“A Europa e os EUA marcaram autogolos na covid-19 e deram uma espetacular vitória de propaganda à China” (entrevista na íntegra)

15 jan, 18:00

É aterrador mas a pandemia está por controlar. Mesmo se a vacina é a história ao mesmo tempo mais esperançosa e deprimente. Na UE, há maus sinais na economia e bons na política, ao contrário do declínio nos EUA, que mudou para um ceticismo radical. As ameaças aos valores democráticos vêm de dentro, não da China, da Rússia ou do populismo. O desenvolvimento da China é hoje a história de transformação da humanidade e o problema macro é o clima. Pensador Adam Tooze em entrevista exclusiva (na íntegra)

Nomeado como um dos melhores “Pensadores Globais da Década” pela revista Foreign Policy em 2019, e autor de best-sellers como o seu último livro “Shutdown – Como a Economia abanou a Economia Mundial” (tradução livre), Adam Tooze esteve em Lisboa em novembro para a conferência dos trinta anos da CMVM. O historiador e professor na universidade de Columbia deu então uma entrevista em exclusivo à CNN Portugal, que agora publicamos, onde fala dos impactos globais da pandemia – e em que pensa sobre os grandes desafios pela frente.

No seu último livro, "Shutdown", fala sobre as consequências da pandemia. O que nos ensinou a covid-19 até agora?
A coisa mais importante e mais óbvia é que devemos levar a sério os avisos dos cientistas quando falam das enormes transformações no “invólucro” ambiental no qual funcionamos. A pandemia não foi um "cisne negro", não foi uma grande surpresa. Há 50 anos - quase tanto tempo como aquele em que os cientistas têm vindo a apresentar as alterações climáticas como um problema -, outro grupo de cientistas - os virologistas e epidemiologistas - tem vindo a dizer que processos semelhantes, como as nossas perturbações constantes do ambiente, a miscigenação entre espaços urbanos e selvagens, estão a criar riscos extremos de novas mutações de vírus, e a globalização transmite-os por todo o mundo à velocidade de uma ligação aérea.

O desenvolvimento da China, que é uma das principais zonas para este tipo de mutação, acelerou ainda mais este processo. Os primeiros estudos foram feitos em Hong Kong, nos anos 70, quando Hong Kong ainda era uma cidade de província, com criação de galinhas na ilha.

Agora, estamos num cenário ainda mais perigoso. Essas são as primeiras coisas, nessa lista de riscos, desses grandes "riscos de cauda" que teremos de enfrentar nas próximas décadas.

Teremos de acrescentar às alterações climáticas, à erosão dos solos, a todos esses processos ambientais complexos, este tipo de risco também. E este avança rapidamente, não é como as alterações climáticas, em que podemos preparar-nos para elas, achamos nós, ao longo de décadas. Pelo menos nesta fase, porque ainda não estamos no período tumultuoso a que podemos chegar.

Mas este risco pandémico avança de dia para dia. Se tomarmos a decisão errada, pode crescer exponencialmente. E pode afetar todo o planeta, todos os 7,8 mil milhões de pessoas. E isso também é algo que ainda não enfrentamos com as alterações climáticas, as grandes catástrofes climáticas atuais ainda são a um nível macrorregional. É horrível, quando pensamos nisso. Isto pode ser recorrente, não devemos esperar que seja um incidente isolado.

Devemos prever mais pandemias.
Sem dúvida‚ era isso que a ciência nos dizia. E ela faz-nos uma cronologia de "quase-acidentes", de pandemias que por pouco não aconteceram, e esta simplesmente foi a que aconteceu. E ainda não controlamos esta pandemia. Globalmente, é aterrador pensar que ainda não terminou. Milhares de pessoas estão a morrer a cada dia por todo o mundo. Todos os dias surgem centenas de milhares de novos casos e cada um deles traz o risco de uma mutação perigosa que pode penetrar no invólucro de proteção das vacinas.

Devemos então regular o tráfego aéreo, por exemplo?
Devemos ser inteligentes e disciplinados na resposta a este tipo de riscos e, quando surgem más notícias no sistema, devemos ter a mente aberta na forma como reagimos.

Fevereiro foi um mês crucial, em 2020, quando o mundo estava de olhos postos na China, que impôs restrições rigorosas à circulação de pessoas entre Whuan e Pequim. E acho que o mundo pensou: "É como em Chernobil‚ é um problema da China, lá é diferente." E a mentalidade deveria ter sido: se estão a separar Whuan de Pequim, então, devemos separar Pequim de Tóquio, Tóquio de Nova Iorque... E talvez o desfecho não tivesse sido assim tão mau, mas inicialmente devíamos ter adotado o princípio da precaução.

Foi sempre um grande problema no controlo das pandemias, se recuarmos até ao séc. XIX. Podíamos cometer dois tipos de erros. Podíamos decretar uma pandemia quando ela não existe, ou não a decretar quando existe. Vacilamos entre as duas, e há vantagens e desvantagens óbvias em cada estratégia. Há um grande risco de avançarmos demasiado depressa, por exemplo, se encerrarmos o tráfego aéreo. Em fevereiro do ano passado, todos teriam dito que era uma loucura, que não podíamos fazer isso. No fim de março, todos o fizeram, o que acabou por prolongar-se durante vários meses.

"O problema macro no mundo é o clima"

Qual é o maior perigo que temos pela frente?
Em termos globais, o problema macro em discussão no mundo é obviamente o clima, o que amplifica todos estes processos. Mas temos de encaixar as pandemias nesse portfólio da compreensão do tipo de riscos que enfrentamos. Não se trata de trocar um risco por outro, mas ter em geral uma abordagem mais inteligente. No fundo, trata-se de sermos mais realistas em relação aos desafios que se nos apresentam.

Isto foi devastador. É preciso avançar muito nos modelos climáticos para encontrar um cenário com 20 milhões de mortes, o que é uma estimativa por alto do número de óbitos em excesso até agora. Os números oficiais são claramente inferiores, mas estão maciçamente subvalorizados. Estima-se que tenham morrido 20 milhões de pessoas. E, em abril do ano passado, houve uma quebra de 20% no PIB global. É preciso avançar até cenários climáticos realmente devastadores para se chegar a esses números. Neste momento, o risco pandémico apresenta-se como um grande desafio.

A "arma milagrosa" e o falhanço catastrófico

Muitas pessoas dizem que a pandemia não transformou nada, apenas acelerou tendências anteriores. Não sei se concorda com a afirmação, mas vendo a corrida para obter a vacina e a sua distribuição desigual, parece quase uma fatalidade o facto de os países desenvolvidos abandonarem os países pobres sempre que há uma crise. Como se pode ser esperançoso num mundo como este?
A vacina é simultaneamente a história mais esperançosa e a mais deprimente. É a mais esperançosa no sentido em que, quando começou a crise, lembro-me claramente de estar sentado - com a devida distância social - com cientistas e colegas na Universidade de Columbia e de eles dizerem: "Nunca fizemos isto, nunca fizemos uma vacina contra um coronavírus, nunca, nunca fizemos uma que funcionasse, e agora tudo depende de o conseguirmos." E acabámos não com uma mas com vários conjuntos de vacinas, todas elas bastante eficazes e nenhuma se revelou perigosa.

Esse foi o aspeto mais extraordinário e nem sequer foi dispendioso, para os padrões deste tipo de situação. Devemos ter gastado 50 mil milhões de dólares, talvez um pouco menos, no desenvolvimento da vacina. A Operação Warp Speed [projeto público-privado para o desenvolvimento de vacinas para a Covid-19] custo certamente nessa ordem de grandeza.

Conseguimos a "arma milagrosa" que procurávamos, de que precisávamos, e, tal como diz, temos o falhanço catastrófico, lamentável e, em certos aspetos, sim, previsível. E o mais extraordinário é que é um falhanço político, um falhanço moral, um falhanço ético, mas é também um falhanço pragmaticamente.

Não é um cliché do humanitarismo dizer que ninguém está a salvo enquanto todos não estiverem a salvo. É literalmente assim que os vírus atuam, e não estamos à altura. E acho espantoso que estejamos basicamente a apostar na sorte outra vez, como estávamos antes da crise, mesmo enquanto se desenrola.

É ao contrário das alterações climáticas, em que é dito que não podemos agir porque elas acontecerão num futuro distante e afetarão os nossos filhos e netos, deduzimos os custos e quando se fizer alguma coisa já não haverá nada. Aqui trata-se de saber se conseguimos ou não fazer planos para 2022. É isso que está em causa aqui.

Quanto às verbas necessárias para vacinar o mundo, de que se fala, as estimativas mais altas apontam para 100 mil milhões de dólares. Em contrapartida, se não o fizermos, pode ascender às dezenas de biliões. E, se surgir uma variante mais grave, poderá até ultrapassar esses valores. É um enorme falhanço, a meu ver, em termos de racionalidade dos governos.

Se a Europa zerar emissões, isso só reduz as emissões globais em 8%

Analisa frequentemente a atualidade numa perspetiva histórica. Qual foi o acontecimento - económico ou social - que mais o surpreendeu na última década?
O desenvolvimento da China é a história de transformação da Humanidade neste momento. Se olharmos para a questão climática, foi isso que mudou. Nos anos 90, tínhamos um problema climático que era... antigo. Era o velho problema, o problema do Norte, do Norte global, era o problema da Europa e dos EUA, e o dedo era-nos apontado, com toda a justiça: "Este problema é vosso." Tinha sido identificado pelos nossos cientistas e o mundo exigia ao Ocidente que agisse.

A exigência ainda é essa, e deve continuar a sê-lo. A questão agora é que, mesmo que a Europa reduza a emissões a zero, isso só reduzirá as emissões globais atuais em cerca de 8%. Nem sequer se aproxima... Mesmo que somemos a parte de CO2 que vem através das importações, é apenas uma pequena fração de uma história que é agora verdadeiramente global. Foi essa a transformação.

Para as pessoas da minha geração, que cresceram nos anos 70 e 80, a China era um fenómeno longínquo. O papel da revolução cultural foi épico, importante. Mao ainda estava vivo. Os "dinossauros" dominavam o mundo, ainda era bastante acentuado, mas não afetava as nossas vidas de forma direta, e a transformação dos últimos 10-20 anos significa que a China se tornou essencialmente o ponto central da maioria dos problemas globais cruciais. Basicamente, estamos a ir no embalo deles, sobretudo na questão climática, em que a solução está inteiramente na mão dos chineses. Se eles derem o passo, há uma solução possível. Caso contrário, ela não existe.

Essa é uma perspetiva notável. Eu sou inglês, você é português, ambos assistimos ao declínio dos nossos impérios. Ambos sabemos o que é viver num país que foi outrora um ator global e deixou de o ser nesses termos. Isso leva-nos para um outro nível, no sentido em que, façamos o que fizermos, o nosso destino e o dos nossos filhos e netos já não está nas nossas mãos.

Obviamente, também não está nas mãos da China, por si só, mas é o principal fator nesta equação, isso é bastante claro.

"Há regimes comunistas a presidir a milagres de crescimento"

É estranho para um ocidental ver este crescimento da China no mundo. Até porque a China não é uma democracia, não é tão transparente como gostaríamos, mas está a crescer e a aumentar a sua importância como superpotência. Como põe isto em perspetiva, como explica isto, de um ponto de vista histórico?
Bom, acho que uma forma de ver as coisas é que põe em causa se ganhámos mesmo a Guerra Fria.

O Ocidente ganhou uma Guerra Fria e isso mudou a política na Europa de uma forma muito acentuada. E isso é fundamentalmente inegável. Mas, se olharmos para o quadro geral, o movimento revolucionário do Marxismo, em última análise, teve a sua maior expressão na Ásia, e, quer olhemos para a China, para o Vietname ou até para a Coreia do Norte, nos locais onde o Comunismo se implantou, na Ásia, no Leste da Ásia e em particular no Nordeste da Ásia, provou ser robusto.

E, tanto no Vietname como na China, temos regimes comunistas unipartidários a presidir a milagres de crescimento. O do Vietname, neste momento, é um dos mais espantosos e acentuados no mundo. E não são regimes... não são regimes-satélite que instalámos no seio do Exército Vermelho. São regimes nacionais, regimes nacionais poderosos legitimados maciçamente e refutaram a hipótese liberal de que o crescimento, o progresso e a sofisticação tecnológica andam necessariamente de mão dada com a liberdade de expressão liberal, direito de voto e normas democráticas tal como as entendemos. E penso que será arrogante da nossa parte, no Ocidente, presumir que as ciências sociais que retiramos da nossa experiência podem ser transpostas.

Na América, em particular, grandes equipas dentro da comunidade das ciências sociais estão empenhadas na ideia de que a armadilha do rendimento médio acabará por ser também a ruína da China, de que a China não pode crescer para além do seu atual nível de rendimento sem fazer reformas mais substanciais, como lhes chamam, ou, por outras palavras, sem convergir para as normas ocidentais. Penso que essa é a grande questão dos próximos 20 a 30 anos, e a forma como isso se irá desenrolar não é óbvia para mim. Mais uma vez, penso que a atitude adequada é de humildade, neste contexto, porque nenhum país, nenhuma nação, nenhum regime, em momento algum, conseguiu concretizar o tipo de progresso material que o regime do Partido Comunista da China conseguiu. E eu não quereria viver sob aquele regime, acho que não conseguiria, tendo em conta os meus hábitos de expressão, mas a realidade material e a força do que aquele regime concretizou, durante a última geração, são inegáveis.

A propaganda do regime chinês na pandemia

O Ocidente pode ser dominado por esse poder? Ou seja, o Ocidente está em declínio, não só económico, mas também a nível dos nossos valores democráticos e humanitários, na Europa e nos EUA?
Acho que só depende inteiramente de nós. Já não estamos nos anos 50 ou 60, quando o Comunismo chinês exercia uma considerável influência ideológica também na Europa. Havia maoístas em França, nos anos 60 e 70. Isso parece uma hipótese irrealista, no momento atual. Nem o regime chinês aspira a ter esse tipo de influência revolucionária global, não é esse o seu programa. Por isso, acho que o nosso destino, pelo menos nesse sentido, está inteiramente nas nossas mãos.

Se a Democracia entrar em declínio no Ocidente, sou muito cético em relação aos que queiram atribuir isso à interferência russa ou à subversão da influência chinesa através dos Institutos Confúcio. Pode não ser bom tê-los nos “campus” das universidades ocidentais, há muitos bons motivos para isso. Mas os problemas da cultura política europeia e americana são esmagadoramente internos, acima de tudo. Então, a posição em que estamos deve-se só a nós.

E isto também se aplica à covid. Nós entregámos o sucesso à China. Se o relógio tivesse parado no final de fevereiro de 2020, isto teria sido o pior desastre que se teria abatido sobre o regime comunista chinês desde o fim da Revolução Cultural. Tinham metido os pés pelas mãos. Os sistemas de informação deles não tinham funcionado e só conseguiram controlar o vírus fechando a economia como nunca tinham feito, certo? E não era algo que a China tivesse o hábito de fazer, e o impacto económico e social na China foi extremamente severo. Continua a ser, para os mais desfavorecidos. As reportagens sobre a China centram-se sempre nas cidades ricas ou nas grandes firmas, mas a grande maioria dos chineses trabalha em pequenos negócios, muitos deles privados, principalmente no setor dos serviços, e esses foram bastante afetados.

Se o relógio tivesse parado aí, teria sido realmente um desastre para o regime chinês. Mas depois o relógio começou, o jogo continuou, entrámos na segunda parte e, na segunda parte deste jogo, a Europa e os Estados Unidos marcaram autogolos atrás de autogolos atrás de autogolos. E, em maio, Pequim dá a volta por cima, essencialmente, com uma espetacular vitória de propaganda, uma enorme apologia histórica da forma como fazem as coisas.

A política americana mudou para um ceticismo radical

Diz que a culpa do declínio ocidental não é da Rússia nem da China. Vem de dentro. Os problemas vêm de dentro. Está a referir-se aos surtos de populismo?
Não sei se lhe chamaria declínio. Depende de como quer explorar a sua ideia.

No frente-a-frente com a China.
Penso que para um político americano, pode-se falar em declínio, sem dúvida. O estado que a democracia americana revelou em 2020 é aterrador. É absolutamente chocante. Julgo que muitos especialistas em história política americana concordam que mesmo para alguém como Nixon, esse nível de discurso político, a capacidade para o bipartidarismo, e a vontade de organizar debate político acerca de ciência não foram contestadas da mesma forma que agora. Nixon criou a Agência de Proteção Ambiental. Era um ambientalista, à sua maneira. Não existia uma disputa fundamental acerca da validade da investigação científica básica.

A cultura política americana mudou para um rumo de ceticismo radical, por parte de religiões evangélicas independentes e bizarras, por vezes. Outras vezes, nem tanto. É uma configuração muito estranha que está apegada e inserida numa Constituição do séc. XVIII, que está organizada em torno do equilíbrio de poderes. Isto resulta numa amálgama extraordinária e disfuncional, que os partidos políticos antigamente faziam funcionar. Permitiam o surgimento de coligações capazes de governar. Não é óbvio que isso ainda resulte, nos Estados Unidos. Assim, o que acontece, é que as decisões passam para agências tecnocráticas, como a Reserva Federal ou para a Segurança Nacional, e isso atenua ainda mais o espaço político, porque muitas das decisões são passadas para outras agências.

Populismo? O problema não tem esse nome

Então não está preocupado com as tendências populistas na Europa?
Julgo que ainda estamos para ver, na Europa, com a única exceção do caso italiano, um partido dito populista a governar. Na Europa Ocidental, pelo menos, nos estados ocidentais importantes. Podemos dizer que a Polónia tenha tido um populismo nacionalista, mas não sei se "populismo" define o que eles defendem. Acho que é apenas um partido de conservadores nacionais, no caso da Polónia. Depois, os cônjuges, o esbanjamento, as prioridades que têm... Talvez o rótulo de "populismo" não seja uma grande ajuda.

Eu acho que 2020, no que se refere à política europeia, foi bastante encorajador, para ser sincero. Não foi tão mau, certamente, como a resposta à crise de 2010. Abriu-se uma variedade de opções. Julgo que os processos de normas democráticas foram absolutamente mantidos. Eu digo estas coisas e todos concordam comigo, mas do ponto de vista americano isso não pode ser tomado como certo.

Parece-me bastante otimista, relativamente à UE. Isso inclui a economia? Será que a UE, a Europa, enquanto concorrente da China e dos Estados Unidos, tem hipóteses?
O cenário não é animador. Se olhar para os números, o cenário é péssimo, na verdade. O livro tem um gráfico que é bastante chocante. Mostra a curva do PIB europeu, chinês e americano. O gráfico sofre uma quebra, entre 2008 e 2012: a economia europeia entra numa recessão prolongada. Não chegou ainda a recuperar, em termos de crescimento.

O otimismo em relação à Europa, por incrível que pareça, é na política. Por outras palavras, em 2020, as dificuldades económicas a longo prazo poderiam ter sido pioradas por uma crise política e isso não aconteceu. Se a Europa conseguir crescer economicamente... é uma pergunta que fica em aberto. Podemos perguntar simplesmente: "Por que razão isso é prioritário?" Para mim, não ‚ claro que a prioridade deva ser essa. A Europa é um continente com uma riqueza extraordinária, com imensa sofisticação, uma qualidade de vida invejável, comparativamente a qualquer outro sítio do mundo.  A prioridade mais importante é chegar a um sistema económico sustentável, tal como o que conseguimos com a transição energética. Isso pode ou não gerar crescimento. Pode muito bem gerar crescimento, ou pode gerar uma nova vaga de inovação, e a Europa está bem posicionada para estar na vanguarda.

Acho que o crescimento, por si, para o continente europeu, com a sua população a envelhecer, não é a prioridade. A prioridade deverá ser tornar a vida dos europeus e o sistema social existente mais sustentável. Isso inclui a componente ecológica e contém um elemento social importante. Para sociedades ricas, tal como os EUA ou a Europa, o crescimento em si não é prioritário para a maioria das pessoas. Para muitos, o mais importante é a distribuição do bolo. Porque há muita riqueza para todos, se for distribuída de uma forma razoável e justa. Justa relativamente a dar segurança e oportunidades às pessoas. Abrir possibilidades de educação, para os jovens. Uma política construtiva, na Europa, não deve ser apologista do decrescimento, a agenda ecológica não se opõe radicalmente ao crescimento, mas devia ser apenas relativamente descontraída em relação ao crescimento e muito, muito concentrada na transição energética e nas questões de justiça social.

E em sociedades como a espanhola, a portuguesa e a italiana, que têm taxas de desemprego muito altas entre as camadas jovens, a prioridade dever ser esse tipo de problemas e não o crescimento económico no geral. Deve ser garantir que as gerações mais jovens têm uma oportunidade justa de começar a vida, que têm oportunidade de ter carreiras de sucesso e de conseguir aproveitar os benefícios de uma educação moderna. As prioridades devem ser essas. O meu ênfase seria deixar o crescimento tomar conta de si próprio.

É claro que isto tem implicações na forma de tratar várias questões. Para ter este tipo de visão quanto ao crescimento, temos de deixar de nos preocupar tanto com a dívida. Uma das razões que nos leva a pensar no crescimento do PIB é a rácio entre dívida e PIB. Se isso dominar a política europeia, então o crescimento tem de ser prioritário. Mas, para mim, essa é uma escolha nossa.

Isso é olhar para o capitalismo de uma forma diferente.  
Bem... sim.

Não é só correr sempre atrás do crescimento.
Sem dúvida. Repito, é deixar o crescimento tomar conta de si próprio [risos]. Os negócios vão e vêm, têm altos e baixos. Vamos recuar e pensar nas questões cruciais que realmente são importantes para nós, pessoas. E não se trata de um sermão sobre humanismo ingénuo, não se trata de negar o facto de que o poder é importante, mas de pensar no que seriam as implicações do que vamos fazer em relação à regulação das empresas, por exemplo, daquelas que são as outras prioridades. Ou seja, começar pelas coisas que inegavelmente precisam de estar na linha da frente e onde é urgente atuar.

Ainda há padrões muito substanciais de desvantagens herdadas em todas as sociedades europeias. Temos de aceitar a questão da imigração. Qual vai ser a estratégia da Europa a longo prazo em relação à atual população envelhecida e à enorme população jovem no continente africano, a sul? Qual é a resposta a essa resposta? Respondam a essa pergunta e veremos o que acontece ao crescimento. Muito provavelmente, irá retomar, se adotarmos uma atitude mais expansiva em relação à imigração. Uma das coisas que se preveria, exceto nas premissas liberais, é o dinamismo. É uma das coisas que vimos evoluir ao mesmo tempo que a migração, como entre o Reino Unido e a Polónia, que foi uma das grandes histórias de sucesso dos anos 90 e 2000. Mas o que também vimos foi que, se fizermos isso sem dar atenção às questões sociais, é perigoso.

São esses tipos de ligações que podemos retirar: não dar prioridade ao crescimento só por si, mas dar prioridade às questões fundamentais que têm de estar no topo da agenda.

A boa experiência política portuguesa

Olhando para a política europeia, Portugal vai agora a eleições, depois de seis anos de uma solução invulgar e original de uma aliança entre partidos da esquerda. Foi quase um caso de estudo para outros países europeus, que se sentiram inspirados pelo cenário português. Os políticos estão a tornar-se mais criativos?
Eu fui um dos que apoiaram a coligação portuguesa. Nasceu em circunstâncias muito difíceis, não se esperaria que a "criança" sobrevivesse, foi encarada com muita reserva, na altura. Foi também um passo político histórico. Muitos recearam a participação de comunistas no governo, mas outra forma de ver isto é que finalmente ultrapassámos um bloqueio de ambos os lados, que um partido foi levado para o sistema político, para a política convencional, pelo menos, até certo ponto, ao envolver-se no governo. Penso que isso é um gesto muito criativo e positivo.

É um dos motivos pelos quais sou um pouco cético de se falar demasiado de populismo. Porque o populismo é uma forma de afastar as pessoas, é uma forma de dizer: "Não, tu não fazes parte. O que estás a fazer é inadequado." E penso que isso é uma forma muito pouco criativa, uma forma algo irrefletida dos convencionais se exprimirem, é desconfortável e inquietante.

Se pensar na sociedade europeia, e por exemplo num país como Itália, em que houve um desempenho abismal em termos económicos, não são só nos números como na experiência dos jovens italianos e dos extraordinários obstáculos que enfrentam para conseguirem uma vaga no mercado de trabalho, para arranjarem habitação... Não me surpreenderia por isso que os Italianos dissessem: "Queremos algo novo, diferente, tem de haver de uma solução." Esse tipo de energia e de ativismo não me parece saudável para que se possa dizer: "Isso é um problema dos outros, deve ser decidido lá fora." Portanto, encontrar nichos onde os novos partidos políticos consigam formar um Governo é profundamente salutar.

É isso que se espera da Democracia. Todas as experiências desse género são bem-vindas até certo ponto. Obviamente, umas são mais funcionais ou disfuncionais do que outras, mas alguns dos efeitos secundários das estruturas europeias e de que nos queixamos amiúde e podemos sempre dizer que é assim que os Italianos fazem, o “vincolo esterno”, como eles dizem, o constrangimento externo. Também criam uma espécie de zona segura. Foi um Governo radical, incluía partidos que nunca foram governo em Portugal desde o início da Democracia, mas também estava limitado no seu raio de ação, que é, até certo ponto, definido pelo quadro europeu.

No âmbito europeu, há pesos e contrapesos notáveis que, segundo me parece, fazem parte desta experiência de abertura e de inovação democráticas. Também há limites rígidos, como estamos a ver na Polónia, em que a Europa pode opor-se, dizer que não pode ir tão longe, que essa experiência de soberania nacional, no que diz respeito ao Estado de Direito, é inaceitável para a Europa. Isso é doloroso para mim enquanto europeísta, custa ver isso, mas parece ser o sistema em funcionamento, a impor-se e a tentar definir limites. Em última análise, se resultar na saída da Polónia da UE será uma tragédia. Estou confiante de que os eleitores polacos não vão apoiar isso. Não me parece que o peso da opinião pública na Polónia possa indicar que está a ser uma estratégia bem-sucedida.

Genericamente, a experimentação democrática é a solução. Sou um grande fã… "fã" pode não ser a palavra mais correta, mas admiro a forma como o sistema político da Alemanha oriental se integrou na Alemanha unificada e num dos mais sofisticados sistemas políticos democráticos do mundo. Nem sempre foi assim. Nos anos 50 e 60 foi muito redutor, bastante limitado pela Guerra Fria e pelo trauma do período nazi. Willy Brandt, o grande líder social-democrata no final dos anos 60 fez campanha assente no slogan "Mehr Demokratie Wagen", isto é, "Ousem tentar ter mais democracia". Julgo que é um slogan muito importante.

O facto de o Partido dos Verdes ter surgido nos anos 80 e se ter transformado no formidável partido político da atualidade isso é o elemento-chave do cenário político alemão e uma fonte de dinamismo em geral para as políticas na Europa, é uma herança desse tipo de trajetória.

Portanto "integrar" em vez de "afastar".
Sim, é isso.

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