar entre nós durante muito mais tempo. Confio que Deus continuará a guiar a Sua Igreja depois da morte de Francisco. Mas a minha preocupação com ele é pessoal. Como por um familiar querido, cuja sabedoria e presença prezo, espero profundamente que recupere e que possa regressar à sua família – a Igreja Universal – uma vez mais.

Francisco é um líder. Foi o Homem do Ano da revista Time. Mal foi eleito, rezou pelo Papa Emérito Bento XVI. Fez 67 viagens apostólicas. Veio a Portugal 2 vezes, sem nunca ter visitado o seu próprio país ou a vizinha Espanha. Foi o líder de um Estado sem forças armadas. Levantava-se todos os dias às 4h30 da manhã para rezar, pois sabia que estar diante de Deus é contar com a força armada mais poderosa. Convidou os sem-abrigo de Roma para celebrar o seu aniversário. Deixou-se fotografar enquanto se confessava publicamente e pediu que não tivéssemos medo da confissão e dos nossos pecados. Convocou o Jubileu da Misericórdia e da Esperança. Escreveu textos que nos ajudaram a rezar e a pensar. Foi aquele a quem, um dia, perguntei: “Posso dar-lhe um abraço?” – e que, com um sorriso de pai, me respondeu: “Dá-me dois abraços”.

Francisco tem sido muitas coisas. Sentimos a sua falta. Estes dias serviram para demonstrar que, quando o Papa está doente, parece que o mundo também adoece. 

***

Não perguntei o nome da senhora que encontrei no supermercado. Gostaria de lhe agradecer aquela breve conversa, sobretudo o facto de me ter ajudado a rezar pelo Papa. Escrevi estas linhas a pensar nela e em tantas outras pessoas que têm os pés em Portugal, mas o coração e a alma diante do Hospital Gemelli, em Roma.

Que podemos fazer agora? Podemos abraçar dois desafios. 

Por um lado, revisitar o legado de Francisco, os seus gestos, os textos que nos deixou, as suas ideias chave, o tanto que escreveu. Mesmo que não tenhamos fé, a sua linguagem, os seus apelos, a sua reflexão são universais. 

E podemos tocar, como o Papa, a força da oração. O mais importante que podemos fazer por Francisco – e por qualquer Papa – é o que ele sempre nos pediu: “Rezem por mim.” Nem que seja com a oração dos não crentes: “Deus, se existes, cuida do Papa Francisco.” E, para os crentes, rezemos um Pai-Nosso:

Pai Nosso que estais nos Céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.

Ámen.

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