Gaza continua a concentrar o centro do horror, 72.253 palestinianos mortos desde 7 de outubro de 2023, quase toda a população deslocada pelo menos uma vez e cerca de 81% das estruturas danificadas segundo avaliações das Nações Unidas. Mas, na Cisjordânia ocupada, há uma outra rotina de violência, mais fragmentada e menos visível, que regressa aldeia a aldeia, estrada a estrada, muitas vezes com o mesmo guião: colonos que descem, palestinianos que tentam resistir e militares que chegam tarde ou aparecem do lado errado da cena
Às três da tarde deste sábado, em Mukhmas, a nordeste de Jerusalém, os colonos israelitas desceram do posto avançado de Kol Mevaser e atacaram palestinianos que se tinham juntado na periferia da aldeia para proteger infraestruturas agrícolas. Youssef Hammas Abu Ali, um avicultor da aldeia, relatou que cerca de nove colonos atiraram pedras e dispararam rochas com uma funda. Depois cortaram o arame farpado que os palestinianos tinham instalado para tentar travar novas incursões.
Nem há duas semanas, conta o mesmo morador, homens do mesmo posto tinham tentado atear fogo junto de um galinheiro. Os habitantes ligaram para o exército israelita desta feita. Abu Ali disse ao Times of Israel que os soldados demoraram “mais de uma hora” a aparecer. E quando chegaram, já depois das quatro da tarde, os colonos tinham abandonado aquele local. Não definitivamente. Voltariam ainda mais duas vezes.
O rabino Arik Ascherman, veterano ativista israelita dos direitos humanos, ao Times of Israel, resumiu o que para muita gente ali já soa a rotina: sem detenções, e sem cortar o acesso a Kol Mevaser, os ataques vão continuar.
Mukhmas não é um acidente isolado. O gabinete das Nações Unidas para a coordenação de assuntos humanitários, OCHA, diz que a Cisjordânia ocupada continua a deteriorar-se, com mais vítimas, mais ataques de colonos e mais deslocações forçadas. No relatório de 27 de março, a agência fala em mais de 150 ataques de colonos com vítimas ou danos materiais em cerca de 90 comunidades desde 28 de fevereiro, a uma média de mais de seis ataques por dia. Desde 1 de janeiro, 1.697 palestinianos foram deslocados por violência de colonos e restrições de acesso. E desde 2023, já são mais de 5.600, incluindo 38 comunidades que ficaram completamente despovoadas.
Entre 7 de outubro de 2023 e 15 de março deste ano, 1.071 palestinianos, pelo menos 233 deles crianças, foram mortos na Cisjordânia ocupada, segundo dados citados pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente, UNRWA.
Este março foi deixando exemplos muito concretos dessa rotina. A 17 de março, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou que uma cidadã nacional de 25 anos, agredida num ataque de colonos a uma comunidade palestiniana em Khirbet Humsa, no norte do Vale do Jordão, estava bem e saiu da Cisjordânia com apoio consular.
Neste sábado, a Foreign Press Association denunciou a detenção e agressão de uma equipa da CNN ocorrida a 26 de março, perto de Tayasir, quando os jornalistas filmavam as consequências de outro ataque de colonos e a instalação de um posto avançado ilegal. Segundo a associação, houve armas apontadas, ordens para parar de filmar, a imobilização violenta de um fotojornalista e danos no equipamento.
O exército israelita disse que vai investigar e reconheceu que a atuação dos soldados não representa o que é esperado deles.
Perceber esta violência pede também que se perceba a sua gramática. O sionismo, no seu sentido histórico mais amplo, é o movimento nacional judaico que defendeu a criação e a preservação de um Estado judeu na Palestina. A corrente que alimenta muitos dos colonos mais radicalizados na Cisjordânia é apenas uma parte desse universo e mistura nacionalismo, religião e território.
Parte da convicção de que a terra bíblica — Judeia e Samaria, na linguagem usada em Israel — pertence ao povo judeu e não deve ser entregue a um futuro Estado palestiniano. É dessa matriz que saem muitos dos postos avançados e também a linguagem que os acompanha. Depois de outra demolição em Kol Mevaser, uma mensagem num grupo de WhatsApp dos ativistas dizia: “Continuaremos a reconstruir de novo e a colonizar a Terra de Israel”. E o ministro israelita Bezalel Smotrich tem apresentado a expansão dos colonatos como forma de “enterrar” a ideia de um Estado palestiniano.
Do ponto de vista histórico e jurídico, a questão é menos nebulosa do que o terreno faz parecer. A Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, foi ocupada por Israel na guerra de 1967 e é reclamada pelos palestinianos, juntamente com Gaza, para um futuro Estado. Mais de 700 mil colonos israelitas vivem hoje em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia entre mais de três milhões de palestinianos.
A resolução 2334 do Conselho de Segurança reafirmou em 2016 que os colonatos “não têm validade legal”. Em julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça concluiu que a presença continuada de Israel no Território Palestiniano Ocupado é ilegal e que Israel deve pôr termo a essa presença o mais rapidamente possível. Israel contesta esta leitura do direito internacional.
No terreno, a fronteira entre violência de colonos e ação do Estado aparece muitas vezes esbatida. A Yesh Din, organização israelita de direitos humanos, diz que 93,6% dos inquéritos policiais que acompanha desde 2005 sobre crimes ideologicamente motivados cometidos por israelitas contra palestinianos terminaram sem acusação e que apenas 3% levaram a condenações totais ou parciais.
A mesma organização documentou quase 30 episódios de violência organizada em massa entre 2023 e novembro de 2025 e, em 16 deles, soldados ou polícias estavam presentes e ajudaram direta ou indiretamente o ataque.
Num relatório divulgado este mês, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos foi mais longe e afirmou que as autoridades israelitas tiveram um papel central ao dirigir, participar ou permitir esta conduta, o que torna difícil separar violência estatal de violência de colonos.
A Reuters relatou ainda, em Abu Falah, a norte de Ramallah, que ambulâncias tiveram dificuldade em chegar a feridos por causa de bloqueios militares e que médicos denunciaram ataques tanto de colonos como do próprio exército às equipas de socorro. O exército israelita diz que condena a violência de colonos, que a investiga e que não impede o movimento de equipas médicas.
Em Mukhmas, no entanto, tudo isto cabe numa cronologia curta. Os colonos desceram por volta das três. Os moradores ligaram para o exército. Os soldados chegaram depois das quatro. Nessa altura os atacantes já tinham saído. Depois voltaram. Na Cisjordânia ocupada, é muitas vezes assim que a violência se instala e se prolonga: não como exceção, mas como método, com um posto avançado no alto da encosta, uma aldeia palestiniana em baixo e tempo suficiente, entre uns e outros, para que quase tudo volte a acontecer.