opinião
Estudante de Doutoramento em Teologia na Universidade da Santa Cruz, Roma

Afinal, "Ele" é muito melhor do que nós pensávamos

1 jan, 13:48
Papa Bento XVI (Associated Press)

Terça-feira, 19 de abril de 2005. Estava no bar do Instituto Superior Técnico em Lisboa, na minha universidade. Entre jogos de cartas, gargalhadas, conversas sobre Dragonball, a televisão diz-nos em direto quem seria o sucessor de João Paulo II. Habemus Papam. Joseph Ratzinger. Os meus colegas de engenharia, não crentes a maioria, olhavam para mim e perguntam “Jorge, tu que és crente, diz-nos lá quem é este senhor?”. Desconhecia o novo Papa, o seu pensamento. Foi então que li “Introdução ao Cristianismo” escrito algumas décadas antes.

O livro começa por notar como é difícil o diálogo entre crentes e não crentes. Ilustra-o com uma parábola de Kierkegaard: um fogo irrompe num circo, e o diretor do circo envia um palhaço, vestido a rigor, a correr para a aldeia seguinte para pedir ajuda. Os habitantes ignoram o palhaço e quanto mais dramaticamente o palhaço pede ajuda, mais eles se riem dele. No final, o circo e toda a aldeia são consumidos pelas chamas.

Para Ratzinger, no século XX a fé cristã quando faz os seus apelos sobre a conversão e o destino eterno de cada um e da humanidade, tornou-se, para o homem moderno, como este palhaço. Esta história mostra o grande desafio que o cristianismo enfrenta no mundo contemporâneo. É preciso quebrar os clichés do pensamento e da linguagem. Uma dificuldade que não é superada pela mudança exterior de vestuário e de linguagem. No nosso tempo o crente deve viver com dúvidas e insegurança. Isso aprendemos quando revisitamos a vida dos santos. 

Foi para mim uma lição importante. Tinha algo em comum com esses amigos não crentes. Lembro-me de pensar: mas tudo isto não são apenas bonitas teorias? Como é que um Papa vive isto? O seu  pontificado estava pensado para todos. Também para os meus amigos. E isso surpreendeu-me. Dou alguns exemplos.

  • Convidou não crentes a rezar e a elevar os seus sentimentos ao “Deus desconhecido”, reunidos em Notre-Dame (Paris).
  • No Natal de 2006 colocou as perguntas de um homem moderno: ”Será ainda necessário um "Salvador" para o homem que alcançou a Lua e Marte?”
  • Sabe citar autores de pensamento não católico. A primeira citação da sua primeira Encíclica (Deus Caritas Est) é de Friedrich Nietzsche. Sabe valorizar o acerto das citações de quem está longe, sem medo de que as pessoas se sintam atraídas por esses autores.
  • Pouco depois de visitar Portugal, em Inglaterra, teve paciência para se dar a conhecer ao mundo intelectual e aos media. Depois da sua polémica visita, o editorial de “Guardian”, Benedict spoke to Britain, referia que a visita "foi melhor, inclusive muito melhor do que se poderia esperar", graças sobretudo "ao que o Papa disse e como disse", mostrando "que tem um lado mais cálido, mais humano e menos rígido do que parece de longe". "E em relação às suas alusões de quão arriscado é para a tolerância desterrar a religião para as margens, talvez ele tenha deixado uma Grã-Bretanha com a mente um pouco mais aberta que quando a encontrou", conclui o editorial de forma surpreendente.

Crentes e não crentes. Num bar do Instituto Superior Técnico, ou em Paris ou Londres. Todos partilham dúvidas, dificuldades. Bento XVI aponta para a solução: “voltar a colocar Deus em primeiro lugar”, voltar a encontrar um significado para existência. “A tarefa de um cristão resume-se a isso: revelar de novo a prioridade que é Deus. Hoje o importante é voltar a ver que Deus existe, que Deus nos diz respeito e que nos responde”.

Dizia Chesterton que a mediocridade consiste em estar diante da grandeza e não se dar conta. Bento XVI fez-nos descobrir - a crentes e não a crentes - a beleza de Deus e o caminho para voltar a ele. Afinal "Ele" [Deus] é muito melhor do que nós pensávamos. Por isso, o Papa alemão foi tão criterioso nos comentários à bíblia. Tão acertado no tom intelectual com que olhou para os problemas do mundo. Tão generoso por nos ter vertido essas reflexões em discursos, homilias e abundantes livros. Serão necessárias décadas para descobrir essa riqueza. Uma herança não merecida. Uma grandeza igualmente desconhecida. Ainda não sabemos bem quanto devemos a Bento XVI. Mas já sabemos juntar-nos às palavras do Papa Francisco: "no coração sentimos muita gratidão: gratidão a Deus por tê-lo dado à Igreja e ao mundo; gratidão a ele, por todo o bem que fez e, sobretudo, por seu testemunho de fé e oração, especialmente nestes últimos anos de sua vida retirada."

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