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Chéquia

"Damos à luz apenas para os perdermos": as mães palestinianas feridas e de luto pelos seus bebés mortos em Gaza

CNN , Sarah Sirgany e Jomana Karadsheh
18 mai, 22:00
As imagens da destruição no norte da Faixa de Gaza (EPA/HANNIBAL HANSCHKE)

NOTA DO EDITOR | Aviso – esta história contém descrições gráficas de ferimentos

Raneem Hijazi lembra-se do quão firmemente segurou o seu filho de um ano Azzouz mesmo antes do ataque aéreo israelita. O drone a sobrevoar o edifício onde vivia em Gaza foi ficando cada vez mais sonoro e ela teve a sensação de que algo mau estava prestes a acontecer. “O que quer que me aconteça, acontece-lhe a ele”, diz ela sobre o que a levou a apertá-lo bem junto da sua barriga de grávida.

Hijazi não se lembra do momento do impacto, mas a memória do rescaldo do ataque está impressa no seu cérebro. “Não se sente o ataque em si mesmo, simplesmente abrimos os olhos e estamos sob os escombros”, diz.

Começou imediatamente às apalpadelas à sua volta, à procura de Azzouz, até ouvir a sogra gritar. “Ela encontrou-o sobre a minha barriga. Pegou nele. O corpo dele estava nas mãos dela e a cabeça dele caiu sobre a minha barriga”, recorda.

Desde aquele momento, a 24 de outubro, Hijazi tem questionado a sua vontade de viver. Inicialmente pediu à família que a deixasse ali para morrer, mas em vez disso eles foram à procura de ajuda para a desenterrarem dos escombros da casa destruída em Khan Younis.

“A minha perna não era visível. O meu braço estava pendurado do meu corpo seguro apenas por um pequeno pedaço de carne. Tentei arrancá-lo mas não consegui, então pousei-o em cima da minha barriga”, diz.

Quando chegou ao hospital, presumia-se que estava morta, conta. A sua gravidez de oito meses fez com que os médicos voltassem a olhar para ela e fizessem o parto da sua filha Mariam por cesariana.

“Quando ela deu o seu primeiro suspiro, eu voltei à vida”, conta. “Os médicos disseram-me que foi um milagre.”

Hijazi conta a sua história numa voz fraca, deitada numa cama de hospital em Doha, a capital do Qatar. O seu braço esquerdo foi amputado e ambas as pernas sofreram danos extensos, tendo sido necessários enxertos ósseos para as reparar.

Atraso crítico

Apesar dos ocasionais gemidos de dor, os corredores relativamente tranquilos da ala de Gaza no Hospital Hamad em Doha são totalmente diferentes das instalações médicas sobrecarregadas de Gaza. Por trás de cada porta há uma história de sobrevivência milagrosa manchada por uma perda inconsolável. As mães que estão a receber tratamento por ferimentos que lhes mudaram completamente a vida podem finalmente começar a processar a perda de um filho e a debater-se com a sua reduzida capacidade de cuidar dos filhos que sobreviveram.

“Foi a minha filha que me salvou. Quando eu fiquei ferida, só dizia ‘Não a quero, quero o meu filho de volta’”, diz Hijazi. “Não conseguia sequer levantar a minha cabeça. Não conseguia olhar para ela, quanto mais cuidar dela.” Espera que um dia a filha lhe dê a energia para continuar.

Hijazi foi retirada de Gaza para receber tratamento médico um mês após ter ficado ferida. Mariam, quase da idade da guerra e com as mesmas bochechas rechonchudas do seu falecido irmão, está com os avós no Egito. Hijazi tem visto Mariam crescer através de vídeochamadas. Não pega nela há mais de seis meses. Em Doha, consegue sair do hospital entre cirurgias e os médicos asseguram-lhe que voltará a ser capaz de andar.

“Trabalho em ortopedia há cerca de 21 anos. O tipo de ferimentos, a severidade dos ferimentos, os tipos de perda óssea e o tipo de infeções que temos enfrentado em doentes de Gaza vão para lá de tudo o que já eu já vi”, diz o dr. Hasan Abuhejleh, cirurgião ortopédico a dar consultas no Hospital Hamad. Já teve de dizer a muitos doentes que as suas amputações, apesar de necessárias para lhes salvar a vida, poderiam ter sido evitadas se houvesse mais recursos disponíveis em Gaza.

Os médicos Hasan Abuhejleh e Ahmed AlSaadi assistem os doentes de Gaza no Hospital Hamad em Doha, no Qatar (Sanjiv Talreja/CNN)

Mais de 4.800 pessoas foram retiradas de Gaza para tratamentos médicos desde que Israel lançou a sua ofensiva militar em resposta aos ataques do Hamas de 7 de outubro, e muitos mais milhares aguardam em condições graves para serem retirados. Israel rejeita 42% dos pedidos de evacuações médicas, disseram as Nações Unidas e agências de ajuda humanitária numa atualização de informações a 10 de maio. Nos últimos dias, acrescentaram, “o encerramento da passagem de Rafah suspendeu abruptamente todas as evacuações médicas de doentes críticos e feridos para fora de Gaza”.

A CNN ainda não obteve resposta do Coordenador das Atividades Governamentais de Israel nos Territórios (COGAT) ao seu pedido de comentário sobre a rejeição dos pedidos de evacuações médicas.

Os atrasos nas evacuações médicas têm tido um impacto enorme nos casos que chegam ao hospital de Abuhejleh.

Sabha Al-Soury conforta a filha Ola no hospital de Doha. Para além de terem perdido familiares, estão preocupadas com o destino daqueles que tiveram de deixar para trás (Darren Bull/CNN)

Foto assombrosa

A dor reverbera em diferentes frequências pelos quartos do hospital. Shaimaa al-Ghoul envia mensagens à equipa da CNN de um quarto de isolamento. Como tantos outros doentes que vieram de Gaza, tem uma infeção resistente a antibióticos contraída nos hospitais em crise do território palestiniano.

Al-Ghoul perdeu o marido e dois dos quatro filhos num ataque aéreo em Rafah, em fevereiro. A família estava a dormir num quarto quando, de repente, “a cama abriu-se ao meio e eu caí pelo chão adentro”, recorda.

“Ouvi o Hothaifa (o filho de 11 anos) a implorar aos socorristas que não o deixassem para trás. Não ouvi o meu marido nem a Jenan nem o Mohamed, por isso soube que eram mártires.”

Estava grávida de nove meses e acredita que os estilhaços que atingiram a sua barriga também mataram o seu filho por nascer. Abdullah nasceu morto no dia seguinte.

Al-Ghoul partilha fotografias dos seus filhos alegres antes da guerra, seguidas de uma fotografia amplamente difundida do corpo da sua filha Jenan, os membros inferiores decepados pela explosão a pender de uma janela pelo lenço que ela estava a usar na cama. Quer mostrar os horrores da guerra e as memórias que a assombram e que assombram a outras pessoas desta ala.

O seu filho Hothaifa percorre os corredores do hospital de muletas. A sua perna ferida está demasiado inchada para aguentar peso. As gargalhadas que são fáceis de soltar para a sua irmã de seis anos, Mariam, que não estava com a família naquela noite e que foi retirada sem ferimentos, parecem estranhas aos músculos da face de Hothaifa.

Mariam entra num quarto que outros doentes nos tinham avisado que alberga histórias horrendas de dor e perda. Brinca nas camas deixadas vazias quando alguns doentes saem nas suas cadeiras de rodas para apanhar ar fresco ao pôr do sol.

Vida depois da perda

Dentro deste quarto, Shahed Alqutati, 23 anos, acaba de terminar a fisioterapia. A sua perna esquerda foi amputada e a outra está presa com um fixador externo – uma estrutura de metal que mantém unidos os ossos esmagados. O ataque que atingiu o seu apartamento no terceiro andar de um edifício no norte de Gaza, a 11 de outubro, atirou-a e ao marido Ali, um professor universitário de 26 anos, para o meio da rua.

Em estado de choque, abriu os olhos e viu que estava sem perna e sangue por todo o lado. “O meu marido estava à minha frente. Também estava ferido. Ele perdeu as duas pernas e uma mão. Quando gritei por ele ‘Ali, Ali’ ele ouviu-me e também gritou ‘Shahed’. Olhou para o seu braço cortado e perguntou-me ‘onde está o meu braço’.”

Estas foram as últimas palavras que partilharam. Ambos foram levados para o hospital, mas Ali não sobreviveu. Alqutati perdeu o amor da sua vida e o bebé que estavam prestes a ter.

“Uma semana antes da guerra comprámos tudo para o bebé, todas as roupinhas, todas as t-shirts. Tudo cor de rosa. Estávamos tão entusiasmados”, recorda. A filha Sham nasceu morta dois dias depois do ataque, dois meses antes da data prevista do parto.

Shahed Alqutati perdeu o amor da sua vida e o seu bebé por nascer na sequência de um ataque aéreo israelita que atingiu a sua casa a 11 de outubro (Darren Bull/CNN)

O seu sofrimento não acabou aí. Alqutati foi levado para o Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, para receber tratamento – e em novembro suportou um cerco israelita que deixou doentes e funcionários sem comida nem água e com material médico cada vez mais escasso. Após duas semanas, o exército israelita obrigou-a e a outros a saírem do hospital.

O pai dela empurrou-a numa cadeira de rodas por estradas danificadas. Num checkpoint, conta ela, “os soldados [israelitas] dispararam para o ar e disseram às pessoas para voltarem para trás. Para trás, para onde? Não havia para onde ir. Andámos e andámos durante muitas horas.” Aquele obstáculo acrescentou mais um dia à sua árdua jornada nas ruas.

Quando chegaram a Rafah, as feridas estavam a sangrar e infectadas, diz Alqutati, mas continuava com medo de entrar em hospitais com dificuldade em lidar com o fluxo diário de pessoas feridas no conflito. “Se eu fosse para o hospital morreria, não iria recuperar nem curar-me”, diz. O pai mudou-lhe os pensos das feridas longe dos hospitais.

O tratamento chegou depois de ter sido retirada de Gaza por motivos médicos e com ele o tempo para processar as suas perdas. Num de vários vídeos que partilha nas redes sociais, o seu falecido marido Ali surge a sorrir envergonhado quando se apercebe que ela o está a filmar de novo, durante um evento da universidade, a partir do banco de trás de um carro, enquanto ele caminha numa loja.

“Ninguém irá sentir a [minha] dor. Com as pessoas [sou] forte, feliz, rio. Mas quando fico sozinha, sinto algo doloroso aqui”, diz apontando para o coração. “Ninguém me pode curar disso.”

“Isto ficará comigo toda a vida. Amputações, fraturas, queimaduras, problemas nos nervos… Não há uma perna nova para mim. Isto é algo que nunca será esquecido. Como posso esquecer? Perdi o meu amado e a minha bebé”, acrescenta.

Apesar dos diferentes resultados das suas gravidezes, Alqutati e Hijazi descrevem um desespero semelhante que as prende aos horrores da guerra em Gaza. Como muitas pessoas retiradas por razões médicas, não têm certezas quanto ao seu futuro e ao local onde poderão vir a ficar, e estão preocupadas com os familiares que estão retidos em Gaza.

“A vida acabou. Já não há mais alegria”, diz Hijazi. “Fecho os olhos e sou invadida por todas as memórias. Fui ao centro comercial e vi o leite de fórmula que eu dava ao meu filho e senti que estava a morrer. E era só leite de fórmula. Conseguem imaginar o que acontece quando o vejo em fotografias e vídeos ou quando vejo os brinquedos dele ou as suas roupas.” As lágrimas escorrem-lhe pela cara ao ver um vídeo que filmou de Azzouz a rir.

“A dor nunca irá desaparecer. São coisas que não podem ser esquecidas”, diz. “Damos à luz apenas para os perdermos.”

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