Gripe das aves. Ameaça de pandemia é muito baixa. Mas “pode mudar num piscar de olhos”

16 nov 2024, 08:00
Galinhas

Especialistas descartam alarmismo, mas há cada vez mais estudos sobre o que parece ser um risco anunciado. Afinal, a História já mostrou mais do que uma vez como os vírus conseguem surpreender

O risco existe. Baixo, ainda em papel, na teoria e sob análise, mas existe. A gripe das aves, sobretudo a causada pelo subtipo H5N1, tem um potencial pandémico que os especialistas e autoridades de saúde dizem que não pode ser ignorado. A deteção deste vírus, outrora apenas de aves, em vacas leiteiras e em porcos fez os cientistas levantar o sobrolho sobre o que parece ser um cenário já anunciado. Só não se sabe como, quando e onde irá ocorrer.

“Este é um vírus potencialmente pandémico, sem dúvida, mas a probabilidade de acontecer uma pandemia é baixa. Mas está na lista das possíveis pandemias a acontecer. Um dia, nunca saberemos é quando”. Paulo Paixão, professor assistente na NOVA Medical School e investigador no Comprehensive Health Research Centre da mesma universidade, diz que há muito que se suspeita da possibilidade de uma nova pandemia nascer à boleia do Influenza. E segundo o mesmo responsável, o receio de ser o HN15 o responsável já existe desde 1997, quando se de deu o grande surto em Hong Kong, que levou ao abate de 1,5 milhões de aves domésticas e trouxe para a história o primeiro caso de uma pessoa infetada, uma criança de três anos que acabou por morrer.

O vírus Influenza, nas suas mais variadas formas, parece, de facto, ser o mais propício a dar origem a uma nova pandemia, segundo defendem 57% dos principais investigadores mundiais, baseando-se nas várias investigações de longa data que mostram que o Influenza está em constante evolução e mutação, o que aumenta a probabilidade de se tornar mais patógeno e transmissível entre espécies. Já em 2022, num artigo que assina na Acta Médica Portuguesa, com o título Qual é o potencial pandémico dos vírus emergentes?, Paixão defende isso mesmo, que “os vírus da gripe (intencionalmente no plural) são sempre fortes candidatos, podendo a ameaça surgir sob várias formas”. 

O virologista defende que ainda não há razão para estarmos alarmados, mas apela à atenção. “É uma situação preocupante e este alarme que agora surge é porque [o vírus] foi detetado em mamíferos muito perto de humanos”, diz, referindo-se ao surto de abril detetado em vacas leiteiras nos Estados Unidos, cuja presença do H5N1 foi encontrada no leite destes animais. E a chegada deste vírus de aves a outros animais, alguns deles bem mais próximos dos humanos, os porcos e até gatos (como aconteceu na Polónia), é um dos fatores que leva a comunidade científica a acreditar que uma pandemia de gripe das aves pode estar iminente. De salientar que H5N1 também foi recentemente detetado em focas, golfinhos e leões-marinhos na América do Sul.

Em abril, oito estados norte-americanos confirmaram casos de gripe aviária em 33 manadas de gado leiteiro. Foi também encontrado vestígios do vírus no leite dos animais (Associated Press)

Scott Hensley, professor de microbiologia na Universidade da Pensilvânia, é um dos que tem estudado o risco de uma pandemia à boleia da gripe das aves. Algo que diz que começa já a dar sinais de se estar a formar. “Parece uma pandemia que se desenrola em câmara lenta”, disse à Reuters. Embora defenda que, “neste momento a ameaça é muito baixa”, o cientista deixa o aviso: “Isto pode mudar num piscar de olhos”.  

Esta crença tem impulsionado estudos, análises e até a preparação de vacinas. Tudo ainda numa ótica de prevenção de males maiores. “No mundo da investigação, o risco pandémico passou a ser uma questão muito na ordem do dia com a pandemia covid-19 e com a facilidade com que o vírus [SARS-CoV-2] mudou. Esta velocidade da covid infetar humanos, um vírus acabado de chegar aos humanos, levantou a questão de até que ponto conseguimos prever a evolução dos vírus. Para o H5N1 há várias linhas de trabalho iniciadas para isso mesmo, mas é extremamente difícil prever o caminho de evolução”, explica Miguel Castanho, bioquímico e investigador principal no Instituto de Medicina Molecular (IMM), que lidera o projeto NOVIRUSES2BRAIN, um consórcio europeu que está a tentar desenvolver um medicamento antiviral de muito largo espectro e que conta ainda com os bioquímicos portugueses Cláudio Soares e Tiago Brandão Rodrigues.

A gripe das aves tem estado de tal modo debaixo de olho da ciência que há já vacinas em desenvolvimento. Nenhuma delas irá travar uma pandemia, mas poderá travar males maiores, dizem os dois entrevistados. “Ao longo destes anos todos, vários centros têm vindo a preparar potenciais vacinas para este risco pandémico, mas não conseguimos preparar uma vacina com muita antecedência porque não sabemos a linhagem”, explica Paulo Paixão. E Hensley é um dos nomes nesta vontade de travar males maiores, fazendo parte de uma equipa que está a desenvolver uma vacina experimental de mRNA (o mensageiro usado nas vacinas contra a covid-19) contra o vírus da gripe aviária H5N1, que já se mostrou “altamente eficaz na prevenção de doenças graves e morte em modelos pré-clínicos”, como se lê no site da universidade. Na Nature Communications, os cientistas dizem que a vacina poderá ajudar a controlar o surto do vírus H5N1 que já circula nos EUA.

Uma das primeiras vacinas apareceu apenas oito anos depois do grande surto de Hong Kong, quando cientistas húngaros apresentaram uma vacina experimental que, à data, tinha produzido anticorpos no sangue das pessoas e animais inoculados e cujos resultados preliminares indicavam que evitava com uma segurança de 99,9% o contágio de animais a pessoas.

Como pode um vírus de aves apresentar um risco pandémico para humanos?

A gripe das aves pode ter origem em vários subtipos do vírus Influenza A (a OMS relata sete recentemente detetados em humanos), sendo o H5N1 e o H7N9 os mais conhecidos por terem sido responsáveis pelos dois principais surtos da doença em humanos que estiveram em contacto com aves contaminadas ou com secreções destes mesmos animais. Entre 2003 e 2023, foram registrados mais de 896 casos de H5N1 em humanos, uma média de 45 por ano.

Os recentes surtos em outros animais “levantou preocupações sobre o aumento do risco de transmissão sustentada de humano para humano”, como se lê num estudo publicado na The Lancet Infectious Diseases. “Isto significa que o vírus está a começar a adaptar-se aos mamíferos, a crescer mais em mamíferos”, adverte o virologista Paulo Paixão. No entanto, até ao momento, não há provas de qualquer tipo de transmissão entre pessoas

Então, se são “raríssimos os casos de transmissão entre humanos”, tão raríssimos que pouco ou nada são mencionados na literatura, como diz Paulo Paixão, porque é que a gripe das aves pode vir a ser uma pandemia? Ora, aqui entram vários fatores na equação, todos eles já identificados e analisados. Um deles, continua Paixão, é o facto de “o vírus estar a espalhar-se em animais mais perto de nós”, como o caso de vacas e animais domésticos. A proximidade, por si só, é um fator de risco, até porque a maioria dos casos de infeção em humanos até agora documentados tiveram origem em aviários, com os funcionários em grande risco de contrair o vírus. Um outro motivo, acrescenta o investigador Miguel Castanho, está relacionado com a “possibilidade de o vírus mudar” por estar a transitar de espécie animal em espécie animal. E isso já se tem verificado, como relata um outro artigo publicado na Lancet, que diz que “com o tempo, o vírus evoluiu para múltiplos clados (organismos que têm um ancestral comum) e subclados genéticos por meio da acumulação de mutações e rearranjo genético com outros vírus da gripe aviária”. E Paulo Paixão diz mesmo “o risco é esse, o vírus vai adaptando-se cada vez mais aos recetores de espécies mais parecidas connosco. Isso aumenta o risco [de transmissão]”.

Em 2005, o à data ministro da Saúde da Hungria, Jeno Racz, mostrava a evidência de um teste positivo para o H5N1 depois de químicos húngaros terem desenvolvido uma vacina contra o vírus. (Associated Press)

“O risco pandémico vem do facto de o vírus poder mudar no humano”, dando origem àquilo que a ciência chama “vírus transformado”, que “pode ser mais adaptado aos humanos” e, por isso, mais transmissível e mais propenso a causar doença grave, explica o virologista Paulo Paixão. E se tal acontecer, “começa aí uma cadeia de transmissão, é preciso estar atento para saber onde ocorrem estes fenómenos”, acrescenta o bioquímico Miguel Castanho.

Apesar de esta possibilidade estar em papel há muito tempo, o investigador do IMM alerta que, porém, “não é possível ainda prever com muita exatidão o que vai ser a evolução do vírus”, podendo, por isso, uma possível mutação, mesmo esperada, irá apanhar todos de surpresa. Mas a verdade é que pode até nem vir a acontecer. “Não é uma certeza que isso vá acontecer e não é uma inevitabilidade”, atira Castanho.

Mas há ainda um outro fator para o potencial pandémico: a combinação vírica, embora este seja o menos provável ou, o provavelmente menos perigoso. Paulo Paixão lembra o alarmismo que houve quando se começou a falar da combinação de covid-19 com gripe, “dizia-se que ia ser gravíssimo e não foi”. Mas, mais uma vez, é uma possibilidade já estudada. “Houve um caso detetado de H5N1 num porco nos EUA. É um caso isolado, mas o porco é um animal perigoso para a gripe, pode ser infetado por estipes aviárias e humanas ao mesmo tempo, se isto se espalhar mais nos porcos há um risco de haver no mesmo animal dois vírus, uma fusão, uma combinação de genes que levanta alguma preocupação. Mas esta é uma coisa pontual”, apressa-se a dizer, quase como se estivesse a falar em voz alta durante uma análise laboratorial sobre o tema. “É isso mesmo, um risco em papel”, diz.

Num artigo de opinião na Frontiers in Microbiology, três cientistas italianos, dizem que é pouco provável, pelo menos a curto prazo, que o H5N1 cause uma pandemia e dão três razões para tal: o vírus ainda não demonstrou uma transmissão aérea eficiente, ao contrário de outros vírus respiratórios ou de outras formas de Influenza; o vírus ainda precisa adquirir certas características genéticas por facilitar a transmissão generalizada à população humana; e o mapa logístico da teoria do caos diz que o risco de haver uma pandemia por H5N1 é "consistentemente abaixo de 1", mesmo que na equação tenha sido colocados os dados dos surtos mais recentes.

O risco de o vírus das aves escolher os humanos como hospedeiro

Os vírus precisam de uma forma de penetrar nas células. No caso do vírus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2, o protagonista é um recetor chamado ACE2. No caso dos vírus da gripe, o Influenza, é uma molécula de açúcares que se destaca da superfície das células, chamada ácido siálico. Como explica este artigo da CNN Internacional (que pode ler em português aqui), diferentes animais possuem diferentes formas de ácidos siálicos, sendo que as aves têm recetores de ácido siálico com formas ligeiramente diferentes das que os humanos têm no trato respiratório superior. E esse parece ser um motivo pelo qual o H1N5 detetado em abril em vacas norte-americanas não se propagou eficazmente entre as pessoas. O que são boas notícias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que o risco do tipo H5N1 para os humanos é “baixo”, porém, manifesta, ainda assim, uma “enorme preocupação” pelo receio do H5N1, com “uma taxa de mortalidade extraordinariamente elevada” (52%) nas pessoas contaminadas, se adapte e passe a ser capaz de se transmitir entre humanos.  O facto de o H5N1 estar associado “a maior mortalidade à taxa de mortalidade” acaba por ser o ponto que Paulo Paixão destaca e aquele que diz que é mais preocupante caso se dê uma pandemia, pois, na prática, metade das pessoas infetadas com H5N1 morre. 

O artigo de revisão científica Alerta global para infeção pelo vírus da gripe aviária: do H5N1 ao H7N9, publicado em 2023, fala disso mesmo, da grande taxa de mortalidade que a gripe das aves causa em humanos. “Uma cepa especialmente notória é o vírus influenza HPAI H5N1, que tem uma taxa de mortalidade de aproximadamente 60% e que resultou em inúmeras hospitalizações, mortes e perdas económicas significativas”, lê-se na publicação.

Em 2014, um surto de gripe das aves em East Yorkshire, Inglaterra, levou ao abate de seis mil patos (Getty Images)

Mesmo com a má notícia da deteção do vírus em vacas leiteiras, Paulo Paixão diz que prefere olhar, “com atenção”, para as “boas notícias” neste episódio: “Nos EUA, as infeções têm sido ligeiras, como infeções respiratórias altas e conjuntivite, não tem causado pneumonias, o que quer dizer que o vírus que lá circula ainda não está muito adaptado a nós para causar doença grave”. 

O facto de o H5N1 circular há quase 30 anos e de o humano estar mais do que ‘habituado’ a conviver com o Influenza, nas suas mais variadas formas, poderá ser uma vantagem, como revela um estudo publicado este verão na Nature, que dá conta que o corpo humano pode ter algum tipo de imunidade já adquirida para fazer frente às complicações de uma infeção. “As populações mais velhas podem estar mais protegidas do que as mais jovens devido à exposição a cepas "compatíveis" durante a infância, mas uma pandemia de H5N1 provavelmente causará na mesma um grande impacto”.

E se houver mesmo uma pandemia?

Para que haja, de facto, uma pandemia, é necessário que ocorram três fatores: “a emergência na população humana de um vírus novo para qual a generalidade da população nunca tenha tido contacto e não haja imunidade; a transmissão eficaz entre humanos, o que o obriga à capacidade de ligação eficaz aos recetores das células humanas; e a capacidade de provocar doença potencialmente grave”, como explicou à CNN Portugal pneumologista Filipe Froes, que coordenou o gabinete da covid da Ordem dos Médicos durante a pandemia de covid-19. 

Em todo o mundo, há já há largos anos uma grande rede de vigilância e uma série de medidas definidas para tentar evitar que o H1N5 se torne um risco ainda maior para os humanos. “Se estamos a falar do caso do Canadá é porque o sistema funciona”, diz Miguel Castanho, referindo-se ao caso do adolescente infetado que num instante foi notícia em todo o mundo.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar descrevem o conceito One Health como o mais acertado a seguir, uma vez que coloca na mesma equação a saúde humana, animal e ambiental. Por cá é a Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) quem monitoriza e quem deve ser alertada da suspeita ou confirmação do vírus em animais, uma vez que a gripe aviária é de notificação obrigatória. Já ao Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que trabalha em parceira com a OMS, cabe a monitorização do vírus em humanos, despistando o subtipo de Influenza que circula nos casos que testam positivo.

O bioquímico Miguel Castanho defende que todo este trabalho de análise, de antevisão e a rede de monitorização criada faz com que estejamos “preparados” para a chegada de uma nova pandemia, pelo menos, não seremos apanhados de surpresa como aconteceu com a covid-19. “Mas não é o mesmo que dizer que controlamos tudo, temos a capacidade de antecipar, de preparar uma reação rápida para prevenir que cheguemos a um ponto incontrolável, mas não conseguimos prever o quando, a natureza manda, mas conseguimos, quando detetada [a pandemia], ter alguma reação rápida com transparência, comunicação e mecanismos preparados para isso mesmo”, diz, concluindo: “Uma ocorrência de pandemia não pode ser diferente de outra ocorrência em Proteção Civil, temos de saber o que fazer em caso de cheias, terramoto e, também, em caso de uma potencial pandemia”.

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