Covid-19: novo estudo explica motivo pelo qual os ginásios (e não só) podem ser polos de transmissão

26 mai, 08:00
Ginásio

Os números são impressionantes, mas os especialistas sublinham que esta descoberta se aplica a vários outros locais

Os cientistas já sabiam que a transmissão aérea da covid-19 através de aerossóis – pequenas partículas que se espalham no ar quando respiramos – é consideravelmente maior durante a prática de exercício físico em espaços fechados. No entanto, um estudo publicado por uma equipa de investigadores da Universidade de Munique revela que uma pessoa emite 132 vezes mais aerossóis por minuto enquanto faz exercício físico do que durante um momento de descanso, algo que os especialistas acreditam poder levar à criação de polos de transmissão da doença.

Os números são impressionantes. Quando estamos completamente imobilizados, a descansar, expelimos em média 580 partículas por minuto. Porém, durante exercício físico de alta intensidade, levado até à exaustão, uma pessoa pode expelir até 76.200 partículas por minuto.

“Estes dados não só explicam as transmissões de SARS-CoV-2 durante exercícios em grupo em espaços fechados, mas também podem ser utilizados ​​para projetar medidas de mitigação mais direcionadas para atividades físicas em ambientes fechados, como aulas de educação física na escola, eventos de dança durante casamentos ou aulas de ginástica de alta intensidade, como o spinning", pode ler-se no estudo

Henning Wackerhage, o co-autor do estudo e professor de biologia do exercício na Universidade Técnica de Munique, mostrou-se surpreendido com o resultado do estudo, que vem dar uma nova profundidade ao conhecimento científico sobre o número de partículas por litro de ar, durante o exercício físico de alta intensidade.

“Nós sabíamos que, quando fazemos exercício físico, há mais ar a sair do corpo humano. Mas nós não sabíamos, e eu não o esperava, que quando nos exercitamos muito, existem mais partículas por litro de ar”, disse o professor da universidade em declarações à revista Time.

Para chegar a esta conclusão, os cientistas colocaram várias pessoas a fazer exercício até à exaustão em bicicletas estáticas com uma máscara de silicone na cara, que estava ligada a um recipiente de plástico, que armazena e mede os números de partículas. Este “circuito fechado” de ar permitiu aos investigadores conseguir obter uma imagem mais clara do número de partículas expelido por cada um destes indivíduos, eliminando fontes externas de contaminação.

Porém, a equipa de investigadores alemães admite que o estudo tem algumas limitações, começando pelo número de pessoas que participaram na amostra: apenas 16 pessoas foram sujeitas a testes. Além disso, nenhum deles estava positivo para a covid-19, mas os cientistas justificam essa ausência com as preocupações éticas sobre os possíveis riscos para a saúde dos participantes.

Os cientistas sublinham também que, embora a emissão de partículas de aerossol seja um dos principais riscos para a transmissão da SARS-CoV-2, não é o único risco, pois a infeção também depende da concentração do vírus nas partículas libertadas.

O estudo mostra também que as concentrações de partículas de aerossol no ar expirado variam muito de pessoa para pessoa. Pessoas com uma melhor preparação física expelem 85% mais partículas que outros participantes. Os investigadores justificam com a maior necessidade de fornecer oxigénio aos músculos. De acordo com os resultados deste estudo, a distribuição de partículas não apresenta uma variação significativa entre homens e mulheres.

“Não são só os ginásios". Atenção à ventilação

Para os especialistas, não é novidade que espaços menos ventilados e com uma maior concentração de pessoas representam têm mais risco de transmissão de doenças como a covid-19. Locais onde existem muitas pessoas a cantar ou a dançar são indicados pelas autoridades de saúde como potenciais locais de transmissão. Nesse sentido, isolar os ginásios como locais mais propícios para a disseminação do vírus não é justo, sublinha Bernardo Gomes, médico de Saúde Pública.

“Não são só os ginásios, são os espaços físicos interiores sem ventilação. A ventilação é o mais importante. A qualidade do ar interior vai ter de ser uma prioridade nos próximos anos. Locais com menor ventilação são os locais mais propícios à necessidade de utilizar máscara”, frisou o médico de Saúde Pública, que acrescentou que as pessoas podem procurar estabelecimentos de maiores dimensões, que permitam uma melhor circulação do ar e mais espaçamento entre as pessoas.

Além disso, os ginásios não são todos iguais e a utilização de máscara não resolve o problema quando praticamos algumas modalidades nos ginásios. Por isso, o especialista aconselha a que tenha em conta os horários de utilização e a ter atenção à ventilação dos espaços interiores onde pratica exercício, particulamente em alturas em que se sabe que o vírus está a circular com maior intensidade.

Recorde-se que a média de infeções voltou a aumentar em Portugal. Esta quarta-feira, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) revelou que o número de casos subiu de 22.805 para 29.101 casos diários em Portugal e todas as regiões registam um índice de transmissibilidade (Rt) do coronavírus superior ao limiar de 1.

Segundo o relatório semanal do INSA sobre a evolução da pandemia de covid-19 no país, o Rt a nível nacional baixou de 1,23 para 1,13, mas todas as regiões apresentam a média deste indicador a cinco dias superior a 1, o que “indica uma tendência crescente” de infeções.

O Norte está com um Rt de 1,12, o Centro com 1,06, Lisboa e Vale do Tejo com 1,20, o Alentejo com 1,09, o Algarve com 1,12, os Açores com 1,21 e a Madeira com 1,18, refere o relatório. O valor do Rt – que estima o número de casos secundários de infeção resultantes de cada pessoa portadora do vírus – é superior a 1 desde 26 de abril.

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